Boa Leitura!

Veritas Tales: Witch of the Dark Castle | PC Review

Em tempos de tantas notícias negativas envolvendo a indústria dos jogos, é natural que surjam pensamentos pessimistas sobre o rumo que o nosso hobby vai tomar. Mais do que isso, cresce também a incerteza sobre se continuará sendo possível ter acesso àquilo que, para muitos, inclusive para toda a equipe da Patobah, deixou de ser apenas entretenimento para se tornar um estilo de vida. Um propósito.

Veritas

É justamente por isso que, em um momento tão delicado quanto esse, faz tão bem entrar em contato com um jogo como Veritas Tales: Witch of the Dark Castle.

Primeiro projeto de Yoshio Nishimura, renomado artista que construiu parte de sua carreira em projetos na Vanillaware; esse novo título representa uma estreia que espero ser apenas o início de uma longa trajetória marcada por mais obras autorais e tão singulares quanto esta aventura épica.

Aqui, você assume o papel de um guerreiro ou de uma maga, onde acompanharemos a exploração de um reino amaldiçoado enquanto descobrimos mais sobre sua história e enfrentamos criaturas que desafiam a própria lógica daquele mundo. Entre escolhas narrativas e a imprevisibilidade dos dados, cada decisão pode significar a diferença entre sobreviver ou sucumbir diante da força opressora daqueles que se enxergam como deuses.

Antes de começar esta análise, deixo também o meu agradecimento pela oportunidade de testar o jogo antecipadamente e pela confiança dos amigos da Patobah, que disponibilizaram a chave de acesso assim que possível para que eu pudesse mergulhar nessa aventura e compartilhar com vocês a minha experiência após quase quinze horas explorando calabouços, retornando a áreas já conhecidas e desvendando, pouco a pouco, os inúmeros segredos escondidos em seu misterioso castelo.

Uma volta aos clássicos.

Jogar VeritasTalesfaz perceber que o tempo não é uma linha contínua, mas uma sucessão de ciclos que, por vezes, insistem em se repetir.

Do momento em que a aventura começa até a subida dos créditos, a sensação é a de retornar à era de ouro dos jogos no formato CYOA(ChooseYourOwnAdventure), quando esse ainda era popular pelos livros-jogos e depois no universo dos videogames. Do design dos menus à estrutura das batalhas, tudo parece dialogar com essa época, evocando uma nostalgia muito bem calculada para os fãs desse subgênero.

Some a isso elementos clássicos dos DungeonCrawlers, com sua exploração de masmorras e labirintos, e o resultado é uma experiência que combina uma narrativa

pessoal com o enfrentamento constante de criaturas que dificilmente concedem qualquer trégua.

Veritas

O combate, entretanto, é justamente onde o jogo mais tropeça. A proposta funciona conceitualmente, mas, na prática, torna-se repetitiva mais rápido do que deveria. Em determinado momento, você percebe que continuará revisitando praticamente os mesmos cenários, variando apenas o personagem que está em campo. Essa mudança (de personagem), infelizmente, não é suficiente para renovar a experiência, e os confrontos acabam parecendo excessivamente similares.

Veritas

Outro aspecto que me incomodou foi a forte dependência da sorte. Os dados são o coração do sistema de combate, mas também representam sua maior limitação. Com frequência, o progresso deixa de depender das suas decisões e passa a ser determinado por uma sequência de rolagens favoráveis. Não importa o quanto você invista na loja, que por si só já oferece poucas opções de compra, ou o quanto explore os mapas em busca de recursos: basta uma série de resultados ruins para perder boa parte do progresso conquistado, incluindo curas obtidas com muito esforço e estratégia.

Como conceito, VeritasTalesé muito interessante. É uma homenagem sincera a um período específico da história dos RPGs, e acredito que ainda exista espaço para esse tipo de proposta nos dias atuais. Ainda assim, a fórmula precisa de um refinamento maior para que a nostalgia não acabe dando lugar à repetição exagerada e à frustração como resultado.

Veritas

A história até aqui.

Seja no controle da Maga ou do Guerreiro, sua jornada começa inevitavelmente conduzindo ambos até a imensa cidade de Erishing,capitaldoreinodeYuran.

Enquanto o Guerreiro procura por uma Bruxa com quem possui uma ligação muito mais profunda do que aparenta, a Maga parte em busca de seu antigo tutor, o homem que, em certo sentido, a trouxe de volta à vida e esteve ao seu lado em seu momento mais frágil. Por obra do destino, e também pelas escolhas que fazemos ao longo da campanha, os caminhos desses dois protagonistas acabam se cruzando. À medida que a história avança, torna-se evidente que existe uma conexão muito maior do que uma simples coincidência entre seus encontros.

Veritas

Erishing, por sua vez, vive dias sombrios. A cidade enfrenta uma epidemia que não apenas devastou a saúde de sua população e abalou a própria monarquia, como também trouxe consequências ainda mais graves: os mortos passaram a caminhar novamente. Independentemente do caminho escolhido, essas criaturas serão sua

ameaça mais constante nas primeiras horas de aventura, até que novos aliados surjam e a missão passe a envolver a restauração da paz e da sanidade daquele reino.

VeritasTalesconcentra seus maiores esforços justamente na construção desse universo. Embora a narrativa não apresente ideias particularmente inéditas, ela consegue se destacar graças à direção artística. O traço das ilustrações, a composição dos cenários e a identidade visual do jogo fazem com que sua história encontre espaço em meio a tantas outras fantasias medievais semelhantes.

Confesso que simpatizei bastante com o Guerreiro, talvez por ele ter sido o protagonista da minha primeira campanha. Passei horas ao seu lado aprendendo o funcionamento do sistema de combate e, infelizmente, também me frustrando ao perceber o quanto a progressão depende da sorte nos dados. Em diversos momentos, senti que estava preso a um ciclo em que minhas decisões tinham menos peso do que uma simples rolagem desfavorável. Os salvamentos manuais acabam se tornando quase indispensáveis para evitar perder longos trechos de progresso depois de uma derrota causada pelo azar.

A existência de duas campanhas distintas é, sem dúvida, uma das ideias mais interessantes do jogo. Logo no início você escolhe qual protagonista deseja acompanhar, e, ao concluir sua jornada, pode imediatamente iniciar a campanha do outro personagem, revisitando os mesmos acontecimentos por uma nova perspectiva.

Veritas

Na prática, porém, essa proposta não alcança todo o seu potencial. A campanha da Maga acaba sendo consideravelmente menos interessante do que a do Guerreiro e em diversos momentos, tive a impressão de que sua narrativa depende excessivamente dos acontecimentos da outra campanha para ganhar relevância, como se existisse apenas para complementar eventos já vistos, em vez de sustentar uma história igualmente forte por conta própria.

A ideia é excelente. A execução, no entanto, não acompanha a mesma ambição.

Até onde o empenho é suficiente para combater o Tédio?

Longe de mim querer transmitir um sentimento de prepotência ou assumir a posição de alguém que entende mais sobre desenvolvimento de jogos do que as lendas que participaram e compuseram este projeto. Do início ao fim, seria injusto omitir que VeritasTalesé uma verdadeira aula de como construir uma ambientação convincente para um mundo que ainda está dando seus primeiros passos.

Até mesmo a trama e sua proposta, as quais não pretendo entrar em mais detalhes, possuem um escopo bastante reduzido. Oque para mim, por mais que soe estranho, é

um ponto extremamente positivo, já que há uma certa saturação de títulos que tentam “resolver todos os problemas do mundo” em um único jogo.

Zerar essa campanha uma ou duas vezes, mesmo acompanhando perspectivas diferentes sobre os mesmos acontecimentos, ainda assim não é suficiente para desvendar todos os segredos que o jogo esconde. Mesmo depois de quatorze ou quinze horas, ficou claro para mim que ainda havia muito a descobrir.

O meu problema, porém, e aqui falando como jogador e também como alguém que teve a oportunidade de cobrir o lançamento deste título, é que a visão colocada no DNA do jogo infelizmente não alcança todo o potencial que demonstra ter. Algumas decisões de design acabam comprometendo uma experiência que poderia ser muito melhor.

Concluir uma campanha já foi estressante e frustrante pela dependência extrema da sorte nos dados e pelo peso, por vezes até injusto, de determinados resultados.

Precisar então, depois disso tudo, ainda percorrer praticamente toda essa jornada uma segunda vez? Foi ai o ponto em que o jogo me perdeu.

Mais reviews: AQUI

PATÔMETRO
Conclusão
Por mais que esta review pareça mais crítica do que a maior parte das que costumo escrever, principalmente por confrontar as minhas expectativas com a execução de determinadas mecânicas; ainda assim eu diria que Veritas Tales merece reconhecimento por uma qualidade que muitos jogos atuais parecem ter perdido: a coragem de se arriscar. Ele aposta em um estilo de jogo cada vez menos comum e, embora beba claramente das inspirações da época de ouro desse formato, consegue entregar uma experiência bastante pessoal e intimista, lançando as bases para o que espero que seja apenas o primeiro capítulo de um legado muito maior. Agradeço, antes de tudo, pela oportunidade de conhecer esse jogo ainda nos seus primeiros dias de lançamento e pela confiança dos amigos da Patobah, que me proporcionaram, ainda que indiretamente, a oportunidade de acompanhar o trabalho de uma das grandes lendas da indústria dos videogames. Nunca é tarde para inovar, muito menos para dar vida a novos projetos. São justamente os erros, os tropeços e a disposição de experimentar que, muitas vezes, transformam uma boa ideia em algo verdadeiramente memorável.
Notas do Visitante0 Votes
0
PROS
Personagens principais carismáticos.
Arte do jogo sensacional.
Trilha sonora bacana. Não é marcante, mas ajuda bastante na ambientação dos novos lugares descobertos.
História interessante.
CONTRAS
Gameplay se torna repetitiva rápido demais.
Dependência muito grande dos dados e da sorte, oque acaba desandando em muitas mortes desnecessárias meramente pelo "azar" de uma rolagem.
Segunda campanha simples demais.
Vilã principal deixa a desejar.
7
NOTA FINAL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Facebook
X
WhatsApp
Telegram
Threads
Email

Categorias