Boa Leitura!

REVIEW | GREENLAND 1 E GREENLAND:MIGRATION

O lançamento de Greenland 1 em 2020 já chamava atenção por tentar resgatar um tipo de cinema-catástrofe que realmente tivesse qualidade, o que parecia, nos últimos anos, cada vez mais raro em Hollywood. O filme parecia ser menos interessado no espetáculo vazio e mais focado na vida daquelas famílias comuns que vão ter que assistir o mundo acabar em tempo real. Mas agora, com Greenland: Migration/2, que parece encerrar finalmente essa história, pareceu ser o momento ideal para assistir essa duologia e trazer pra vocês a minha opinião.

REVIEW | GREENLAND 1 E GREENLAND:MIGRATION


Porque apesar do show de fogo, destruição e o colapso global, Greenland pode ser que não tenha conseguido chegar lá ou, pelo menos, chegou à sua própria maneira. Essa review pretende justamente revisitar e apresentar pra vocês o fim do mundo transformado em algo pessoal e familiar.

O fim do mundo que não encanta.

Existe um momento no início de Greenland que realmente consegue te capturar. Essa é a sequência na qual o protagonista sai desesperado para fora de casa depois de perceber que o canal de notícias na televisão, que ele e os amigos estavam acompanhando, muito provavelmente guiado por uma informação falsa do próprio governo, não fazia sequer ideia da real dimensão do impacto que estava prestes a atingir a Terra. Ninguém estava preparado.


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E então vem essa cena, onde antes mesmo do protagonista entender o que estava acontecendo, nós espectadores, vemos ao fundo a onda de destruição do impacto avançando tão rápido quanto a sua reação, o que faz com que o personagem seja lançado pra baixo e muita coisa seja destruída. Visualmente é o grande momento do início desse filme que infelizmente, talvez seja o melhor do filme todo.
Meu problema com Greenland é que ele parece gastar praticamente tudo que podia ser surreal, nos piores momentos possíveis.


O filme todo parece um longo mergulho em uma identidade visual que eu pessoalmente considero muito desinteressante. A paleta de cores está presa em um cinza pesado das fuligens dos incêndios ou nos tons alaranjados de um horizonte também pegando fogo. Algumas cenas específicas funcionam muito bem com essa escolha de cores, mas na maior parte do tempo só é ruim mesmo. Sem personalidade nenhuma.
E isso piora quando você se dá conta de que boa parte desse primeiro filme vai ser de noite. Ou seja, você tem como resultado um apocalipse que não impressiona visualmente em nada, como se o mundo estivesse acabando sem que nós sequer pudéssemos ver.

O drama familiar que não convence

O ponto central de muitos filmes na rota de fim do mundo é a família, e se Greenland tentou se sustentar também nessa premissa, pra mim falhou. Nesse primeiro filme eu realmente queria me convencer da dinâmica dos pais e da criança, inclusive alguns momentos até funcionam, mas na média quase nunca ao ponto de eu sentir que realmente existe algo pela família.


Sendo justo, o mais próximo de me convencer disso é na atuação da Morena Baccarin e do Roger Dale Floyd, respectivamente como mãe e filho. Eles têm cenas que realmente demonstram uma fragilidade emocional interessante e palpável, com momentos onde realmente conseguem transmitir uma humanidade tentando emergir no meio de toda essa confusão. Só que isso não se sustenta por muito tempo, já que a condução do próprio filme parece constantemente bagunçada de um jeito que simplesmente não funciona.
A sensação final que fica desse aspecto é que estou acompanhando uma família com uma narrativa emocional muito fraca, presa em um universo que não ajuda nisso.

A humanidade em colapso

Agora pulando para falarmos sobre Greenland: Migration e fugir de mais informações sobre o primeiro filme que sim, admito que realmente não gostei; eu preciso ser honesto e te dizer que esse segundo filme começa com uma ideia muito boa de acompanhar uma tentativa inicial de reorganização social entre alguns sobreviventes. Pela primeira vez, a humanidade parece ter um tempo pra respirar.


E o que eu gosto nesse começo é justamente o filme não tentar crescer em escala. Não há grandes conflitos ou uma expansão desenfreada, porque a preocupação é o núcleo que envolve o protagonista e aqueles associados a ele.
Funcionam sim ao seu redor, mas também têm certa independência.
Infelizmente não mudaram em nada a paleta de cores, então continuo achando um filme bem pouco interessante e chamativo.

Gerard Butler e Moisés

Finalmente chegamos nessa parte, porque vou te ser sincero que ela é o real motivo para eu ter decidido escrever sobre essa duologia de filmes. HAVERÁ SPOILERS.
Tudo começou quando eu terminei de assistir Greenland: Migration e fui conversar com um amigo cristão, porque vinha começando a se formar na minha cabeça a seguinte ideia: e se o personagem interpretado pelo Gerard Butler fosse, no fundo, uma espécie de releitura ocidental de Moisés? Quanto mais eu pensava nisso, mais queria escrever sobre os paralelos que eu ia percebendo.


Meu amigo conversou muito comigo sobre Moisés e, a partir do seu conhecimento, eu fui percebendo como a narrativa bíblica do personagem existe sob uma ótica melancólica: a ideia de um homem que vai atravessar um deserto por anos, liderando seu povo, suportando perdas, sacrifícios e dificuldades, apenas para no fim de tudo não poder entrar na Terra Prometida. Ele alcança ela, enxerga ela no horizonte, mas permanece do “lado de fora”. É um final que pra muitos dos que leem gera frustração, afinal, como assim alguém que trilhou um caminho tão brutal assim não vai ser recompensado?


E é aí que mora o segredo: a ideia da recompensa.


Meu amigo comentou algo que ficou preso comigo durante toda essa crítica quando conversávamos sobre Moisés: a história dele não é apenas sobre a vitória ou merecimento, mas sim sobre a incompreensão humana diante da diferença entre o que é o caminho e o que é a chegada. Sobre a nossa tendência pessoal em achar e enxergar a recompensa como apenas presente no destino final, quando muitas das vezes a própria travessia já é uma. No amor que se constrói, no esforço entre irmãos, nas pessoas que podemos proteger. Toda a trajetória tem um sentido em si própria.


E é aí, no meio de tudo isso, que sem querer eu vi Greenland se reconstruindo na minha imagem e nas minhas opiniões. Porque quanto mais eu olhava, mais via o personagem do Gerard Butler fazendo e percorrendo esse exato caminho no “deserto” pessoal dele.


O personagem passa por perdas, exaustão, presencia violência, medo e se vê obrigado a manter sua família viva percorrendo esse mundo destruído em busca de um paraíso. Tudo aponta para uma mesma lógica comum.
A diferença é que, enquanto a história de Moisés tem como uma das suas partidas as provocações acerca da frustração humana, Greenland vai te contar como responder essa dor. Nos momentos finais, o pai interpretado por Gerard Butler sabe que não vai conseguir chegar no paraíso e o que resta é agradecer. Ele agradece a família, expressa seu amor pela esposa e a observa com um olhar apaixonado e sereno antes de finalmente se deitar na própria paz da sua morte. Isso engrandece a narrativa de tal forma que vocês não têm noção.
Finalmente, tudo faz sentido nesses dois filmes.


E mais curioso ainda? Perceber que o filme vai te dar uma “pista”, fazendo pela primeira vez um lugar ter uma paleta completamente diferente da duologia inteira. Uma em que a natureza pode se destacar, parecer viva, ter luz natural e uma sensação de calmaria que a franquia inteira foi incapaz de reproduzir, mesmo nos momentos que talvez devesse.


Greenland fecha muito bem e por isso, se leu até aqui, vale mais do que a pena ir atrás e ter sua própria opinião da trajetória inteira.

NOTA Greenland 1: 4/10
NOTA Greenland: Migration/2: 6/10

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