Flintlock: The Siege Of Dawn é um jogo divertido. Com sua estética estilosa misturando magia e tecnologias antigas, o conto de Deuses do mundo inferior agrada. Problemas nas mecânicas de combate, performance, bugs nas partes sonora e gráfica, e a repetitividade de inimigos podem atrapalhar um pouco sua experiência, no entanto.

Flintlock: The Siege Of Dawn foi anunciado em meados de 2022 como uma abordagem mais leve ao gênero souls. A A44 Games, responsável pelo desenvolvimento, já se aventurou no gênero com o indie Ashen e prometeu um jogo que seria porta de entrada para quem se aventurasse nessas obras.
A grande realidade é que o jogo consegue divertir. Caçar líderes bandidos, espectros mais fortes e hordas de mortos-vivos enquanto resolve os problemas da escapadinha de Deuses do pós-vida não é ruim. O problema é o ritmo pautado em missões que se remetem sempre a ir a “X” lugar e matar “X” inimigos.
Deuses do pós-vida causando baguncinhas na cidade do amanhecer!
A história de Flintlock é um dos pontos altos do jogo. Você é Nor, uma sapadora do exército da coalizão — um esforço militar da humanidade criado para combater a vinda dos mortos-vivos ao nosso mundo. Somos jogados na ação e, durante um esforço da combatente e seus aliados em impedir que Uru consiga o objetivo de manter aberta a passagem para o mundo dos mortos, ela e seus aliados acabam derrotados. Sem saber se seus companheiros sobreviveram, ela é abordada por Enki, um animal falante com uma forma semelhante a uma raposa. O fio condutor começa aí.

Flintlock: The Siege Of Dawn tem uma história clichê, mas a execução dela, sua mitologia (os Deuses acabam sendo interessantes de se acompanhar porque misturam inspirações de diversos panteões de culturas africanas e europeias) e a atuação de Alistair Petrie como Enki e Olive Gray como Nor são muito boas. Ver o crescimento dos dois e as revelações que o roteiro proporciona mantém nosso interesse no desenrolar dos acontecimentos, e o mérito é todo da química deles. Noshir Dalal, que faz o Bode em Jedi Survivor, atuou como Jung, o mestre ferreiro.
Nesse quesito, nada a reclamar. Talvez faltou um esforço maior em dar profundidade a Nor, já que acabamos sabendo muito pouco de sua história de vida. Essa talvez seja minha única crítica, além do óbvio clichê que permeia jogos de ação de que “nada é o que parece“ com alguns mocinhos.
Bonito ele é…
Flintlock é um jogo de orçamento menor, ou como classificamos, um “Double A” (AA). E os gráficos são muito bonitos.

Os personagens principais são detalhados. Texturas de construções e de objetos são muito bem-feitas e o design de inimigos é bem grotesco, combinando com o universo. A única coisa que poderia ser melhor — e esse problema é comum em jogos do gênero — é a falta de polimento com outros personagens que não sejam os principais. Interagir com Baz, Jung ou simplesmente conversar com um morador de vilarejo denota que o orçamento do jogo realmente não era dos grandes. Ainda assim, pelo contexto e tamanho do jogo, os gráficos entregam qualidade, sim.
Um Souls-Lite de fato. Até na jogabilidade.
Flintlock: The Siege Of Dawn entrega bons momentos na jogabilidade. Defender um ataque no último momento com um parry bem dado sempre é divertido, e liberar movimentos especiais para Enki e Nor dá um tempero a mais à mecânica. Mas a realidade é que o núcleo de um bom souls é o equilíbrio entre a velocidade de seus golpes, comandos de esquiva responsivos e ferramentas adequadas para responder às investidas inimigas. E aqui, por problemas justamente nessa responsividade, o jogador pode ter que se acostumar.
O jogo tem uma variedade bacana nos equipamentos. Você equipará capacetes, ombreiras e manoplas com efeitos essenciais para a build que você quer construir em combate. Você carrega um frasco de vida que vai sendo melhorado e granadas especiais nos direcionais de contexto; o mesmo vale para equipamentos secundários como sua pederneira, rifles, canhões, morteiros, armas contundentes e de corte. Nessa parte, minha única reclamação é a usabilidade. Por que, ao invés de colocar no atalho rápido (que de rápido não tem nada) essas bombas e equipamentos, a A44 não priorizou uma janela rápida de inventário? O problema no contexto geral é que Nor demora séculos para tomar essas ações e, em quase metade desses atos, somos atacados e levamos dano massivo. O mesmo vale para os botões rápidos de troca de equipamentos secundários e principais.

Ainda assim, o arsenal merece atenção pela criatividade. Rifles para longa distância são divertidos de usar, e os morteiros e canhões são avassaladores em efeitos negativos focados em fogo. Todos esses equipamentos usam recursos que são encontrados no mundo. Enki pode atacar seus inimigos enchendo uma “barra de morte”, que nada mais é que um atordoamento. O golpe especial da criatura é canalizado por Marcescência, que é a energia do mundo dos mortos controlada por ele. Os golpes físicos são realizados com os gatilhos superiores e funcionam como nos jogos mais modernos.
A leitura de inimigos e de seus ataques pode ser feita, mas existem alguns que são simplesmente impossíveis. Os avestruzes gigantes têm um ataque frontal quase impossível de ler e um dos chefes que você enfrenta, mesmo acertando a esquiva, faz você levar dano. Nor é pesada demais, seja para beber um frasco de vida ou desviar de inimigos, e até a esquiva dela conta com pouquíssimos iframes (frames de invencibilidade), gerando dor de cabeça em momentos em que o jogador parecia ter o controle das ações. Na exploração, nada a reclamar. Viajar por fendas, pular morros e achar cavernas escondidas diverte demais.
Som e música
Pouca coisa se salva. A atuação dos personagens é perfeita e os sons ambientes funcionam, mas faltou um esforço maior nos gritos de inimigos, sons de impacto e no controle de qualidade de volume. Citarei isso na aba de performance. E, para nossa tristeza, um jogo com um tom tão épico e trágico tem trilhas que não empolgam nem em batalhas contra chefes. Uma pena.
Performance, controle de qualidade de bugs e funcionalidade geral
Todos os pormenores que citarei aqui impedem Flintlock de ser um grande jogo. Vamos começar pelos problemas gráficos: flickering (iluminação tremida) acontece aos montes, seja em uma pedra de lago ou em uma luz entrando por uma pequena janela de templo. Pop-in (termo usado para texturas e objetos que aparecem do nada) ocorre com frequência, principalmente na primeira área. Se fossem objetos e construções à distância eu nem citaria, mas é comum ver copos voando, vasos surgindo e estruturas sumindo.
Vamos agora à parte sonora: um chiado persistente ocorreu mais de uma vez ao enfrentar inimigos mais fortes. Geralmente, um grito distorce os sons do jogo e fui obrigado a fechar e reabrir o game para estabilizar. O controle de volume dos diálogos é horrível e nem se deram ao trabalho de corrigir. O som fica baixo a ponto de você ter que grudar a orelha no fone ou ler as legendas para compreender. E as quedas de frames em batalhas maiores, pautadas por execuções, são um problema real. Os movimentos de Nor são pesados e tudo tem que ser calculado, o que dá mais margem para uma irritação desnecessária. Imagine o jogo rodando a 60 fps e caindo para 20 fps quando você tenta contra-atacar o golpe de um chefe? Pois é. Para completar a sinfonia de problemas: crashes. Tive dois ao pegar itens aleatórios pelo cenário.

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Crítico do patobah.com.br e apresentador do Patotícias no Youtube: @PatobahOficial
