Resumo da ópera: Quem jogou Sleeping Dogs provavelmente já ouviu falar que o jogo não nasceu com esse nome. Antes de chegar às lojas em 2012, ele era conhecido como True Crime: Hong Kong, um novo capítulo da franquia da Activision. Só que a história por trás dessa mudança é bem mais curiosa do que parece. O jogo foi anunciado, cancelado pela própria Activision, comprado pela Square Enix e, no meio de toda essa confusão, perdeu o nome True Crime. Foi assim que nasceu Sleeping Dogs.
Como chegou nisso?
Para entender tudo, precisamos voltar um pouco no tempo. O projeto começou dentro da United Front Games com outro nome: Black Lotus. A ideia já era criar um jogo de ação em mundo aberto ambientado em Hong Kong, com muita influência dos filmes policiais e de artes marciais produzidos na região. O projeto chamou a atenção da Activision, que decidiu transformá-lo em um novo jogo da série True Crime. Foi então que Black Lotus passou a ser chamado de True Crime: Hong Kong.

A escolha fazia sentido na época. True Crime já era uma franquia conhecida, principalmente por True Crime: Streets of LA e True Crime: New York City. A Activision acreditava que colocar uma marca conhecida naquele projeto poderia ajudar o jogo a encontrar seu público. Só que o desenvolvimento demorou mais do que o esperado e o orçamento também começou a crescer. Enquanto isso, o mercado de jogos de mundo aberto ficava cada vez mais competitivo, principalmente por causa do enorme sucesso de Grand Theft Auto.

Em fevereiro de 2011, a Activision tomou uma decisão que parecia colocar um ponto final na história: True Crime: Hong Kong foi cancelado. A empresa explicou que o jogo estava enfrentando problemas de qualidade e que seria difícil competir comercialmente naquele mercado. O curioso é que o projeto não estava simplesmente no começo do desenvolvimento. A equipe já tinha uma versão bastante avançada e o jogo podia ser jogado do início ao fim. Para a United Front Games, obviamente, foi um golpe enorme. Um projeto que havia consumido anos de trabalho estava prestes a desaparecer.
Só que a história ainda não tinha acabado. A Square Enix demonstrou interesse pelo projeto e decidiu adquirir os direitos de publicação. Existe uma informação importante aqui: a empresa comprou o jogo, mas não comprou a marca True Crime. Os direitos da franquia continuavam pertencendo à Activision. Por isso, não havia como simplesmente continuar o desenvolvimento e lançar o título como True Crime: Hong Kong.

Foi nesse momento que o projeto precisou mudar de identidade. A Square Enix e a United Front Games decidiram abandonar o nome True Crime e seguir em frente com uma nova propriedade intelectual. O resultado foi Sleeping Dogs.

E, apesar da troca de nome, a essência do jogo continuou praticamente a mesma. O jogador ainda teria uma grande cidade inspirada em Hong Kong, perseguições de carro, armas, gangues, missões policiais e, principalmente, um sistema de combate baseado em artes marciais. A diferença é que agora o jogo não precisava mais carregar o peso de ser uma continuação de True Crime. Ele poderia simplesmente ser uma nova franquia.
A história também combinava muito bem com essa nova identidade.
Sleeping Dogs coloca o jogador no papel de Wei Shen, um policial que volta para Hong Kong e se infiltra nas Tríades. Ele precisa conquistar a confiança dos criminosos enquanto tenta cumprir seu trabalho como policial. O problema é que, quanto mais tempo passa dentro daquele mundo, mais complicada fica a situação. Wei começa a criar relações com pessoas que deveria prender e precisa tomar decisões enquanto tenta manter sua verdadeira identidade escondida.
Essa ideia de policial infiltrado também ajudava a diferenciar Sleeping Dogs de outros jogos de mundo aberto. Em Grand Theft Auto, por exemplo, normalmente estamos acompanhando criminosos. Em Sleeping Dogs, estamos acompanhando um policial que precisa viver como criminoso para cumprir sua missão. Isso cria uma situação interessante, porque o protagonista não pode simplesmente agir como um policial o tempo inteiro. Ele precisa participar das atividades das gangues, ganhar respeito e fazer coisas que entram em conflito com aquilo que deveria estar fazendo.
Outro grande diferencial estava no combate. A United Front Games não queria fazer apenas mais um jogo de tiro em mundo aberto. As artes marciais tinham um papel muito importante e o sistema de combate permitia socos, chutes, contra ataques, agarrões e finalizações usando objetos espalhados pelo cenário. Em vários momentos, Sleeping Dogs parecia muito mais um filme de ação de Hong Kong jogável do que simplesmente um concorrente de GTA.
E isso ajudou bastante o jogo a criar sua própria identidade. A cidade também tinha um papel importante. Hong Kong era diferente dos cenários mais comuns dos jogos de mundo aberto ocidentais. As ruas movimentadas, os mercados, os becos, os prédios, as placas luminosas e os bairros mais tradicionais davam ao jogo uma aparência própria. Não era apenas uma cidade grande para preencher o mapa. Ela fazia parte da experiência.
Sleeping Dogs finalmente chegou às lojas em agosto de 2012 para PlayStation 3, Xbox 360 e PC. A recepção foi boa, principalmente por causa do combate, da ambientação e da história. O jogo não era perfeito e também não conseguiu competir comercialmente com Grand Theft Auto no mesmo nível, mas conseguiu conquistar seu público.
O problema veio justamente depois. Sleeping Dogs vendeu cerca de 1,75 milhão de cópias até 2013, um número que não pode ser considerado simplesmente um fracasso. A questão é que a Square Enix esperava resultados maiores. Naquele período, a empresa estava enfrentando problemas financeiros e precisava que seus grandes lançamentos alcançassem números mais altos. Sleeping Dogs acabou ficando abaixo dessas expectativas.
E aí chegamos a uma das maiores frustrações para quem gostou do jogo: não tivemos Sleeping Dogs 2. O primeiro jogo deixou espaço para uma continuação e, durante algum tempo, existiram planos para um novo projeto. Mas a sequência acabou não acontecendo. A United Front Games também enfrentou dificuldades e posteriormente encerrou suas atividades.
É por isso que Sleeping Dogs acabou ganhando esse status de jogo cult. Ele não foi um dos maiores sucessos da geração, não recebeu uma sequência e também não se transformou em uma grande franquia. Mesmo assim, quem jogou costuma lembrar dele com bastante carinho. E existe uma razão simples para isso: o jogo tinha personalidade.
Quando olhamos para toda essa história, fica até engraçado pensar que Sleeping Dogs passou por três nomes diferentes antes de chegar ao público. Primeiro foi Black Lotus, depois virou True Crime: Hong Kong e finalmente chegou como Sleeping Dogs. O mais curioso é que o jogo conseguiu sobreviver justamente depois de perder a marca que deveria ajudá-lo a vender.
No fim, talvez ter deixado True Crime para trás tenha sido uma coisa boa. Se tivesse continuado como uma sequência daquela franquia, talvez Sleeping Dogs fosse lembrado apenas como mais um jogo de mundo aberto tentando competir com GTA. Como uma nova propriedade, ele conseguiu construir sua própria identidade e ser lembrado por aquilo que fazia de diferente.
Sleeping Dogs, como disse anteriormente, não foi o maior jogo de sua geração, mas foi um dos mais interessantes. É uma história de um projeto que quase morreu, foi comprado por outra empresa, perdeu o próprio nome e mesmo assim conseguiu chegar ao público. E talvez seja justamente isso que faça tanta gente ainda pedir uma continuação tantos anos depois.


Co-founder & PR / Press Manager at https://patobah.com.br |
Public Relations | News / Notícias | Articles / Artigos