Danganronpa 2: Goodbye Despair é uma excelente sequência da franquia de mistério em visual novel da Spike Chunsoft, onde estudantes são novamente forçados a participar de um jogo mortal para escapar de seu cativeiro, mas agora substituindo os corredores fechados da Hope’s Peak Academy por uma ilha paradisíaca.
Danganronpa 2 aprimora diversos aspectos de seu antecessor, trazendo um elenco mais carismático, investigações mais complexas e mais uma campanha recheada de reviravoltas, embora algumas mecânicas frustrantes e uma reta final bastante controversa impeçam que todas as suas novidades sejam igualmente bem-sucedidas.
Após mais de 30h de gameplay apenas para concluir a campanha, trago todas as minhas impressões sobre Danganronpa 2 na review abaixo!
Uma viagem de escola nada convencional
Danganronpa 2: Goodbye Despair começa de uma forma bastante semelhante ao primeiro jogo da franquia, apresentando o protagonista da vez, Hajime Hinata, o qual acaba de ingressar na prestigiada Hope’s Peak Academy, instituição conhecida por reunir estudantes considerados os melhores em suas respectivas áreas.
Apesar de Hajime ter sido aceito na escola, ele não consegue se lembrar de qual seria o seu “talento supremo”, tampouco das circunstâncias que o levaram até a sala de aula onde iniciamos o jogo, onde outros quinze estudantes parecem compartilhar de parte dessa confusão.
A situação fica ainda mais estranha quando as paredes da “sala de aula” despencam ao redor do grupo, revelando aos alunos que na verdade estavam em “Jabberwock Island”, um arquipélago formado por um conjunto de ilhas paradisíacas.
Nesse local, uma coelhinha de pelúcia chamada Usami se apresenta como responsável por esta viagem escolar, cujo principal objetivo seria fortalecer os laços de amizade entre os estudantes.

Inicialmente, tudo parece fluir de maneira surpreendentemente tranquila, com a própria Usami incentivando os adolescentes a interagirem entre si e com a ilha, para aproveitarem suas “férias”.
A mudança de ambientação para um cenário tropical é bem agradável, especialmente depois de passar tantas horas preso nos corredores da Hope’s Peak Academy durante o primeiro jogo.
Mas é claro que essa tranquilidade não poderia durar para sempre: ainda estamos em um título de Danganronpa.
Com um retorno triunfal do carismático Monokuma, a viagem se transforma em mais um de seus jogos sádicos, forçando os estudantes a conviverem sob a ameaça constante de que qualquer um deles poderá cometer um crime para tentar escapar da ilha.
Assim, voltamos à conhecida dinâmica da franquia: quando um assassinato acontece, os estudantes precisam investigar o crime e participar de um Julgamento de Classe, no qual devem descobrir o responsável pela morte. Caso acertem, o assassino será executado; mas se errarem, todos os inocentes morrem.

Mistérios ainda mais surpreendentes
Uma das minhas principais críticas ao primeiro Danganronpa foi a demora para que sua história realmente engrenasse, utilizando um tempo excessivamente longo para apresentar os personagens e estabelecer as regras de convivência, priorizando a contextualização (exagerada) dos jogadores e retardando os acontecimentos que realmente despertam a nossa curiosidade.
Felizmente, Danganronpa 2: Goodbye Despair aprendeu bastante com seu antecessor, apresentando uma campanha que nos desperta o interesse mais cedo e que parece compreender que o jogador já está familiarizado com as principais características desse universo.
Inclusive, gostei bastante da decisão de antecipar informações que haviam sido tratadas como grandes revelações durante o primeiro jogo, permitindo que novos mistérios ocupem seu lugar desde os capítulos iniciais.

E aqui surge um destaque bem positivo: os mistérios de Danganronpa 2 são consideravelmente mais complexos do que aqueles apresentados em seu antecessor, com investigações que frequentemente obrigam o jogador a mudar seus conceitos sobre os possíveis responsáveis pelos crimes, com julgamentos que conseguem surpreender mesmo quando você acredita já ter desvendado o caso.
Apenas à título de exemplo, um dos assassinatos apresentados durante a segunda metade do jogo foi o mais misterioso e criativo da franquia até o presente momento, fazendo com que eu chegasse ao julgamento sem sequer conseguir formular uma teoria sobre a dinâmica do assassinato ou de quem seria o culpado.
Como esperado, Danganronpa 2 traz uma montanha-russa de emoções enquanto nos conduz pela sua campanha, com algumas dessas passagens chegando a me trazer lágrimas aos olhos (não que seja muito difícil, mas vale a pena o destaque).

Entretanto, a complexidade crescente da franquia também acaba expondo um problema bastante impactante: algumas das soluções apresentadas são específicas demais, dependendo de interpretações pouco intuitivas ou de informações que dificilmente poderiam ser deduzidas pelo jogador durante a investigação.
Para explicar melhor, o sentimento que fica é que a resolução de alguns mistérios só era difícil por conta da forma como Danganronpa 2 espera que cheguemos à determinada resposta, algo que se torna particularmente frustrante quando já solucionamos o acontecimento, mas precisamos descobrir qual raciocínio específico os desenvolvedores esperavam que seguíssemos neste processo.
E apesar da campanha ser excelente durante toda a jornada, não posso dizer o mesmo do seu final, o qual trouxe sentimentos bem mistos.
Apesar de Danganronpa 2 conseguir apresentar respostas convincentes para quase todas as perguntas do jogador (com grandes e interessantes reviravoltas), Danganronpa 2 dá uma guinada metalinguística que foge do que havia sustentado o restante da campanha, com uma execução bem medíocre.

Danganronpa 2 tem um elenco ainda melhor que o primeiro
Os mistérios já justificavam grande parte do entusiasmo com Goodbye Despair, mas seu elenco é a cereja do bolo.
Assim como no primeiro jogo, somos apresentados a quinze personagens de uma única vez, cada uma possuindo uma especialidade e características bastante particulares.
Felizmente, seus designs são muito variados, facilitando o reconhecimento dos estudantes, que aqui são visualmente mais interessantes e possuem personalidades mais marcantes do que aqueles de seu antecessor.

Começando pelo protagonista, Hajime Hinata foi uma excelente surpresa, especialmente por sua personalidade bastante diferente daquela de Makoto Naegi (que protagonizava o primeiro jogo).
Enquanto Makoto costumava apresentar uma postura mais tranquila e passiva diante dos acontecimentos, Hajime é extremamente desconfiado e demonstra uma iniciativa muito maior para investigar os mistérios ao seu redor, frequentemente questionando as intenções dos colegas e procurando respostas por conta própria.
Quanto aos demais estudantes, aqueles que mais se destacaram aos meus olhos foram: o intrigante Nagito Komaeda; a carismática Chiaki Nanami; e o amargurado Fuyuhiko Kuzuryu.

Diferente do primeiro jogo, em Danganronpa 2 mesmo os personagens menos relevantes continuam sendo narrativamente interessantes, pois ainda contribuem para os diálogos e dinâmica do grupo.
Já o antagonista, Monokuma, continua absolutamente sensacional e talvez o personagem mais marcante do elenco, mantendo seu humor sádico e sua capacidade de transformar situações terríveis em um espetáculo sinistro.
Apesar da adição da simpática Monomi possuir alguns momentos interessantes, ela dificilmente consegue competir com o carisma do ursinho.
Por último, é palpável o avanço nas dublagens em inglês, as quais estão bem menos caricatas e contribuem para que os personagens transmitam melhor as emoções dos momentos mais tensos da campanha.

Gameplay com melhorias, mas também com problemas graves
Danganronpa 2: Goodbye Despair mantém o gameplay da franquia como uma visual novel em que passamos grande parte do tempo acompanhando conversas e investigando ambientes, ao passo que os Julgamentos de Classe concentram a maior variedade de mecânicas realmente “jogáveis”.
Felizmente, em Danganronpa 2 a exploração recebeu diversas melhorias que tornam a experiência consideravelmente mais agradável do que no primeiro jogo.
Começando pela movimentação entre as diferentes áreas da ilha, agora nosso protagonista é apresentado em uma perspectiva lateral 2D, permitindo que corramos pelos cenários de maneira mais orgânica do que nos corredores da Hope’s Peak Academy.
Infelizmente, alguns ambientes ainda preservaram o sistema tradicional de movimentação em primeira pessoa, incluindo sua câmera excessivamente lenta para fazer curvas, que continua sendo tão desconfortável quanto no primeiro jogo.

Em compensação, a interação com os cenários de Danganronpa 2 ficou mais fluida, com animações mais rápidas e um cursor que identifica o nome dos objetos interativos antes mesmo de selecioná-los, permitindo que saibamos exatamente o que estamos prestes a investigar e evitando que percamos tempo clicando repetidamente nos mesmos elementos.
Danganronpa 2 também passou a informar quando já examinamos todos os pontos relevantes de determinado ambiente, uma alteração aparentemente simples, mas que fez uma grande diferença nas investigações mais complexas, especialmente quando precisamos revisitar vários locais procurando alguma pequena evidência que possa ter passado despercebida.
Entretanto, uma alteração visual que me incomodou bastante foi o posicionamento dos nomes dos personagens durante as conversas, que agora aparecem verticalmente ao lado das caixas de diálogo, dificultando a identificação dos estudantes, especialmente durante as primeiras horas de Danganronpa 2, em que ainda não estamos habituados a cada um deles.

As interações sociais também receberam melhorias consideráveis em Danganronpa 2 no quesito gameplay, com a introdução dos “Fragmentos de Esperança”, os quais servem como uma moeda recebida ao passar um segmento de tempo livre com um colega.
Cada personagem possui sete fragmentos desbloqueáveis e completar seu vínculo permite receber uma habilidade especial que poderá ser utilizada durante os julgamentos. Além disso, Monomi possui uma pequena loja em que podemos usar essas moedas para adquirir outras habilidades.

Outra novidade é o sistema de níveis: o protagonista ganha experiência ao caminhar pela ilha, interagir com objetos e conversar com os estudantes. Cada nível ganho expande a quantidade de habilidades que podemos equipar para os Julgamentos de Classe.
E uma última adição bem curiosa, foi a introdução de um bichinho virtual no e-Handbook, que mistura Tamagotchi com Pokemon Go ao utilizar os passos que o jogador dá ao redor da ilha como parte fundamental de seu sistema de progressão.
Apesar dessa adição parecer um pouco aleatória, ela acaba incentivando que movimentemos Hajime manualmente pelos cenários ao invés de utilizar o teletransporte, oferecendo recompensas interessantes para aqueles que se dedicarem a desenvolver o seu(s) animalzinho(s).

Os Novos Julgamentos de Classe
Os Julgamentos de Classe continuam sendo a parte mais importante de Danganronpa, colocando os estudantes para debater as circunstâncias dos assassinatos enquanto reconstruímos os acontecimentos do crime.
A interface recebeu melhorias bem-vindas, especialmente com as novas barras de Influência e Foco, que substituem os antigos indicadores e apresentam de maneira mais intuitiva a quantidade dos recursos ainda disponíveis durante os debates.
Uma das minhas novidades favoritas é a possibilidade de sermos interrompidos pelos argumentos de outros estudantes (da mesma forma como fazemos com nosso próprio personagem), o que torna as discussões bem menos previsíveis.
E além dos tradicionais pontos de contradição (identificados em laranja), agora também podemos encontrar os “pontos de concordância” (destacados em azul), que permitem concordar com determinadas afirmações utilizando as evidências corretas, uma mecânica que eu já esperava que surgisse em algum momento e que funciona muito bem!

A dificuldade geral do jogo é muito maior do que em seu antecessor, pois temos um número maior de alternativas para cada pergunta e um tempo de resposta bem mais curto.
Inclusive, nesse ponto acredito que os desenvolvedores tenham até exagerado em certos momentos, considerando que nos últimos julgamentos chegamos a ter nove opções de resposta para cada situação.
De outro lado, os minigames dos Julgamentos também passaram por mudanças, com resultados mistos, mas predominantemente positivos:
1) Improved Hangman’s Gambit: um jogo da forca que testa sua atenção e agilidade, sendo um avanço quanto à sua antiga versão e uma surpresa bem positiva;
2) Logic Dive: a melhor novidade nesse segmento, colocando nosso personagem para atravessar um túnel sobre uma espécie de prancha de snowboard, desviando de obstáculos enquanto escolhemos respostas para desenvolver uma linha de raciocínio;
3) Panic Talk Action: o tradicional jogo rítmico de disparos retorna através de uma versão ligeiramente inferior à original;
4) Rebuttal Showdown: muito similar à mecânica básica de confrontos de argumentos, mas vale-se de uma mecânica de cortar as frases dos adversários com espadas que acaba sendo bem frustrante, sendo o pior dentre estes minigames (com bastante folga).

Entretanto, conforme já havia adiantado no tópico inicial desta review, o maior problema dos julgamentos está na maneira como algumas respostas são exigidas do jogador, com alternativas confusas e linhas de raciocínio que frequentemente dependem de pressuposições pouco convincentes.
Em vários momentos, eu já havia compreendido a dinâmica do crime e mesmo assim precisava recorrer à tentativa e erro para descobrir qual evidência ou alternativa o jogo esperava que fosse selecionado em dado contexto, tornando alguns debates desnecessariamente frustrantes.

Uma direção de arte ainda mais bonita
Visualmente, o presente jogo representa um avanço considerável em relação ao seu antecessor, especialmente pela mudança de ambientação, que substitui o antigo cenário por um ambiente mais variado e colorido.
Enquanto a ilha paradisíaca oferece ambientes visualmente mais interessantes, a maneira como os personagens são inseridos nos cenários também melhorou substancialmente, tornando mais natural a combinação entre elementos bidimensionais e tridimensionais.
Os menus também receberam uma reformulação bastante agradável, incluindo um e-Handbook muito mais bonito e organizado.
Além disso, as caixas de diálogo apresentam mudanças visuais que facilitam identificar quando estamos acompanhando os pensamentos do protagonista, o que é excelente.

Infelizmente, as cutscenes continuam sendo um dos elementos menos interessantes da apresentação, preservando uma aparência um pouco datada que destoa da qualidade visual dos cenários durante a gameplay.
Uma crítica importante (e que infelizmente se faz necessária) está na sexualização excessiva de algumas personagens femininas, especialmente em determinadas situações envolvendo Mikan Tsumiki e Akane Owari, que além de exageradas, em nada acrescentaram à experiência.
Quanto à trilha sonora, meus elogios ao primeiro Danganronpa continuam perfeitamente válidos para sua sequência, com o retorno das composições eletrônicas, as quais continuam incríveis. Enquanto as músicas são superiores àquelas apresentadas no primeiro jogo, ainda gostei bastante da decisão de preservar algumas das músicas mais marcantes do antecessor.

Mas roda bem?
Quanto ao desempenho técnico, minha experiência no PlayStation 5 (base) foi perfeita, sem qualquer problema que mereça destaque.
Considerando que estamos falando de um jogo relativamente antigo e tecnicamente pouco exigente, seria bastante estranho encontrar dificuldades significativas de desempenho em um console tão mais poderoso do que aqueles para os quais o título foi originalmente desenvolvido.
Infelizmente, o jogo continua sem dublagem ou legendas em português brasileiro, o que acaba sendo uma limitação bastante importante diante da quantidade absurda de diálogos que precisamos acompanhar durante a campanha, os quais são essenciais para acompanhar adequadamente as investigações e os julgamentos.

Conclusão
Danganronpa 2: Goodbye Despair é uma sequência extremamente competente da franquia, que aprimora consideravelmente a experiência de seu antecessor através de um elenco ainda mais carismático, investigações mais complexas e uma narrativa que consegue surpreender constantemente durante boa parte de sua campanha. Embora algumas mecânicas dos julgamentos estejam mais frustrantes e o capítulo final tenha seguido uma direção que não me agradou, seria impossível ignorar a quantidade de momentos memoráveis que encontrei ao longo dessas 34 horas. Para quem gostou de Danganronpa: Trigger Happy Havoc, o seu sucessor oferece motivos de sobra para continuar acompanhando essa história, apresentando novos mistérios que merecem ser desvendados!


