Star Ocean The Second Story R foi desenvolvido pela Gemdrops e publicado pela Square Enix. O jogo chegou em 2 de novembro de 2023 para PC (e recentemente ao GOG), PlayStation e Nintendo Switch.
A Square Enix pegou um RPG lançado originalmente no PlayStation em 1998 e fez algo que eu considero bem mais interessante: manteve a alma do jogo, mas mexeu em praticamente tudo que precisava de uma atualização.

O resultado é um RPG que ainda tem aquele jeito de jogo antigo, cheio de sistemas, menus e possibilidades, mas que consegue conversar muito bem com quem começou a jogar RPG agora.
E talvez a melhor coisa seja que você não precisa conhecer os outros jogos da série para aproveitar essa aventura.
História
A história começa com Claude C. Kenny, um jovem oficial da Federação que acaba sendo transportado para um planeta completamente diferente durante uma missão.
O problema é que Claude não chega em um mundo cheio de tecnologia e naves espaciais. Ele cai praticamente de cara em um lugar que parece ter saído de um RPG medieval. É nesse planeta que ele conhece Rena.
Rena é uma jovem que vive naquele mundo e carrega consigo uma história cheia de mistérios. Ela também acredita que Claude seja o herói de uma antiga profecia.
A partir daí, os dois acabam envolvidos em uma aventura que mistura fantasia, ficção científica, política, tecnologia e alguns mistérios que vão ficando maiores conforme a história avança.
E essa mistura é justamente uma das coisas que fazem Star Ocean ser diferente. Você pode começar a campanha controlando Claude ou Rena. A escolha não muda apenas quem aparece na tela. Cada protagonista apresenta uma perspectiva diferente dos acontecimentos e também interfere nos personagens que podem entrar para o grupo.

Isso dá uma boa razão para jogar novamente. Mas o que mais gostei na estrutura da história é que o jogo não tenta transformar tudo em uma sequência interminável de cenas.
Star Ocean The Second Story R sabe quando contar história e quando deixar você jogar. As cidades são cheias de personagens, os acontecimentos são relativamente rápidos e existe sempre alguma coisa acontecendo no caminho. É um RPG que dificilmente passa muito tempo segurando o jogador para assistir uma cena enorme.
E existe outro sistema que ajuda bastante nisso: as Private Actions. Em determinados lugares você pode entrar nesse modo e conversar com membros do seu grupo e outros personagens. Essas pequenas cenas parecem opcionais, e realmente são, mas ajudam muito a conhecer melhor o elenco.
Também existe uma relação entre os personagens. Dependendo das escolhas e das relações construídas durante a aventura, os finais podem mudar. O jogo possui uma quantidade enorme de combinações possíveis de finais, o que aumenta bastante o valor de uma segunda campanha.
Não espere uma história perfeita. Alguns personagens são bem mais interessantes que outros e existem momentos em que o roteiro parece simplesmente querer chegar logo ao próximo acontecimento. Mesmo assim, a mistura de ficção científica com fantasia funciona muito bem.
Jogabilidade
Aqui está o principal motivo para jogar Star Ocean The Second Story R! O combate acontece em tempo real e você controla diretamente um personagem enquanto os outros membros do grupo são comandados pela inteligência artificial. É possível trocar de personagem durante a luta, utilizar ataques normais, habilidades especiais, magia e itens, além de dar algumas ordens aos companheiros. Parece simples quando explicado dessa maneira, mas a coisa fica bem mais interessante quando todos esses sistemas começam a conversar entre si.
Você pode entrar em uma batalha controlando Claude, partir para cima dos inimigos com ataques físicos, trocar rapidamente para outro personagem e usar uma habilidade diferente enquanto os companheiros continuam atacando. Você está andando, atacando, desviando e tentando entender o comportamento dos adversários o tempo todo.
Uma das maiores mudanças do remake está no sistema de Break. Cada inimigo possui uma barra de defesa separada da sua vida, e ela precisa ser reduzida antes que você consiga aproveitar todo o potencial dos seus ataques. Algumas habilidades são melhores para destruir essa defesa, enquanto outras são mais interessantes quando o adversário já está vulnerável. Quando a barra chega a zero, o inimigo entra em estado de Break, fica temporariamente sem conseguir agir e passa a receber muito mais dano. Parece uma mudança pequena, mas ela evita que as batalhas sejam apenas uma questão de apertar o botão de ataque até alguém morrer. Contra inimigos mais fortes, você precisa pensar um pouco mais sobre quais golpes usar e quando usar. Se gastar todas as suas habilidades mais fortes no começo e não conseguir quebrar a defesa, pode acabar em uma situação bem ruim.
O sistema de Break também ajuda a dar mais importância para os diferentes personagens. Claude, por exemplo, funciona muito bem no combate direto, enquanto Rena tem um papel completamente diferente por causa de suas habilidades de cura e suporte. Outros personagens conseguem cumprir funções específicas e isso faz com que montar uma equipe não seja apenas escolher quem tem o maior número de dano. Você começa a perceber que determinados personagens funcionam melhor contra certos tipos de inimigos e que algumas habilidades podem mudar completamente uma batalha. É um sistema que recompensa quem presta atenção, mas também permite jogar de maneira mais simples se essa não for a sua praia.
Outra novidade importante é a Assault Action. Personagens que não estão participando diretamente da batalha podem ser colocados nesses atalhos para aparecer durante o combate e realizar ataques ou oferecer suporte. É uma solução bem interessante porque o jogo possui muitos personagens recrutáveis e, naturalmente, você não consegue colocar todos na equipe ao mesmo tempo. Em vez de simplesmente deixar os outros esquecidos, o sistema permite que eles continuem tendo alguma utilidade. Também existem personagens de outros jogos da franquia que podem ser chamados dessa maneira, funcionando mais como uma recompensa para quem gosta de explorar. É algo opcional, mas bastante divertido.
O Bonus Gauge é outra mecânica que ajuda a dar um pouco mais de tensão às batalhas. Conforme você derrota inimigos, algumas esferas aparecem e aumentam uma barra de bônus. Quando ela chega a determinados pontos, você recebe vantagens passivas, como aumento de ataque, defesa ou experiência. O detalhe é que esse bônus pode acompanhar você de uma batalha para outra, então jogar bem começa a ter uma recompensa maior. O problema é que alguns erros podem acabar com todo esse progresso, principalmente quando você tenta executar uma esquiva perfeita e falha. É uma ideia simples, mas cria aquele pensamento de “só mais uma batalha” porque você quer continuar mantendo a barra cheia.
E falando da esquiva, aqui está uma das partes que considero menos acertadas do combate. Quando um inimigo prepara determinados ataques, existe um aviso visual e você pode tentar escapar no momento certo. Acertar a esquiva pode trazer uma boa vantagem, mas a janela de tempo não parece muito generosa. Errar pode ser ainda pior porque você fica exposto e pode perder o Bonus Gauge. Em várias situações, achei mais seguro simplesmente aguentar o golpe, curar depois e continuar atacando. A ideia é boa e deixa o jogador mais ativo, mas a execução poderia ser melhor. Não chega a estragar o combate, mas é uma mecânica que muitas vezes parece mais arriscada do que realmente necessária.
Fora das batalhas é onde Star Ocean The Second Story R começa a mostrar o tamanho real de seus sistemas. O jogo possui uma quantidade enorme de habilidades e especialidades que podem ser desenvolvidas usando Skill Points. Você pode investir em coisas como culinária, alquimia, criação de equipamentos, música, pesca, avaliação de itens, metalurgia e várias outras atividades. Essas habilidades não estão ali apenas para ocupar espaço no menu. Elas podem melhorar atributos, liberar novas possibilidades e abrir caminho para as chamadas Super Specialties, que permitem combinações ainda mais interessantes.

No começo, confesso que tudo isso pode parecer uma bagunça. Você abre o menu e encontra habilidade dentro de especialidade, especialidade dependendo de outras habilidades e sistemas que se conectam com outros sistemas. É muita informação. A boa notícia é que o remake melhorou bastante a apresentação disso tudo e permite entender melhor o que cada habilidade faz. Além disso, não existe aquela sensação de que você pode destruir sua campanha para sempre por ter gastado alguns pontos de maneira errada. É possível continuar conseguindo recursos para desenvolver seus personagens e experimentar diferentes caminhos.
A criação de itens é provavelmente uma das partes mais divertidas para quem gosta de ficar mexendo em sistemas. Você pode criar armas, equipamentos, comidas, poções e vários outros objetos. Algumas criações podem parecer completamente inúteis no começo, mas depois você descobre que determinado item pode ser usado para criar outra coisa e, quando percebe, está com um equipamento muito melhor do que aquele que poderia comprar na loja. Também é possível criar itens específicos para determinadas situações, inclusive coisas que ajudam bastante em batalhas mais difíceis. O jogo não obriga você a dominar tudo isso para terminar a campanha, e isso é importante. Quem quiser apenas seguir a história pode fazer isso. Mas quem resolver entrar nessa parte vai descobrir um verdadeiro laboratório de possibilidades.
E aqui existe uma das características mais interessantes de Star Ocean: você pode ficar absurdamente forte se entender bem os sistemas. É possível otimizar personagens, equipamentos e habilidades de uma maneira que muda completamente a dificuldade do jogo. Isso é ótimo para quem gosta de experimentar, mas também explica por que algumas batalhas podem parecer fáceis demais. Na dificuldade padrão, principalmente depois que você começa a entender como distribuir os pontos e fabricar equipamentos melhores, muitos inimigos comuns simplesmente deixam de representar uma ameaça.
A exploração também recebeu melhorias que parecem pequenas, mas fazem uma diferença enorme. Os inimigos agora aparecem no cenário, então você consegue escolher melhor quando quer lutar e quando prefere simplesmente passar. Isso elimina boa parte da irritação dos encontros aleatórios tradicionais. A viagem rápida também facilita bastante quando você precisa retornar para uma cidade antiga, principalmente por causa das Private Actions e de outros eventos opcionais. O mapa também passou a mostrar melhor onde existem atividades disponíveis, algo que deixa a experiência muito mais confortável para quem quer completar tudo.
Existe ainda a pesca, as Guild Missions e várias outras atividades espalhadas pelo mundo. Nada disso é obrigatório, e acho que essa é justamente a graça. Star Ocean The Second Story R não tenta obrigar o jogador a usar todos os seus sistemas. Ele simplesmente coloca as ferramentas na sua frente e deixa você decidir o quanto quer se aprofundar. Se quiser jogar como um RPG tradicional, é possível. Se quiser passar horas criando itens, melhorando habilidades e tentando encontrar uma combinação quebrada, também é possível. Essa liberdade é uma das maiores qualidades do jogo.
Direção de arte
A Square Enix poderia simplesmente ter transformado o jogo antigo em um RPG totalmente 3D, mas escolheu outro caminho. Os personagens continuam utilizando sprites em pixel art enquanto os cenários são construídos em 3D, criando aquele visual 2.5D que mistura nostalgia com uma aparência moderna.
O resultado poderia facilmente ter ficado estranho, mas funciona muito bem. Os personagens parecem ter saído diretamente de um RPG antigo enquanto o mundo ao redor possui iluminação, profundidade e efeitos que não seriam possíveis naquela época.

Essa escolha também ajuda o jogo a ter uma identidade própria. Não parece apenas um jogo antigo com resolução maior. As cidades, florestas, cavernas e campos ganharam uma aparência muito mais viva, mas os personagens continuam preservando aquele estilo clássico que os fãs provavelmente esperavam.
As batalhas também receberam efeitos novos, e quando vários personagens começam a usar habilidades ao mesmo tempo a tela pode ficar bastante movimentada. Em alguns momentos existe tanta coisa acontecendo que parece exagerado, mas combina com a proposta do jogo.
A trilha sonora também merece destaque. As músicas foram rearranjadas para o remake e continuam carregando aquele clima de RPG japonês clássico, com temas de exploração, cidades e batalhas que ajudam a criar personalidade para cada lugar. O trabalho de Motoi Sakuraba continua sendo uma parte importante da identidade de Star Ocean, e aqui a trilha consegue acompanhar tanto os momentos mais tranquilos quanto as batalhas mais agitadas. A parte visual e sonora trabalham juntas para fazer o jogo parecer moderno sem apagar completamente a sensação de estar jogando um RPG de outra época.


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