Existem jogos que a gente joga, e existem mundos em que a gente habita. Riven, o sucessor espiritual de Myst, sempre foi conhecido por ser esse segundo tipo. Originalmente lançado em 1997, o game desafiou as máquinas da época com seus cinco CDs e cenários pré-renderizados que pareciam fotografias de outro planeta. Agora, em 2026, tive o prazer de mergulhar na versão totalmente reconstruída para o PlayStation 5, e o que encontrei foi um “remake de respeito” que não apenas honra o passado, mas estabelece um novo padrão de fidelidade visual e otimização.

Uma Aula de Design e Atmosfera
Logo de cara, o que salta aos olhos é a direção de arte. Para quem trabalha com estética e design, é impossível não se perder nas texturas e na iluminação de Riven. A ilha não é apenas um cenário estático; ela parece respirar. As águas cristalinas, o metal enferrujado das máquinas de Gehn e a vegetação exótica criam uma atmosfera de isolamento e mistério que poucos títulos conseguem emular.
A otimização aqui merece um capítulo à parte. Mesmo com gráficos deslumbrantes e uma distância de visão impressionante, o jogo roda liso, permitindo que a exploração flua sem interrupções. É o tipo de experiência que justifica o hardware de nova geração, entregando um realismo que serve à narrativa, e não apenas ao “showcase” técnico.

O Poder da Escrita e a Tragédia Familiar
A história de Riven é fascinante, embora sutil. Para quem está chegando agora, o conceito central gira em torno da “Arte da Escrita” um poder herdado da civilização D’ni que permite criar livros capazes de servir como portais para outras Eras (mundos).
Neste remake, a trama ganha novas camadas. Você é enviado por Atrus, um homem desesperado para salvar sua esposa, Catherine, que está presa em Riven. O grande antagonista é Gehn, o pai de Atrus. Gehn não é apenas um vilão comum; ele é um homem que se vê como um deus, tentando reconstruir um império em um mundo que está literalmente se despedaçando devido à sua escrita imperfeita. Entender essa dinâmica entre pai e filho, e como o poder pode corromper a mente humana, é o que dá peso a cada passo que damos naquelas passarelas de metal.

Puzzles que Respeitam a Inteligência do Jogador
Os puzzles de Riven são lendários, e no remake eles continuam sendo o coração da experiência. Aqui, a criatividade impera. Você não vai encontrar alavancas aleatórias sem propósito; tudo no jogo faz sentido dentro daquele ecossistema. Um mecanismo de energia, um código visual ou um som de animal cada detalhe é uma peça de um quebra-cabeça maior. É um jogo que exige observação, anotações e, acima de tudo, paciência. A sensação de “estalo” quando você finalmente entende como um sistema funciona é uma das mais gratificantes que o gênero de aventura pode oferecer.
Localização: Um Presente para os Brasileiros
Um ponto que me deixou extremamente satisfeito foi o cuidado com a localização. Riven está totalmente legendado em português, e o trabalho foi além do óbvio. Os diários encontrados pelo mapa essenciais para entender a lore e resolver mistérios trazem as páginas manuscritas traduzidas, respeitando a caligrafia e a estética do material original. Para o público brasileiro, isso não é apenas uma conveniência, é uma ferramenta de imersão que permite apreciar cada detalhe da escrita de Gehn ou Catherine sem barreiras linguísticas.

Veredito Final
Riven é uma experiência única. Ele consegue ser nostálgico para os veteranos e absolutamente moderno para os novos jogadores. É um convite ao raciocínio, à contemplação e à admiração técnica. Se você busca um jogo que desafie seu intelecto enquanto te presenteia com paisagens inesquecíveis, Riven é obrigatório na sua biblioteca.
Este é o meu Pitaco do Paganotti: um remake feito com alma, que prova que o bom design é atemporal.

Review de Jogos / Criador de Conteúdo
Designer, criador de conteúdo no canal Rafael Paganotti com seu quadro de review “Pitaco do Paganotti” e redator especializado em hardware e games, acompanhando a evolução da indústria há mais de 15 anos.
