Nocturne entra naquele “hall” de jogos que parecem completamente malucos quando você explica a ideia para alguém. “É um RPG sobre um pós-vida digital e o combate acontece no ritmo da música.” Pronto. Você provavelmente acabou de perder metade das pessoas da sala ou do grupo de WhatsApp. Mas depois de jogar, a proposta começa a fazer bastante sentido.

O mundo de Nocturne é uma espécie de pós-vida digital onde a humanidade já deixou de existir da maneira que conhecemos. Você explora esse lugar, encontra personagens estranhos, descobre o que aconteceu e vai entendendo aos poucos as regras desse novo mundo.
A história tem um lado bastante filosófico, principalmente quando começa a brincar com temas como consciência, existência e o que realmente significa estar vivo. E o jogo não precisa ficar explicando tudo o tempo inteiro, o que ajuda bastante na descoberta.
A campanha passa das dez horas e possui uma quantidade enorme de diálogos. É uma aventura que claramente quer contar uma história, e não apenas usar a narrativa como desculpa para colocar o jogador na próxima batalha. Em alguns momentos ela é séria, em outros consegue ser estranha e até engraçada, o que combina bastante com o universo.
Gameplay
Em vez daquele sistema tradicional de RPG em que você escolhe um comando e espera o personagem fazer o trabalho, aqui é preciso acompanhar o ritmo da música. As notas aparecem na tela e você precisa acertá-las no momento certo para realizar os ataques. Parece simples, mas basta uma sequência mais rápida aparecer para você descobrir que seus dedos não são tão talentosos quanto imaginava.
E o jogo não coloca a música apenas como um enfeite. Ela realmente faz parte do combate. Cada inimigo possui sua própria faixa e o ritmo pode mudar de acordo com o adversário. Existem inimigos que alteram as pistas e deixam os ataques mais complicados, fazendo com que você precise prestar atenção não apenas na batalha, mas também na música.

São 101 faixas jogáveis, e isso ajuda bastante a evitar aquela sensação de estar ouvindo a mesma coisa o tempo inteiro. Os chefes também recebem músicas próprias, algumas gravadas pela Orquestra Sinfônica Nacional da Eslováquia. É um exagero? Talvez. Mas quando você está enfrentando um chefão enquanto uma orquestra inteira toca ao fundo, fica difícil reclamar.
O problema é que Nocturne cobra atenção. Mesmo nas dificuldades mais baixas, existem momentos que exigem bastante concentração. Você começa uma batalha tranquilo, acerta algumas notas e pensa que entendeu tudo. Aí o jogo acelera a música, muda o padrão e você começa a apertar botão como se estivesse tentando desarmar uma bomba.
Isso pode ser divertido para quem gosta de jogos de ritmo, mas também é justamente o ponto que pode afastar algumas pessoas. Se você não tem muita paciência para acompanhar notas ou simplesmente não gosta desse tipo de mecânica, algumas batalhas provavelmente vão virar um teste de resistência. O jogo oferece seis níveis de dificuldade, mas isso não significa que ele queira pegar leve o tempo inteiro.

Felizmente, existe bastante coisa acontecendo fora das batalhas. Nocturne possui elementos tradicionais de RPG, com níveis, atributos, equipamentos, itens, lojas, exploração e segredos. Você consegue melhorar seu personagem e encontrar equipamentos que mudam suas capacidades. Isso dá mais sentido à progressão e evita que tudo pareça apenas um jogo de ritmo com personagens de RPG.
A exploração também funciona bem. O mundo em pixel art possui áreas para investigar, personagens para encontrar e lugares que escondem coisas. Nem tudo está simplesmente colocado na sua frente, então existe a satisfação de entrar em um canto que parecia não ter importância e descobrir alguma coisa. É uma estrutura simples, mas funciona porque incentiva o jogador a prestar atenção no cenário.
E tem um detalhe que resume bem a personalidade de Nocturne: você pode encontrar um peixe laranja gigante para fazer amizade. Em um jogo sobre o fim da humanidade e um pós-vida digital, aparentemente ainda existe espaço para amizade com peixes gigantes. E sinceramente? Ainda bem.
O Arcade Mode também é uma boa adição. As músicas são liberadas conforme você enfrenta os inimigos e podem ser jogadas novamente para tentar melhorar sua pontuação. Para quem gosta de jogos de ritmo, isso aumenta bastante a vida útil do jogo. Depois de terminar a campanha, ainda existe um motivo para voltar e tentar fazer aquela música que destruiu sua autoestima na primeira tentativa.

Apesar de todas essas qualidades, algumas mecânicas de RPG poderiam ter um impacto maior durante as batalhas. Em determinados momentos, parece que a habilidade do jogador com o ritmo pesa mais do que a preparação do personagem. Isso faz sentido dentro da proposta, mas pode deixar parte da progressão menos importante do que poderia ser.
No geral, porém, o sistema funciona. O ritmo não está separado do RPG, e o RPG também não parece estar ali apenas para enfeitar o combate. É uma mistura incomum, mas depois de algumas horas você começa a entender exatamente o que os desenvolvedores estavam tentando fazer.
Direção de arte geral
Nocturne aposta em uma pixel art muito bonita e cheia de personalidade. O jogo consegue misturar ambientes coloridos com regiões mais sombrias, deixando claro que aquele mundo não está exatamente vivendo seus melhores dias.
Os personagens também possuem designs interessantes e combinam com essa mistura de ficção científica, fantasia e RPG clássico. Não é aquele visual que tenta impressionar pela quantidade de detalhes ou efeitos modernos. A graça está justamente na identidade visual e na maneira como o jogo consegue criar diferentes atmosferas usando pixel art.

Mas, para mim, a música praticamente divide o protagonismo com o visual. Como ela está diretamente ligada ao combate, a trilha deixa de ser apenas um acompanhamento e passa a fazer parte da experiência. As mais de 100 faixas ajudam a diferenciar os inimigos e dão personalidade aos confrontos, enquanto as músicas dos chefes elevam ainda mais o clima.
É uma uma trilha que você percebe que foi pensada para o jogo, e não simplesmente colocada ali para preencher silêncio. Faz parte da personalidade.

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