A campanha de Call of Duty: Modern Warfare 4 é uma grata surpresa, unindo os tiroteios sempre satisfatórios da franquia a uma boa variedade de missões, com os gráficos mais bonitos que a série já teve. A experiência ganha ainda mais força com uma história muito mais sombria que o habitual, sustentada por personagens icônicos como John Price, Ghost e Gaz, cujos possíveis destinos deixam o jogador na ponta da cadeira ao longo de toda essa jornada.
Felizmente, a franquia parece ter aprendido com os erros da campanha de Call of Duty: Black Ops 7, deixando para trás os chefes bizarros e a falta de realismo, enquanto a missão “aberta” de Call of Duty: Modern Warfare 4, finalmente recebe o cuidado necessário para afastar aquela sensação de estar jogando uma cópia ruim de Warzone, resultando em uma jornada espetacular que recupera a ação mais pé no chão que tanto fazia falta na série.
Jogando a campanha no PlayStation 5 na dificuldade “Regular”, levei aproximadamente oito horas e meia para chegar aos créditos.
Confira abaixo como foi essa experiência em uma análise sem spoilers!
Ação desenfreada desde o começo!
A história começa nos colocando na pele de Park Hyun-Jun, um soldado sul-coreano que participava de uma ronda pela cidade ao lado de seus companheiros de pelotão, em uma situação inicialmente tranquila e descontraída.
No entanto, com poucos minutos de gameplay de Call of Duty: Modern Warfare 4, a situação escala de forma sem precedentes, quando mísseis norte-coreanos atingem a cidade de surpresa, dando início ao que parecia uma invasão de larga escala do país vizinho, arremessando Park no cerne dessa guerra.
Em paralelo, o lendário John Price segue sua investigação própria sobre os responsáveis pelo conflito, enquanto ainda era perseguido pelo governo (diante de acontecimentos ocorridos em jogos prévios) e disposto a agir por conta própria para chegar aonde precisa, agindo como um pária onde “os fins justificam os meios”.
Conforme visto acima, a campanha de Call of Duty: Modern Warfare 4 retoma vários acontecimentos dos jogos anteriores e apesar de oferecer um resumo para situar o jogador, a recapitulação é bem superficial e serve mais para relembrar aqueles que jogaram, do que contextualizar um novato na franquia.

Uma campanha que sabe criar tensão
Inicialmente, achei muito inteligente a forma como a narrativa de Call of Duty: Modern Warfare 4 organiza os acontecimentos, mostrando primeiro a invasão, para depois trazer o jogador aos 5 dias que a antecederam, criando uma contagem regressiva em que sabemos o que está por vir e acompanhamos as tentativas de interferir nesse caminho, mesmo que o resultado seja “inevitável”.
Apesar de não ser novidade na franquia, a alternância de perspectivas entre os mocinhos e os vilões, permite que o jogador conheça o conflito para além do olhar dos personagens habituais da franquia.
Os trechos dedicados à Coreia do Norte e às pessoas que vivem dentro daquela realidade são bem surpreendentes, mostrando situações concretas das pressões enfrentadas por seus habitantes.

Inclusive, existem alguns pequenos trechos que permitem a tomada de decisões menores, que afetam diretamente os acontecimentos subsequentes, mesmo que não mudem o desfecho final da missão. A forma como Call of Duty: Modern Warfare 4 coloca o jogador diante de ordens desconfortáveis (e, sinceramente, malignas), dão espaço para que hesitemos ou busquemos uma forma diferente de agir, mesmo que certas atitudes possam encerrar a missão e levar à tela de game over.
O excelente roteiro da obra dá bastante impacto à cada missão que acompanhamos, com decisões que são realmente críveis dentro da história, evitando o pensamento de que os personagens “jamais poderiam morrer”.
Quanto ao seu encerramento, apesar de uma ou outra tentativa de surpreender que me pareceram um pouco fracas e de algumas missões que passam a se concentrar em longas trocas de tiro com poucas variações, a impressão que fica da jornada continua MUITO positiva.

Difícil de errar com um elenco desses…
O roteiro e os diálogos da campanha foram muito bem escritos, sobretudo quando a jornada se debruça sobre as escolhas de Price e do quanto ele está disposto a fazer para cumprir seus objetivos, deixando o incômodo crescer conforme suas decisões atingem e prejudicam pessoas inocentes ou seus antigos aliados.
O jogo é uma verdadeira montanha-russa de emoções de alta adrenalina, constantemente mesclando a empolgação de sequências de ação com apreensão pelo que poderia acontecer com os personagens queridos da franquia.
Por óbvio que uma boa parcela desse envolvimento surge de já estarmos familiarizados com boa parte dos personagens, o que inclui essa versão mais brutal e impiedosa de Price.
É fascinante ver o protagonista tentando preservar algum limite de humanidade enquanto recorre a métodos cada vez mais questionáveis, de forma que os momentos de conflito entre ele e Ghost deixam o jogador completamente grudado na tela, especialmente ao se considerar todo o passado de equipe da Task Force 141.

Por outro lado, Park Hyun-Jun funciona de forma completamente oposta, sendo um novato (tanto na franquia, quanto no exército) que precisa lidar com o nervosismo de estar em uma guerra recém-declarada. O personagem traz um ângulo completamente diverso para o jogo, focado nas interações do personagem com seu esquadrão, reforçando uma sensação de vulnerabilidade que nunca teríamos quando jogamos com esses personagens no estilo de “exército de um homem só”.
Ko Jin-Hyuk também é outro grande destaque, sendo um personagem de motivações duvidosas e patriotismo exacerbado que parece disposto a buscar a verdade e a razão acima das pressões que enfrenta, tornando-se um dos personagens mais marcantes da obra.
Já entre os antagonistas, destaca-se Ri Ju-Young, cuja presença forte, crueldade e postura autoritária são essenciais para despertar a raiva do jogador ao longo da campanha. Infelizmente, a presença de Mads Mikkelsen no papel de Arqueiro fica um pouco apagada, pois sua figura desperta um interesse bem maior do que aquilo que o jogo efetivamente desenvolve, desperdiçando o grande potencial do ator.

Tiroteio não tão desenfreado
O gunplay de Call of Duty: Modern Warfare 4 continua bastante prazeroso, sem grandes inovações no funcionamento familiar que esperamos da franquia e o retorno de algumas armas que gostei de reencontrar (como a Cronen Squall e a PPSh-41).
Com o retorno da ação mais pé no chão à campanha, mesmo diante da base de combate que segue dentro do padrão da série, fazia-se necessária uma boa variedade de situações e missões, o que foi perfeitamente atingido!
Desde o começo, o jogo oferece quebras no tiroteio e passamos por sequências de parkour e confrontos corpo-a-corpo, com lutas visualmente interessantes que me surpreenderam pela intensidade das animações.
Em outros momentos, a campanha exige avançar de maneira mais cuidadosa por casas ou lidar com inimigos próximos de civis, mudando a atenção do jogador e tornando a precisão dos disparos mais importante do que a velocidade para limpar o cenário.

Além disso, mesmo dentro dos tiroteios mais tradicionais, ainda surge uma boa variedade temática, como os confrontos em uma ferrovia com trens em movimento ou os disparos enquanto estamos em veículos em movimento ao participar de uma perseguição.
Mas é claro que uma boa campanha de Call of Duty não poderia se limitar a isso, não é mesmo? Em alguns trechos, podemos utilizar morteiros, drones explosivos, drones de reconhecimento e até mesmo pilotar um veículo blindado, com o jogo constantemente oferecendo novas formas de participar das batalhas (apesar de que senti saudades de uma tradicional missão no controle de um AC-130).
Inclusive, apesar de imaginar que esses trechos não serão do agrado de todos, gostei dos intervalos em que o jogo nos tira da posição habitual de soldado correndo com um fuzil nas mãos e nos coloca na posição de um personagem com menor treinamento, muitas vezes tendo de recorrer à furtividade.

Entretanto, o auxílio dos aliados no combate varia mais do que deveria: em algumas missões, eles realmente eliminam inimigos e são muito úteis; em outras, o trabalho fica todo para o jogador, mesmo quando eles evidentemente deveriam estar auxiliando, o que se torna particularmente evidente na reta final da campanha.
Mas falando em NPCs, é um pouco frustrante trocar disparos quando há aliados ou civis na linha de tiro, uma vez que um único disparo pode causar a morte dos mesmos e acarretar uma falha instantânea da missão (algo que aconteceu algumas vezes diante da minha falta de pontaria).
Já um ponto que surpreende positivamente é a necessidade constante do gerenciamento de recursos, pois é costumeiro faltar munição durante um tiroteio, exigindo trocar de arma, aproveitar aquelas poucas que são encontradas pelo chão ou buscar um aliado que possua mais delas.
Ah, e a polêmica presença das placas de colete continuam presentes por aqui. Apesar da existência delas na campanha ainda me incomodar, felizmente os inimigos “blindados” são menos presentes do que nos jogos anteriores, surgindo com maior frequência apenas próximos ao final da campanha, o que evitar bastante o desgaste.
Quanto à dificuldade, mesmo jogando no “Normal”, logo percebi que resolver tudo correndo pelo meio dos disparos levaria à morte rapidamente, exigindo certo cuidado… Apesar disso, os checkpoints generosos tornam a morte e a repetição de tentativas pouco cansativas.

Missão em “mundo” aberto retorna… E é excelente!
Para a minha imensa surpresa, uma das minhas missões favoritas da campanha foi justamente um trecho de área aberta, onde o jogo oferece três objetivos principais e um amplo espaço para explorar a área em busca de suprimentos, contendo até mesmo uma base à qual podemos retornar para conversar com os aliados e preparar novos equipamentos.
Depois das tentativas pouco interessantes de levar esse formato para campanhas anteriores, fiquei bastante satisfeito ao encontrar uma região que preserva a sensação de estar participando de uma campanha de Call of Duty, mas com a tão almejada liberdade para decidir como se aproximar dos confrontos, sem dar a impressão de que estávamos diante de uma adaptação pouco inspirada do Warzone.
Dentre os equipamentos disponíveis na base a serem reparados com os recursos encontrados durante a exploração, haviam um fuzil silenciado e uma escopeta, enquanto o avanço dos objetivos principais libera melhorias ainda mais importantes, como um colete com mais espaços para placas e botas táticas voltadas à corrida.
Como um bom amante de mundos abertos, isso me deu um motivo concreto para dar uma boa explorada pelo mapa, cuja exploração inclui enigmas simples para abrir contêineres e caixas, além de anotações que oferecem pistas sobre outros locais com suprimentos e equipamentos únicos, com um total de 26 caixas espalhadas pela área.
É uma pena que os aliados ficam ainda mais erráticos nessa região e ajudam menos do que poderiam (e deveriam). Além disso, é bastante irritante ter de ouvir os personagens cobrando que sigamos para o objetivo depois de poucos segundos tentando olhar ao redor, uma insistência que aparece em outros momentos da campanha, mas aqui se destaca ainda mais.

Gráficos
Sem sombra de dúvidas, Call of Duty: Modern Warfare 4 é o jogo mais bonito da franquia Call of Duty, com uma melhora que faz a mudança para uma geração mais recente de consoles parecer bastante justificada.
As explosões estão lindíssimas, os reflexos chamam a atenção em diversos cenários, enquanto a variedade de cidades e o nível de detalhe dos interiores ajudam a manter o interesse em observar os lugares por onde passamos.
Os detalhes dos rostos e das expressões faciais também impressionam, até mesmo nos NPCs menos importantes. O estilo da interface também está bem agradável, especialmente quanto à forma que os nomes das cidades e missões aparecem na tela.

Apesar das sequências noturnas merecerem destaque pelo uso das luzes e das sombras, em Call of Duty: Modern Warfare 4 surgem alguns momentos em que a escuridão passa do ponto e prejudica bastante a visibilidade do jogador, sem oferecer uma lanterna ou outro recurso de visão noturna para contornar a situação.
A trilha sonora funciona, mas está longe de ser marcante. Por outro lado, o trabalho de efeitos sonoros continua impecável, com um destaque especial para o barulho dos drones bombardeiros, que chega a causar angústia de tão realista.
Quanto à dublagem em português, ela é relativamente fraca (especialmente para um projeto deste tamanho) e com interpretações quase caricatas, além de certas escolhas de diálogo que causam estranhamento e parecem ser focadas na identificação de um público jovem (como as expressões “Taca-lhe pau” ou “Farmou aura!”).

Mas roda bem?
No modo desempenho, reparei que Call of Duty: Modern Warfare 4 tem algumas pequenas oscilações na taxa de quadros, mas sempre se mantendo acima dos 60FPS e sem que essas variações fossem frequentes durante a campanha.
Considerando o resultado visual, foi uma experiência satisfatória nesse aspecto, com carregamentos rápidos que também ajudam quando precisamos repetir um confronto ou recomeçar depois de alguma falha.
Os problemas mais evidentes apareceram em inúmeros bugs de comportamentos de NPCs: aliados mirando e atirando em nada; inimigos que continuam disparando contra um companheiro que já estava morto; aliado se teletransportando; inimigo deixando de existir durante uma sequência de furtividade; entre outras ocorrências que chamam a atenção de forma negativa, mas que não estragam a experiência.

Conclusão
Call of Duty: Modern Warfare 4 me devolveu a empolgação de acompanhar uma campanha da franquia, com uma história que me fez temer pelo destino dos personagens e missões que encontraram boas maneiras de renovar o interesse por um tiroteio que já conhecemos tão bem. A área aberta foi uma surpresa especialmente positiva, mostrando como a liberdade de exploração pode funcionar dentro dessa proposta quando recebe o cuidado necessário. Apesar dos problemas com os aliados e da perda de criatividade em alguns confrontos finais, cheguei aos créditos bastante satisfeito com uma jornada que recupera a ação mais pé no chão da série e a apresenta com um espetáculo visual impressionante.


