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O que vale mais: a experiência ou a discussão?

O que vale mais: a experiência ou a discussão? Os jogos sempre foram uma parte de mim e, sinceramente, não consigo lembrar qual foi o primeiro jogo que joguei na vida. Não consigo nem mensurar quantos jogos eu já joguei, porque meu primeiro console foi um Xbox 360 desbloqueado que acabei vendendo para comprar meu Xbox One e o histórico do que eu já tinha jogado até aquele ponto se perdeu.

Na minha visão, jogos são uma forma única de arte que sempre tive o interesse de experienciar e aprender mais sobre. Hoje em dia, é uma honra poder escrever sobre o que eu jogo aqui no Patobah! e compartilhar com quem tá atrás de um jogo novo ou tá querendo saber mais de algum que já esteja de olho. Desde a comunidade que participo até as experiências que eu tenho por conta dos jogos, é um fator muito marcante e decisivo na minha vida inteira.

Entretanto, venho acompanhando os últimos lançamentos e últimas notícias sobre os jogos e existem coisas que me incomodam profundamente. A comunidade está cada vez mais polarizada e cada vez mais reativa, é como ver uma reação química sendo catalisada e próxima do ápice. É disso que quero falar hoje.

Mixtape: um catalisador das discussões

Catalisador, para aqueles que não sabem, é uma substância que acelera uma reação química sem ser usada na reação. Basicamente, a presença dele faz com que a reação aconteça mais rápida e intensa, enquanto ele permanece intacto. O lançamento de Mixtape é um exemplo muito claro de catálise.

Desenvolvido por Beethoven & Dinosaur e publicado pela Annapurna Interactive, Mixtape é um jogo de aventura que foi lançado no dia 07 de maio de 2026. A premissa é ser um jogo que homenageia a cultura dos anos ‘90 e desperta a sensação de nostalgia para aqueles que viveram a época. A recepção da crítica foi muito positiva, recebendo uma média de avaliações do Metacritic de 85 para o PlayStation 5 até 94 para o Xbox Series X|S.

Entretanto, as discussões da comunidade estão bem acirradas. O ponto central da discussão é sobre a definição do que é um jogo. Mixtape é um título com a proposta de ser uma experiência simples e curta, com momentos em que pouco ou nenhum comando do jogador é necessário, além de não ser possível falhar em uma ação. Várias análises de usuários no Metacritic (que vale ressaltar, podem ser escritas por qualquer um, mesmo que não tenha jogado) criticam a falta de interatividade e afirmam que Mixtape não é um jogo, mas um filme interativo ou uma visual novel

A definição do que é um jogo, na minha visão, é mais complexa do que essas críticas fazem parecer. Definir um jogo pela quantidade de botões pressionados ou quantidade de horas reduz toda a arte e significado da obra para apenas sua parte mecânica. Se considerarmos como jogos apenas pela quantidade de comandos, jogos frenéticos como os de FPS ou jogos clicker seriam os mais jogados e bem avaliados. Se considerarmos como jogos apenas pela quantidade de horas, jogos sandbox como Minecraft que são virtualmente infinitos também seriam os melhores. Entretanto, temos uma quantidade massiva de jogos de escopo e orçamento variado com duração até 30h ou com controles simples e com ritmo mais lento, sem precisar de vários comandos para finalizar.

A questão é que jogos diferentes se propõem a coisas diferentes. Um jogo multiplayer como Call of Duty se propõe a ter um fator replay maior, buscando angariar mais jogadores e mantê-los entretidos pelo maior tempo possível, aumentando o número de jogadores online em um dado momento e, por consequência, a receita com microtransações. Por outro lado, jogos narrativos como The Expanse: A Telltale Series se propõe a ter uma narrativa mais densa e complexa, muitas vezes focando em manter o jogador por apenas a sua primeira jogatina. 

O fato é que jogadores possuem gostos completamente diferentes. Eu, pessoalmente, não gosto de jogos do gênero Soulslike. A dificuldade elevada e a curva íngreme de aprendizado fazem com que a minha experiência seja desagradável. Entretanto, várias outras pessoas apreciam o gênero e é inegável o impacto que os jogos lançados pela FromSoftware têm na indústria. Da mesma forma, sou um fã assíduo da CD Projekt Red, mas entendo aqueles que não gostaram de Cyberpunk 2077 ou se sentiram enganados pelo seu lançamento.

Jogos são uma categoria de arte única porque o jogador é a parte central da composição. Seja apertando um botão a cada 5min ou gerenciando recursos em tempo real para vencer um combate acirrado, é o jogador quem conduz a obra e é por conta do jogador que a arte dos jogos se manifesta e avança. Entretanto, não é porque o jogador é a peça central que o jogo foi feito para todos os jogadores. Eu não tenho uma experiência boa com Soulslikes, mas tenho com RPGs, então eu não preciso me forçar a gostar daquilo. Eu posso procurar mais sobre e jogar aqueles jogos que realmente me trazem uma boa experiência. 

Claro que, nesse exemplo, eu sei que não gosto do gênero porque eu já tive a experiência de jogar um título e não me agradou. Existe uma gama de gêneros de jogos que eu não experimentei ainda e, caso algum jogo me chame a atenção, com certeza irei experimentar. Caso eu não esteja tendo uma experiência boa, eu não sou obrigado a finalizar o jogo, posso somente parar por ali. Experimentar coisas novas e desconhecidas, seja um gênero ou jogo novo, faz parte da vida e, infelizmente, terão vezes que não será agradável e não temos controle disso. Entretanto, continuar e estender a experiência ruim está sob nosso controle. O jogador é o ponto central desse estilo de arte porque é o jogador que está no controle do início, meio e fim da interação.

Precificação de jogos no Brasil e assinaturas

Outra discussão bem polêmica é sobre a precificação dos jogos no Brasil, principalmente com a discrepância entre os preços dos jogos na PSN e em outras lojas digitais. Novamente, jogos são uma forma de arte e entretenimento, que deveria ser direito a toda e qualquer pessoa. Entretanto, o acesso aos jogos, principalmente os últimos lançamentos, está sendo bloqueado por uma barreira financeira cada vez maior. O preço base de jogos digitais está subindo, com rumores de aumentar ainda mais com o lançamento de Grand Theft Auto VI, além do preço de hardware que está cada vez mais alto, seja console ou PC, devido ao aumento exponencial do custo das memórias RAM.

Na minha opinião, todos deveriam ter acesso ao entretenimento que mais se identifica, sendo cobrado um valor justo e que esteja no orçamento da pessoa. Mas, infelizmente, vivemos em um país com uma desigualdade socioeconômica alarmante. O sonho de todos poderem jogar os últimos lançamentos é apenas uma utopia quando o preço de um AAA é quase um terço do salário de 35 milhões de trabalhadores.

Uma alternativa que temos para acessar uma quantidade maior de jogos, mas com um custo menor que um lançamento, são as assinaturas de jogos. Seja com o catálogo da PlayStation Plus ou com os lançamentos saindo no primeiro dia no Xbox Game Pass, as assinaturas oferecem uma biblioteca de centenas de jogos (a depender da categoria assinada) por um valor mensal que pode ser mais vantajoso para quem joga bastante.

experiência

Entretanto, o que se vê na comunidade é um sentimento de repulsa por quem assina para jogar os títulos das assinaturas. Ofensas como “mendigo” são bem comuns por aqueles que se sentem superiores por terem pago o valor de varejo do mesmo jogo que saiu no dia primeiro com a assinatura do Xbox Game Pass Ultimate. A experiência é a mesma, o jogo é o mesmo, a única diferença é a quantia cobrada pelo acesso ao entretenimento. Um valor menor por um acesso com prazo de um mês ou um valor maior para ter acesso vitalício.

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Por outro lado, vemos o outro extremo da discussão. Vejo muitas pessoas fazendo imagens e planilhas afirmando economizar dezenas de milhares de reais por assinar o serviço da Microsoft. A realidade é que essas imagens e planilhas são extremamente infladas e não refletem a verdadeira economia que um jogador teria ao assinar. Digamos que eu tenha assinado o Xbox Game Pass Ultimate esse mês e tivemos dois lançamentos: Elden Ring e Crimson Desert. Uma planilha colocaria que eu paguei R$73,00 e economizei R$650,00, mas isso não seria a minha realidade. Como eu disse anteriormente, não sou fã de Soulslike, então nem tocaria no Elden Ring. Crimson Desert é um jogo que eu levaria pelo menos 2 meses no meu ritmo de jogo normal e, com o tanto que ando trabalhando ultimamente, provavelmente seriam 3 meses. Então, a conta para a minha economia seria: paguei R$219,00 (3 meses de Ultimate) para usufruir de um jogo de R$350,00. Claramente, ainda seria vantajoso por ainda estar pagando menos, mas não é a economia de quase R$600,00 que seria divulgada. 

As assinaturas têm catálogos muito vastos que buscam abranger muitos tipos de jogadores diferentes. Isso é excelente para poder oferecer jogos novos e que várias pessoas possam se interessar, além de servir como vitrine para testar outros gêneros que não se tem muito contato. O problema está em diminuir alguém por estar acessando uma forma de entretenimento de forma mais barata ou em querer inflar os números e passar uma sensação de economia falsa e distorcida da realidade.

A verdade é que quem define o valor que um jogo tem é você. Quem sabe o quanto precisou trabalhar para conquistar o seu salário é você e é você quem precisa definir o quanto está disposto a pagar pelo seu entretenimento. Pra mim, Elden Ring pode ser distribuído de graça pela Epic Games que ainda não terá valor na minha concepção. É um gênero que eu não gosto e pegar o jogo só por estar de graça seria só para inflar o número da minha biblioteca em 1. Eu não economizei um centavo porque eu não gastaria um centavo desde o início.

É preciso puxar a responsabilidade para nós, até mesmo com o preço que as desenvolvedoras estão cobrando. Se o jogo foi precificado em R$350,00, você concorda que ele oferece R$350,00 em valor? Preço é aquilo que é cobrado de você, valor é aquilo que você associa ao produto. Se o preço foi maior que o valor, não devemos comprar, simples assim. Se o valor foi maior que o preço, existe uma economia real e isso é muito positivo. Se ambos forem iguais, ainda é positivo, pois só você pode dizer quanto está disposto a pagar por aquilo. 

Conclusão

No fim do dia, quando você chega cansado e senta na sua cadeira ou sofá para jogar algo e esquecer dos problemas da vida, são os jogos que transmitem essa forma ímpar de interagir com a arte e se conectar com você de formas únicas. Memórias que são criadas, laços com amigos que são fortalecidos, filosofias que são formadas, marcas que são carregadas até hoje, isso tudo são as coisas que fazem jogos serem especiais pra mim. 

Lembro perfeitamente da primeira vez que zerei um jogo, foi o Need For Speed: The Run no meu antigo Xbox 360 em uma tarde de domingo. A sensação de alcançar o final da campanha e concluir aquilo que dediquei horas foi especial demais pra mim. A primeira vez que eu joguei um RPG foi com The Witcher 3 que entrou no catálogo do Xbox Game Pass e eu só tinha mais 45 dias de assinatura por ter pego a promoção de 3 meses por R$5,00. O primeiro console que eu comprei com meu próprio dinheiro foi um Nintendo Switch que eu customizei com a carcaça da edição especial de Let’s Go Eevee e Let’s Go Pikachu. A paixão de comprar jogos em mídia física e receber compendiums ou extras nas capas. São coisas que carrego comigo até hoje.

Sinto que a comunidade está extremamente polarizada. Coisas que deveriam ser simples tornam-se motivo de discussão que perdura por horas a fio. Seja um lançamento de um jogo ou alguém comentando sobre o que jogou na assinatura, sempre existe alguém que quer diminuir a pessoa por simplesmente se divertir. “Se eu não gosto de tal jogo, tu também não pode gostar”; “Se tu não comprou no lançamento pelo preço cheio, tu é mendigo”; “Se tu compra jogo pelo valor cheio, tu é otário”. Todas frases extremamente exageradas e caricatas, mas que descrevem o pensamento de muita gente da comunidade. Isso já foi longe demais.

Nem tudo é preto no branco. Arte, seja com jogos ou outras mídias, é interpretada e apreciada de formas diferentes por cada pessoa. Um jogo que eu gosto pode ser detestável para você, assim como eu não gosto de todos os jogos lançados. O que a comunidade anda esquecendo é que jogos são subjetivos e pessoas têm opiniões diferentes. O importante é que tenha espaço para todos, não só aquilo que eu quero. Nem você nem eu somos o centro do Universo, nenhum jogo tem a obrigação de nos agradar. A gente pode dar o azar de começar um jogo e não gostar, mas continuar um jogo que não gostou é uma decisão minha.

Além disso, nosso foco deve estar na democratização do acesso ao entretenimento, não ao elitismo. Se alguém consegue pagar mais barato para ter acesso àquele jogo, isso é uma coisa muito boa! Quanto mais gente joga, mais jogadores temos para encontrar uma partida e mais investimento temos na indústria.

A polarização acaba colocando os jogadores contra si, sendo que deveríamos nos unir em prol da localização de idiomas e precificação. A luta não é entre Xbox e PlayStation, PC e consoles ou algo assim, a luta é por jogos melhores e mais acesso a eles.

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