REVIEW | SMOKING BEHIND THE SUPERMARKET WITH YOU
Será mesmo possível conciliar uma das críticas mais repetidas dos últimos anos, a de que supostamente existe uma geração “incapaz de consumir conteúdos longos”, com a criação de algo que, ainda que adote essa postura de minutagem reduzida, consiga também te parecer natural, agradável e emocionalmente honesto? Será mesmo possível usar esse formato rápido para discutir justamente as engrenagens do sistema que moldaram esse comportamento?
E eu ainda me posiciono e te peço para que reflita comigo: será mesmo que as pessoas desaprenderam a consumir obras longas, ou foram lentamente empurradas para uma realidade onde o tempo livre virou privilégio? Pior, virou culpa. Descansar agora é errado, hobbies passaram a ser frequentemente associados á perda de tempo e qualquer lazer, dos videogames às séries, dos animes aos livros, agora precisa constantemente justificar sua própria existência como sendo “produtivo”, “útil” ou “enriquecedor? A verdade é que habitamos uma estranha e global cultura, onde até o ato de parar parece precisar de uma permissão.
Eu não sei te dizer se a intenção consciente dos produtores desse anime foi essa ou se eu estou apenas divagando com vocês sobre algo que talvez sequer estivesse na mesa de planejamento. Mas, de uma coisa eu sei: Smoking Behind the Supermarket with You, é um dos animes que discretamente vem conquistando seu espaço nesta temporada e acabou por se tornar não só minha, como a de várias pessoas, uma das surpresas mais agradáveis deste ano. Te convido a se juntar comigo e ouvir um pouco mais sobre uma série em que nos nossos tempos, te convida para parar e fumar atrás de um supermercado, se esquecendo e deixando do lado de fora, todo o agito que o mundo parece ter nos imposto. Eu te convido a respirar e refletir sobre o peso das exigências do mundo deles e, inevitavelmente, do nosso também.
Sinopse e apresentações
Antes de qualquer coisa, abro com vocês a própria sinopse disponibilizada pela plataforma Serializd, que expande um pouco melhor aquilo que vamos conhecer como as bases centrais dessa obra. Vale lembrar também que o anime já está disponível completo na Crunchyroll, serviço por assinatura, contando ao todo com 12 episódios.
De volta a sinopse, temos:
“Conheça Sasaki, um funcionário de escritório de meia-idade sobrecarregado pelo trabalho. Seus dias são marcados apenas pela passagem de mais uma rotina corporativa tediosa e sem recompensa. Fumar ajuda a aliviar o estresse, mas, fora isso, o único momento de alegria do seu dia é quando ele vai ao supermercado perto de casa e vê o rosto sorridente de Yamada. Então, uma noite, depois de mais um dia exaustivo, ele vai ao supermercado e descobre que perdeu o turno de Yamada.
Desanimado, ele decide procurar uma área de fumantes, mas descobre que não há nenhuma. Quando está prestes a ir embora, uma garota de jaqueta de couro chamada Tayama o convida para ir com ela a uma área secreta para fumantes!”
Eu quis trazer ela justamente porque a obra encontra o ponto de partida rapidamente através do que ela já te propõe.
O interesse de Sasaki por Yamada, por exemplo, nunca é escondido do espectador. Pelo contrário. E talvez exatamente seja um destaque nessa química e que me fascina, o de que a forma como Sasaki se relaciona com Yamada e, eventualmente, também com Tayama, existe muito além de qualquer leitura sexual exagerada ou constrangedora. Se existe amor ali, ele nasce sobretudo como um sentimento entrelaçado a companhia. Ao afeto. A sensação rara e profundamente humana de encontrar conforto na presença de um outro alguém.





Sasaki é visivelmente um homem cansado que reflete muitos dos medos, inseguranças e problemas que a nossa sociedade vive. Ele é um personagem às margens de um sistema que lentamente desgasta sua moral, seu tempo e até a sua personalidade, reduzindo os nossos dias a uma repetição de tarefas sem descanso, hobbies ou mesmo pequenos prazeres que vão pouco a pouco perdendo espaço.
Por isso, ainda assim com todos esses problemas, nós podemos perceber com facilidade o quão importante é o contato humano por mais banal que ele possa ser.
Um sorriso no caixa do supermercado. Uma palavra gentil na espera do transporte. Um cigarro compartilhado com alguém que você se importe. Pequenos intervalos na nossa rotina que, por menores que sejam, são suficientes como foram para Sasaki, receber o ânimo que ele necessitava para encarar mais um dia. Trabalhar mais um turno. Dormir na esperança de rever alguém.
Naturalmente esse sentimento vai se expandir enquanto você assiste e também vai ganhar outros papéis de apoio nos coadjuvantes, de forma que todos eles vão te levar para a coexistência do afeto mesmo posto frente a um sistema cansativo.
Behind the Supermarket with You vai exatamente ai, trabalhar como o mais profundo dos sentimentos também pode se refugiar na mais banal das ações.
Fumo: O vício que forma pontes.
É especial a forma como esse anime lida com o cigarro. E talvez um dos maiores méritos seja exatamente não romantizar a prática.
O fumo está presente, ninguém vai esconder isso de você. Mas nunca com glamour, rebeldia pessoal ou um símbolo de um charme que só seria alcançado com a prática. Pelo contrário, o cigarro aqui existe como um hábito do dia a dia, quase banal, compartilhado por pessoas cansadas tentando sobreviver a dias e rotinas difíceis.
Sasaki, por exemplo, fuma também na empresa dentro de um espaço apropriado e é justamente lá que faz uma das suas amizades mais honestas. Um colega de trabalho que divide algumas tramas com ele e que consegue fazer com que o nosso protagonista baixe a guarda e sobreviva as pressões do ambiente corporativo.
Do outro lado, Tayama também possui uma relação especial de respeito pela sua gerente, outra personagem que também fuma e que inclusive protagoniza um dos episódios da temporada, discutindo algo como as maneiras de lidar com o desconforto causado pelo cheiro do cigarro.
Com isso, te fica claro que o cigarro é um fruto comum no ambiente criado por essa obra, só que quando explorado e visto um pouco mais de perto, se revela também capaz de criar pontes. O fumo se torna uma maneira de conexão.
Dai quando Sasaki enfrenta uma crise relacionada ao vício, o medo que ele tem não é o de não conseguir abandonar o hábito de fumar, não, ele vem da possibilidade de perder oque mais importa pra ele naquele momento: a presença de Tayama.
Sem viagens extravagantes. Sem grandes arcos mudando completamente o ambiente. Sem episódios forçados de praia ou situações artificiais criadas apenas para aproximar personagens. Não, aqui você vai ver isso através da rotina de dois adultos desenvolvendo sentimentos em um ritmo estranho, talvez lento demais para alguns mas profundamente humano que só é obtido pela convivência.
Seja sentados, rindo, comendo algo ou fumando, é aquela conversa de poucos minutos que vai à passos lentos, construindo um sentimento.
Curto, mas soube exatamente sobre oque falar.
Os doze episódios dessa primeira temporada acabaram sendo, honestamente, bastante satisfatórios. E muito disso pra mim vem da forma como o tempo é manejado nos episódios, criando uma sensação de que não há um desperdício sequer de tempo, nem mesmo o de um minuto. Tudo te dá a impressão de ter sido pensado. Entre uma risada ou outra, inserem aquele pensamento que vai compor o tom daquela cena.
Existe uma delicadeza muito grande na direção de arte e na trilha sonora, que juntas conseguem transformar um anime que se vende pela proposta despretensiosa, em algo genuinamente marcante. Sem exageros e sem precisar ficar exigindo muito, esse anime apenas se permite. Te permite sentir.
O aspecto central da obra que é o romance, também me conquistou bastante. Porque aqui, diferente da média das obras, o afeto não precisa nascer do toque. Não depende de aproximações forçadas para fãs ou de uma escalada constante para mais e mais contato físico afim de satisfazer expectativas criadas. Pelo contrário, há algo profundamente humano em ver duas pessoas simplesmente apreciando a presença uma das outras.
Smoking Behind the Supermarket with You, mostra que as vezes amar também é dividir alguns minutos do dia com alguém.
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“No gods or kings. Just ducks.”

