Boa Leitura!

Duskfade revive a maturidade dos filmes infantis

Abro este artigo agradecendo, antes de tudo, aos desenvolvedores da Weird Beluga e à Fireshine Games, que distribuiu Duskfade, porque, sem a ação desses dois grupos, seria impossível que a minha experiência existisse, e muito menos que fosse não só tão satisfatória quanto foi, como também reveladora e idealizadora da ideia que trago a você, parte do meu público, neste artigo. Agradeço também aos amigos da Patobah, principalmente pelas conversas com Caio Barreto e Ramon, dono do canal GAMEPLAY TORTA, onde pude ter meu primeiro contato com a versão final de Duskfade e ver, com meus próprios olhos, nascer o interesse por testar por mim mesmo a aventura que os desenvolvedores da Weird Beluga tão bem compuseram.

Obrigado por seguir lendo e sinta-se à vontade para utilizar a seção de comentários como convite para uma amigável discussão. Sigamos juntos, então, para este trabalho de pensamento.

Qual é a minha proposta com esse artigo?

Seria totalmente justo considerar que o apelo crítico do título deste artigo não só chama atenção, como, ao apresentar um ponto parcialmente tido como correto pela maior parte das pessoas, pudesse me deixar à mercê e à deriva de não conseguir desenvolver, para além dele, uma sustentação que fosse além desse ponto de partida. Compreendo o seu receio e te peço, no entanto, apenas uma chance.

Concordaremos num mesmo ponto inicial de como as mídias dedicadas ao público infantil, ou mesmo tidas como “infantis” pelas massas, tornaram-se majoritariamente hiperestimulantes, rasas e aceleradas de forma que, tamanha foi essa expansão, que cada um de nós poderia citar exemplos diferentes, não faltando assim, nomes que respaldassem o público e, mais ainda, os teóricos de comunicação e psicologia infantil. Mas e se eu quisesse ir além ao te apontar uma outra direção para se observar? Que eu te pedisse para se atentar ao que está por trás disso, preenchendo os ecossistemas de algoritmos predatórios e um modelo de streaming que não para de priorizar a retenção de atenção contínua com suas cores supersaturadas, cortes rápidos e piadas que se embolam umas nas outras, à medida que proporcionalmente exclui e sacrifica o silêncio contemplativo e o conflito moral que cada ser humano carrega.

As obras que citarei ao longo do corpo deste artigo (antigas, mas consagradas pelo tempo e por suas qualidades) também sofreram respectivas críticas nos seus períodos de lançamento. E, ainda que, reconhecendo isso, pudesse ser sugerido um ponto de equiparidade entre os dois tempos, dedico neste artigo, como alvo, uma indústria que espalha seus tentáculos pelas mais diversas mídias e que mesmo que nós, consumidores, saibamos de produtos modernos com qualidade e talento dos envolvidos, ainda assim a hegemonia do entretenimento seguirá se mantendo focada no estímulo sensorial puro.

Presos a este ciclo, Duskfade te relembra pelo que vale a pena ir atrás.

Jack Zipes e Neil Postman.

Gostaria de deixar uma nota no que acredito que vá ser o principal tópico deste artigo, porque, ainda que ele vá falar mais abertamente e se aprofundando, dentro do possível, no trabalho de dois homens, também é necessário ressaltar e apontar incríveis profissionais com trabalhos igualmente importantes e relevantes. Dentre elas, Maria Tatar, Marina Warner e Sherry Turkle, sendo elas apenas três de um vasto universo de profissionais hoje já reconhecidas e prestigiadas, além de tantas outras que ainda precisam tão somente de uma oportunidade para serem vistas. Muito obrigado pelos seus trabalhos, os quais pretendo quem sabe no futuro, poder abordar em outro artigo.

Feito este ponto, começo primeiro falando sobre o trabalho de Jack Zipes, importante estudioso de literatura, responsável por propostas dentro do campo infantil e que, partindo de um trabalho crítico e relevante, pode, quem sabe, nos direcionar a identificar por que chegamos ao ponto no qual sentimos estar passando por um período de massificação de conteúdos, sem necessariamente sentir que a qualidade os acompanha. Jack Zipes utiliza a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, concebida por Theodor Adorno e Max Horkheimer, para analisar a evolução dos contos de fadas e, como o próprio Zipes sinaliza, a sua “Disneyficação”.

“Disney did not invent the animated fairy tale, but he revolutionized it by standardizing a technique and aesthetic that transformed oral folk tales into consumable commodities.” – CITAÇÃO DE JACK ZIPES.

TRADUÇÃO ADAPTADA: “A Disney não inventou o conto de fadas animado, mas o revolucionou ao padronizar uma técnica e estética que transformou contos folclóricos orais em mercadorias consumíveis.”

Zipes vai se dedicar a rastrear os contos de fadas e os seus estágios principais, chegando ao ponto da Tradição Oral, que partiria da comunidade; a Tradição Literária Burguesa, que teria sido moldada posteriormente para “civilizar” os povos dominados e incutir neles valores impostos pela classe dominante; só para então chegarmos ao estágio da Animação de Massas, onde a imagem corporativa, aqui representada pela Disney, teria o trabalho de “higienizar” a narrativa, padronizando-a e transformando as histórias que carregavam um peso de ensino e transmissão de acontecimentos e lições apenas em mercadoria.

Zipes entende no seu tempo como Disneyficação o que aqui, no nosso tempo, ainda não tenho um nome para te dar. Mas que, objetivamente, significa para estes dois grupos de pensadores a substituição da imaginação ativa do espectador por marcas registradas e imagens prontas. Nesse cenário, a heroína trágica, como a Pequena Sereia, torna-se apenas um novo brinquedo com um final feliz garantido, neutralizando assim completamente o potencial de crítica social e estrutural que as obras teriam, sendo agora todas, em algum tom, adequadas aos valores do capitalismo corporativo.

Neil Postman, que nos deixou em 2003, autor, educador e teórico de mídia, também era um crítico cultural. Ele, como um dos principais nomes da chamada “Ecologia das Mídias”, argumentou em vida sobre a forma como o meio de comunicação dita inevitavelmente a natureza do pensamento de uma sociedade. A transição dos livros para a cultura dos televisores foi não só inevitável, como também um projeto.

Enquanto a leitura e o conto oral exigiam algum esforço seja no raciocínio de suas sequências e atos, seja no silêncio e na capacidade de compreender a contradição; a mídia visual moderna teria se tornado, ao longo dos anos e gerações, cada vez mais regida pelo imperativo de um entretenimento contínuo. O que mais te prender e a forma como mais te prender é o que valeria acima de qualquer outra coisa.

A célebre e famosa comparação de Postman sobre as distopias de Orwell e Huxley traz consigo a ousada afirmação de que o mundo moderno não seria controlado pela opressão ou pelo medo, mas sim pelo excesso de prazer, pela distração e por um estímulo sensorial constante. O que, fazendo a ponte com a nossa proposta, poderia estar sendo percebido nos hegemônicos blocos de conteúdo de mídia infantil contemporânea, onde o resultado de uma infantilização contínua é o de que tudo passou a precisar ser ultra-acelerado, vibrante e livre de um silêncio, de uma ambiguidade ou de um estado diferente e distinto do da superestimulação contínua, o qual nos impede de aproveitar a contemplação profunda e a própria maturação emocional.

“When a population becomes distracted by trivia, when cultural life is redefined as a perpetual round of entertainments… then a nation finds itself at risk; culture-death is a clear possibility.” – CITAÇÃO DE NEIL POSTMAN.

TRADUÇÃO ADAPTADA: “Quando uma população se torna distraída por trivialidades, quando a vida cultural é redefinida como um ciclo perpétuo de entretenimentos… então uma nação se encontra em risco; a morte da cultura é uma possibilidade clara.”

Úrsula, Capitão Gancho e Hades.

Se falamos tanto dela e se ela é também a porta de conexão com Duskfade, nada melhor do que mencionar de onde vieram as minhas reflexões recentes, correto?

Duskfade e a Disney se encontram no saudosista sentimento e na conexão que boa parte de nós da América Latina, falando com vocês hoje daqui, especificamente do Brasil, construiu com as incontáveis sessões de transmissão aberta ou através da locação de filmes nas já encerradas locadoras, onde boa parte de nós teve seu primeiro contato com as produções de princesas e longas de intermináveis aventuras que a empresa patrocinava e publicava. Hoje, quero me ater a três delas:

  • Peter Pan, de 1953;
  • A Pequena Sereia, de 1989;
  • Hércules, de 1997.

Nestes três universos que parecem tão desconectados entre si fora o fato de serem produções da Disney, há um ponto de encontro quase simultâneo com Duskfade e com o foco deste artigo: eles dividem, nas suas próprias proporções e formatos, a maturidade e o tempo de tela sobre os quais discorro na minha crítica a respeito das produções modernas. Neste ponto, é importante atentar para o fato de que falo do que é tido como “linha principal” do que é entregue hoje pelos streamings; mas que, ainda assim, ao termos obras como Duskfade sendo lançadas em 2026, elas nos iluminam para a existência daquelas que, correndo às margens das grandes produções, dos financiamentos milionários e dos investimentos cujos cifrões não parecem ter fim, ainda assim existem e se opõem à lógica de entrega contra qualidade.

Duskfade, para ser mais exato ainda, se encontra com as nostálgicas produções de um estúdio que, infelizmente, possui hoje produções marcadas por essa lógica de sequências infinitas atreladas à sua marca. Mas que um dia, assim como o que encontramos no jogo, se viu representado por desenvolvedores possivelmente inspirados por essas ou tantas outras obras e que, compreendendo a forma como gostariam de entregar suas mensagens, se esforçaram para que isso fosse feito não de modo a “desrespeitar” a capacidade de compreensão e o imaginário das crianças, mas sim, à sua própria maneira, para desenvolvê-las junto aos adultos que, não sujeitos ao abandono causado pelas telas, crescem ativamente junto à criança. Duskfade, ao apresentar personagens e relações como as de Zirian e Cuco, assim como a relação dos dois com Allira, mesmo antes de você descobrir as revelações e os segredos que esse universo guarda, entrega facilmente um dos desenvolvimentos mais surpreendentes que tivemos este ano. Nele, o simples e o trivial, que parecem ter sido esquecidos e transformados no sinônimo errado de “desrespeito”, reencontram seu valor ao dar tempo suficiente para que laços sejam restabelecidos.

Aos vilões de Duskfade e aos exércitos que enfrentamos até chegar aos chefões, também o seu mérito. Se Úrsula em A Pequena Sereia, o Capitão Gancho em Peter Pan e Hades em Hércules representam não só um obstáculo para o protagonista, mas também se configuram como “criaturas vivas”, com seus próprios pensamentos, contradições e desejos, em Duskfade os seus adversários podem não estar no mesmo nível de compreensão prática, mas entregam a este universo uma gama completamente diferente do maniqueísmo barato esperado das tidas “produções infantis”. O mal aqui existe, mas ele está para Zirian muito mais como um estado de espírito atrelado a um mundo conturbado; e este, mesmo já tendo vivido tantas perdas e mistérios que cercam os seus motivos, ainda assim escolheu perceber seus semelhantes (e os diferentes) como pessoas que, ainda que precisem ser enfrentadas, não necessariamente precisam ser destruídas.

Se um Relojoeiro pode ser questionado por suas atitudes ou mesmo culpabilizado pelo que o desejo incessante pelo poder trouxe, da mesma forma Agonia precisa ser perseguida e os seus motivos, ouvidos e revelados.

Duskfade te respeita acima de tudo, e isso significa muito em tempos nos quais a presença de crianças em obras ou mesmo a representação delas, parece ser identificada como uma “marca” ou um “símbolo” atrelado a produtos inteiramente produzidos para gerar outras vendas.

Que futuro eu gostaria para as nossas crianças?

“Eu acho que uma das melhores coisas que eu tenho feito na minha vida, melhor do que os livros que eu escrevi, foi não deixar morrer o menino que eu não pude ser e o menino que eu fui, em mim.” – PAULO FREIRE.

Se há melhor forma de conceituar o zelo pelas crianças e a preocupação pelo que ainda pode vir, o professor Paulo Freire entregou nesta citação que, respeitosamente, faço como a menção da minha resposta a este tópico.

Espero que este artigo não te encontre de pensamento e coração fechados às preocupações que quis te passar, muito menos te faça crer que Duskfade, o jogo central para esta conversa preocupada e descontraída, seja idealmente perfeito, porque ele não é. Tem seus problemas na mesma medida que tem seus acertos, mas se sobressai ao, pelo menos, ter se apresentado como um produto honesto e trabalhado por pessoas as quais ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas das quais sinto o respeito que gostaria que chegasse até todos os que, neste momento, se preparam para governar, um dia, o mundo que estamos construindo.

Que os problemas da nossa geração não sejam deixados de lado e se tornem, eles mesmos, fardos e blocos imutáveis no pensamento daqueles que ainda estão aprendendo a andar. Que a Arte que nos une e nos tornou, em algum momento, apaixonados pelo hobby do videogame não se torne, na mão daqueles que só parecem se importar com cédulas, um produto sem alma e que desrespeita a nossa própria humanidade.

Lutemos por uma Arte viva e feita por humanos.

Agradecimentos e Convite.

Agradeço imensamente por ter lido até aqui e aos amigos da Patobah pela oportunidade de te apresentar, leitor, não só minhas ideias e visões de mundo, como também uma amistosa conversa sobre temas que, por muitas vezes, passam desapercebidos na correria do dia a dia. Aos pais, tios, guardiões, amigos e presentes na vida dos pequenos, muito obrigado por todo o trabalho que vocês fazem; e que, de alguma forma, possamos todos lutar por uma realidade menos dura para os que continuarão depois que nós partirmos.

Te convido a ler as reviews presentes aqui na Patobah do usuário Hardt e do usuário Caio Barreto, os dois podem ser encontrados aqui no site ao procurarem por mais conteúdos de Duskfade e, no caso do amigo Hardt, também te convido a assistir aos seus conteúdos no canal GAMEPLAY TORTA. Vocês vão gostar e muito!

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