O mercado de jogos de terror vive uma fase interessante onde a busca por imersão extrema abriu portas para subgêneros bastante específicos. Entre eles, a estética de body cam caiu no gosto popular por simular imagens capturadas por câmeras corporais de policiais ou equipes de resgate, trazendo um realismo cru e sufocante. Quando recebi a chave de It Reaches por cortesia da Perp Games a quem agradeço demais, fiquei curioso para ver como essa proposta se traduziria em um survival horror nos consoles de nova geração. O resultado é uma experiência que acerta em cheio na atmosfera e na tensão, mas que tropeça em decisões técnicas e de acessibilidade que acabam limitando seu potencial máximo.
Uma Premissa Misteriosa e a Frustração da Falta de Português
A história do jogo começa de forma direta e sem muitas explicações expositivas. Assumimos o papel de um policial que chega para investigar um local isolado com características de um laboratório clandestino de experimentos obscuros. No entanto, logo nos primeiros minutos, a situação escala de maneira drástica quando somos puxados para o subsolo por uma mão gigantesca e monstruosa. É a partir desse ponto que nossa luta desesperada pela sobrevivência de fato começa.



O grande calcanhar de aquiles logo no início da jornada é a ausência total de legendas ou textos em português do Brasil. O enredo traz ganchos interessantes sobre a pesquisa científica por trás daquele pesadelo e fragmentos da mente do protagonista, mas a barreira idiomática torna a compreensão da lore bem mais difícil para o público nacional. Os estúdios precisam entender que o Brasil abriga uma comunidade gamer gigantesca e engajada, e a localização deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade básica de imersão.

Furtividade, Barulho e Sobrevivência Tática
Na parte de gameplay, It Reaches bebe claramente da fonte dos shooters focados em sobrevivência e gestão de recursos. O jogo deixa claro que sair atirando em tudo o que se mexe é a rota mais rápida para o fracasso. O som desempenha um papel central na mecânica. Andar sobre superfícies barulhentas como cacos de vidro espalhados pelo chão, disparar uma corrida em momentos inoportunos ou ligar motores a gasolina atrai criaturas implacáveis para a nossa direção.


Para sobreviver, é preciso dominar a arte de se manter agachado, usar armários como esconderijos e controlar o fôlego com precisão. O sistema de prender a respiração funciona bem, mas exige cuidado extremo porque a estamina se esgota rápido. Se o fôlego acabar na hora errada, o personagem solta um som que denuncia a posição imediatamente.



A exploração é recompensadora e livre de mapas ou guias apontando o caminho. Precisamos nos orientar visualmente pelos corredores escuros, resolver quebra-cabeças ambientais para destravar portas e coletar parafusos pelo cenário. Esses itens servem como moeda de troca em bancadas de trabalho espalhadas estrategicamente, permitindo aplicar melhorias nas armas para lidar com os perigos mais pesados que surgem conforme avançamos.


O Desempenho Técnico no PlayStation 5 Pro
Quando entramos no departamento técnico, o jogo apresenta seus maiores contrastes. Testando a versão no PlayStation 5 Pro, o título roda de forma consistente em trinta quadros por segundo, apresentando pequenas quedas pontuais que não chegam a quebrar a experiência, mas que deixam um gosto amargo. Tratando-se de um console de alta potência executando um projeto independente, a expectativa natural é alcançar sessenta quadros por segundo. Em um shooter em primeira pessoa onde a agilidade de mira e a fluidez importam tanto, essa taxa limitada incomoda bastante em momentos de ação mais intensa.
Em contrapartida, a direção de arte brilha na construção de cenários. A atmosfera é densa, claustrofóbica e o trabalho de iluminação faz um excelente papel ao criar sombras e cantos escuros que geram uma paranoia constante. Os gráficos não revolucionam a indústria, mas cumprem muito bem o propósito estético.



Um ponto positivo digno de nota fica nas opções de configuração. O jogo permite desativar o modo body cam tradicional. Ao desligar essa opção, o incômodo efeito de lente de peixe e as interferências visuais constantes somem da tela, revelando um visual bem mais limpo e agradável na minha opinião. A movimentação do personagem é razoável e cumpre o papel, embora pudesse ser um pouco mais polida. O balanço da câmera e a sensação de manter a arma erguida enquanto caminhamos funcionam bem, garantindo trocas de tiro decentes quando a furtividade falha.
Considerações Finais
It Reaches é um projeto que demonstra coragem ao apostar em uma identidade visual forte e mecânicas de sobrevivência que exigem cautela do jogador. A ambientação claustrofóbica e o design de som competente garantem sustos legítimos e momentos de pura adrenalina nos corredores do laboratório.
Apesar disso, esbarra em barreiras importantes como a falta de localização para o nosso idioma e escolhas de desempenho difíceleis de engolir no PlayStation 5 Pro, onde a taxa de quadros deveria ser prioridade. Se você é fã de um bom survival horror tático e não se importa com limitações técnicas moderadas, o título entrega uma jornada desafiadora. Com pequenos ajustes em futuros patches, a experiência poderia alcançar um patamar muito superior, mas ainda assim consegue divertir e testar os nervos de quem ousa desvendar seus segredos.
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Designer, criador de conteúdo no canal Rafael Paganotti com seu quadro de review “Pitaco do Paganotti” e redator especializado em hardware e games, acompanhando a evolução da indústria há mais de 15 anos.

