My Time at Sandrock é o jogo de fazendinha que não é de fazenda mais completo e bem feito da história dos cozy games.
Desenvolvido pela Pathea Games, My Time at Sandrock é uma combinação de simulador de vida, construção e RPG. Quando conheci a franquia My Time há alguns meses, com My Time at Portia, achei que era mais um joguinho no estilo Stardew Valley e outros simuladores de fazenda, mas diferente desse estilo de jogo que tem narrativas mais simples e o jogador progride completando pacotes e coleções que não estão diretamente ligados a evolução da sua fazenda, em My time fiquei positivamente surpresa com a profundidade da história, dos personagens e do quanto o nosso personagem está envolvido na trama. Quando descobri que tinha um segundo jogo, minhas expectativas já estavam altas, mas inesperadamente ele conseguiu pegar tudo que eu gostava em Portia, enriquecer e amplificar tornando a experiência ainda mais satisfatória.

História do jogo
Assim como no primeiro jogo a história se passa em um mundo pós-apocalíptico cerca de 300 anos após o Dia da Calamidade, um trágico evento que ocorreu pelas guerras com máquinas e inteligências artificiais, resultando na destruição da maior parte da tecnologia moderna do planeta. Tal como em Portia, somos inseridos no mundo como um construtor iniciante e recém-chegado, dessa vez na cidade de Sandrock.
Construída ao redor de um oásis no Deserto de Eufala, Sandrock já viu dias melhores, mas devido ao crescimento populacional os recursos e água do local acabaram ficando escassos. Com a cidade passando por um colapso ambiental e uma crise financeira, nosso construtor entra em cena para ajudar a cidade e os moradores a retornarem aos seus dias de glória.
O enredo do jogo se divide entre a luta para revitalizar a cidade e o combate a ameaças externas, como o temido bandido do deserto Logan e sua gangue, além disso temos missões secundárias que nos fazem conhecer melhor os moradores. A história é completamente imersiva e cativante, uma coisa que eu particularmente achei interessante é o fato de que no primeiro jogo um dos maiores conflitos da premissa é a Igreja da luz ser extremamente conservadora em relação a ressuscitar a tecnologia devido ao passado e tragédia que aconteceu, neste a igreja tende a ser mais liberal já que a cidade precisa, além de se reerguer, garantir sua sobrevivência e futuro, o que nos mostra como a comunidade é forte e unida.
Gameplay e progressão
Apesar de sermos introduzidos a agricultura e pecuária em determinado ponto, o foco principal não é esse, os animais e plantas que podemos ter na nossa fazenda são usados em missões e na culinária, mas o jogo não traz a obrigação de transformar nossa oficina em uma fazenda com tarefas diárias repetitivas e maçantes.
É através da oficina que começa a nossa jornada ao nos associarmos à Guilda do Comércio, onde pegamos pedidos dos moradores e da prefeitura para construirmos diversos itens e estruturas, também é no quadro de avisos da guilda que pegamos as comissões relacionados a história principal. Uma das maiores satisfações é ver que as coisas que construímos realmente são usadas na cidade, o que traz a sensação de que estão havendo mudanças e evoluções reais e que as comissões não são inúteis. Elas aliás são a principal fonte de renda, que consequentemente nos permite expandir o terreno, aumentar a casa e esbanjar o luxo de um casamento e filhos, que são tão caros quanto na vida real.

Em My Time at Sandrock, assim como em Portia, o jogador tem níveis de experiência que aumentam a vida e energia conforme o player avança, ao alcançar o nível cinco é desbloqueada a árvore de habilidades que contém vantagens e bônus essenciais para as quatro principais mecânicas do jogo: coleta, oficina, combate e socialização. Ao contrário de Portia onde os pontos de conhecimento serviam para todas as categorias, aqui cada uma tem seu medidor de experiência e ganho de pontos individual, porém isso não deixou o jogo mais complicado, pelo contrário, já que todas as mecânicas se complementam.
Na categoria de coleta temos três subcategorias que são a coleta de recursos, como a água que é usada de combustível para as máquinas; pesca (na areia movediça já que não tem lagoas e rios no deserto), que é usada majoritariamente na culinária e mineração, uma das mecânicas mais interessantes do jogo, já que além da coleta de recursos para construção também está diretamente ligada a exploração e recuperação de artefatos e tecnologia perdidas desse mundo.
No combate temos cinco opções de armas: espada longa, adagas duplas, espada e escudo, lança e armas de fogo. Honestamente é bem simples, os monstros não são difíceis, mas cumpre bem seu papel que é ser amigável com jogadores casuais. O jogador também pode adotar alguns animais que vivem na cidade e que o ajudarão tanto no combate quanto na coleta de recursos, além de cada um possuir seus próprios buffs e ataques.

As categorias de oficina e socialização dão alguns bônus indispensáveis para o progresso do jogo, melhorando velocidade das máquinas, qualidade dos produtos e algumas funções como: ver onde os moradores estão andando pelo mapa, aumentar a quantidade de experiência, dinheiro e pontos com os personagens que se ganha com as comissões.
Todas essas mecânicas citadas foram aprimoradas em relação ao primeiro jogo e mesmo tendo tantas atividades diferentes, graças ao sistema que nos permite diminuir ou aumentar a velocidade do jogo, até as missões com tempo limitado podem ser facilmente gerenciadas, fazendo com que o jogador não se sinta sobrecarregado com aquele sentimento de que é um segundo trabalho e possa jogar no seu ritmo. Isso e a possibilidade de poder salvar a qualquer momento do dia sem ter que esperar a hora de dormir, fazem uma diferença enorme trazendo qualidade de vida dentro do jogo.
A única ressalva que eu tenho é quanto ao minigame de pesca, em My Time at Portia era sem dúvidas uma das coisas mais divertidas de se fazer (além de fornecer muito dinheiro e servir para uma das receitas que fornecia o maior buff de energia inicialmente) em Sandrock a pesca ficou irrelevante.
Gráficos e ambientação
Visualmente dá pra perceber o quanto a franquia progrediu entre os dois títulos, os gráficos estão mais bonitos e bem trabalhados, principalmente nos personagens e nos cenários, deixando o mundo ainda mais agradável de explorar.
O design dos personagens especificamente passou por uma evolução nítida, em Portia era exagerado e desproporcional, com cabeças grandes em relação ao corpo. Em Sandrock o estilo se sustenta, mas foi refinado deixando as proporções mais equilibradas e próximas da realidade, além do enriquecimento de detalhes nas expressões faciais a nas roupas. A diversidade no jogo, que já tem desde Portia, também é algo que merece destaque, com etnias, cores de pele, tamanhos e formatos de corpos variados.

O fato do jogo se passar em um deserto de início me deixou receosa de que não tivesse um aspecto muito bom, mas apesar da discrepância com o local do primeiro jogo e seu mundo verde, Sandrock não deixa de ser aconchegante e cheia de vida. A construção de mundo é muito bem feita, a rotina dos moradores e diálogos específicos após certos eventos nos dá a sensação de que eles não são apenas NPCs, mas sim pessoas vivendo àquela realidade.
A dublagem durante todo o jogo também colabora com a imersão, fazendo com que os NPCs tenham mais vida e personalidade. Portia já tinha me surpreendido com isso, visto que não é tão comum nesse gênero e foi bom ver que Sandrock manteve esse diferencial.
Desempenho
Depois de mais de 130 horas de jogo no switch lite, o maior problema que encontrei foi as telas de carregamento lentas, principalmente quando acontece uma cena logo no início do dia, em todas as vezes a dublagem vem primeiro enquanto a cena ainda está sendo carregada, apesar disso o jogo está bem otimizado e não encontrei nenhum bug ou travamento. Os problemas com salvamento que haviam em My Time at Portia da versão de switch foram corrigidos no segundo jogo.
Personalização
Na franquia de My Time podemos criar nosso personagem do zero, o jogador pode escolher entre o gênero feminino e masculino que se diferenciam nos pelos faciais, disponíveis apenas para o masculino, e formatos de rostos, que podem ser alterados juntamente com os olhos, sobrancelhas, boca, nariz e orelhas. Os penteados, que são divididos em base, franja e rabo de cavalo podendo ser combinados entre si, e a maquiagem são disponíveis para os dois gêneros sem restrição. A personalização de cores é feita através de um círculo cromático e está disponível para pele, cabelo, olhos e maquiagem. Todas essas características podem ser mudadas mais pra frente no jogo com a abertura do salão de beleza. Apesar de haver muitas opções de personalização, incluindo três vozes para ambos os gêneros, um ponto negativo é não ser possível mudar a altura e formato do corpo, que é padrão ser mais baixinho e franzino, assim como no primeiro jogo.
De início também não é possível escolher o vestuário, o personagem vem com uma roupa simples e ao longo do jogo vão sendo desbloqueadas mais roupas para comprar e fabricar, mas é compreensível devido ao fato de elas serem usadas como armaduras e fornecerem atributos que aumentam a resistência, vigor e darem bônus de ataque, defesa e sorte. Os moveis que colocamos dentro de casa também ajudam em todos esses elementos.
O diferencial de My Time at Sandrock se encontra na construção da casa que evoluiu muito. Em Portia só tínhamos a opção de elevar o nível da casa que havia apenas um modelo e o jogador só podia decorar, usando os móveis e trocando os pisos e papéis de parede, já em Sandrock as possibilidades são muito maiores já que há um modo de construção da casa personalizável que possibilita adicionar e editar cômodos usando da criatividade do jogador para criar sua casa do jeito que preferir. A decoração, no entanto, não dá muita liberdade para a disposição dos móveis que ocupam um espaço maior do que deveriam, muitas vezes causando estranheza e deixando os ambientes pouco naturais. Além disso a quantidade de itens decorativos que podem ser colocados nas superfícies dos móveis são muito limitados e fazem falta na decoração.

Gostaria de adicionar também que devido a limitação de hardware do switch lite algumas opções na customização estão limitadas, como a quantidade de itens posicionáveis dentro e fora da casa e a troca de cor dos papéis de parede, pisos e móveis que não estão disponíveis no console, o que fez bastante falta durante minha jogatina.
Relacionamentos
My time at Sandrock conta com mais de quarenta NPCs que o jogador pode se relacionar fazendo amizade, dentre eles vinte e um personagens casáveis, divididos entre doze masculinos e nove femininos que podem se relacionar independentemente do gênero do personagem do jogador. O sistema de relacionamento se tornou mais divertido ao adicionarem opções de diálogo com flertes, que fazem com que os NPCs se interessem pelo seu personagem romanticamente.
Para que a relação com os moradores progrida é necessário ganhar pontos de relacionamento dando presentes, saindo em encontros e concluindo comissões do personagem desejado. Ao alcançar o nível de amigo o jogador pode confessar seus sentimentos e iniciar um romance, alguns personagens também podem se declarar e o jogador tem a opção de aceitar ou recusar. É possível ter vários namoros simultâneos, porém se acontecer um flagrante o jogador perde pontos com os ambos os personagens e alguns podem até terminar o relacionamento.

A maioria dos personagens casáveis tem missões que são desbloqueadas após o namoro e mais após o casamento, que pode ser proposto pelo jogador ao atingir um nível maior de relacionamento ou, assim como no namoro, alguns personagens também podem propor. Essas missões ajudam a aprofundar os personagens e conhecer suas histórias, entretanto algumas delas são mais bem trabalhadas que outras, o que gera um desequilíbrio e inclinação na hora de escolher com quem se relacionar.


Uma jogadora casual que ama se divertir com joguinhos fofos e relaxantes.