Well Dweller é uma aventura fantástica. Combate divertido, exploração na medida e gráficos desenhados à mão embalam mais uma surpresa de 2026 para nós, gamers, e a lição de que a simplicidade é o que há de mais sofisticado.

Eu já tinha ouvido falar de Kyle Thompson e seus jogos. Confesso que nunca tinha experimentado Islets ou Crypt Custodian, mas amigos falam muito bem de suas obras. E aqui estou, comprovando com seu mais novo jogo, Well Dweller, que o homem sabe desenvolver jogos incríveis mesmo.
Well Dweller te fisga do momento em que começa até o momento em que termina. Uma premissa simples, um combate simples, mas incrivelmente delicioso, ótimas lutas contra chefes e uma exploração que engaja e não faz o jogador ficar cansado são motivos demais para experimentar. Honestamente, junto de Onimusha: Way Of The Sword, este jogo de um pequeno desenvolvedor indie está sendo, até agora, um dos dois melhores jogos do ano para mim. Vamos à análise.
Era uma vez, um pequeno pássaro…
Você é Faísca, um pequeno pássaro de penas pretas. Você vive em um poço no meio de uma floresta densa com seus irmãos e sua mãe. Uma noite, por ser o mais velho, você é incumbido de trazer comida. Sua mãe então sugere que você colete um pouco da cabana do caçador, que sempre, depois de um jantar farto, acaba cochilando. O problema? A rainha odeia pássaros. Em sua loucura, ela acabou com quase todos do reino, e você e sua família vivem em exílio. Logo, todo cuidado é pouco, e aqui começa sua aventura.

Não vou mentir: fui pego por uma grata surpresa pela qualidade e pela maneira como esta história é contada. O ponto de partida é convencional, mas a construção do mundo e o cuidado que Kyle teve com esse universo são incríveis. Os estágios que você explora têm personagens e chefes que fazem parte de contos de fadas mais obscuros. Através da exploração e da coleta dessas histórias — que inclusive têm uma arte linda —, você compreende mais sobre os acontecimentos e como eles se cruzam com a jornada de Faísca. Não falarei mais nem darei spoilers, porque acho obrigatório você se maravilhar como eu.
Desenho a mão, beleza e sutileza
Well Dweller é um jogo de menor escopo, mas é impossível não elogiar a direção de arte. O jogo preza por um mundo repleto de solidão e um pouco de medo, mas os estágios são variados e muito diferentes uns dos outros. Destaco a Floresta de Outono e o Banhado da Meia-Noite. Este último destaco até pelo nome descolado.

Outra coisa muito bacana é o modelo de fábula obscura que o jogo adota. Na história você percebe esse tom, mas é na arte que ele se consolida. Trabalho impecável.
Vingança flamejante
O sistema de combate de Well Dweller começa simples. Você tem um palito de fósforo que queima conforme você vive. A cada dano recebido, a sua arma se apaga um pouco. Para recuperar vida, você precisa riscar o palito e reacendê-lo; cada vez que faz isso, seu ataque fica mais forte e parte de sua vida é recuperada.
E aí vem a estratégia: Faísca é frágil e cai com poucos golpes se você não for ligeiro. Logo, usar a esquiva e sua invencibilidade temporária, aliadas a pulos certeiros e ao posicionamento correto, acaba salvando você e criando um jogo que preza pelo jogador atencioso.
Mas nem só de palito vive o Faísca. Você coleta pequenos pontos de luz, que aqui funcionam como a moeda do jogo, junto dos pontos de oficina. Pontos de oficina são pequenas placas de bronze com um martelo cravado que servem para melhorar os berloques. Berloques são os itens mais importantes para Faísca. Cada um tem um efeito diferente que pode ou não ser melhorado, como aumentar a força do ataque ou até ricochetear seu pote de óleo. Ah, essa mecânica é muito bacana! Faísca enche um pote de óleo conforme acerta ataques, e o resultado é que você pode rebatê-lo em cima de seus inimigos. O efeito é forte, gerando um bom dano de queimadura. Conforme você avança, o passarinho consegue mais potes.

Para melhorar o nível dos berloques equipados, você precisa usar as fichas de oficina para aumentar o poder de seus efeitos e liberar compartimentos. Cada berloque ocupa um número de compartimentos, e cabe ao jogador explorar ou comprar mais. Por exemplo: se você tem só 8 pontos de compartimento liberados, terá de usar apenas combinações de berloques que ocupem os espaços que você tem no momento. O jogo é generoso e permite que você compre mais sem limite na loja do vendedor Lalau ou colete a rodo pelo mapa. Não achei ruim a mecânica ser ilimitada, porque ela premia jogadores mais atenciosos ou que simplesmente prestam atenção nessa dinâmica.
No mais, os comandos são responsivos, os trechos de plataforma são divertidos e, em nenhum momento, morri para algo que achasse injusto, senão minha total incapacidade de seguir em linha reta por uma caverna de espinhos.
O canto dos pássaros
Eric Thompson é o irmão de Kyle e compositor das músicas do jogo. O trabalho é muito bom no geral, apesar de poucas composições terem ficado na minha cabeça. No entanto, a trilha do Banhado da Meia-Noite e do Castelo Real são lindas. Impossível negar que o tom melancólico do jogo dá o tom e combina perfeitamente.
Os efeitos sonoros são funcionais e bem representados. Trabalho acima da média para uma equipe tão pequena.
Funcionando bem, ainda bem!
Eu não tive nenhum problema sério, crash ou performance ruim com Well Dweller. Apenas em três oportunidades Faísca ficou preso na borda de um trecho de fase, e eu tive de reiniciar. Isso em quase 13 horas de jogo para os 100%. Para um jogo desse escopo, nada que um patch simples não corrija.

Well Dweller é um metroidvania de altíssima qualidade. A história, os gráficos, a jogabilidade e as músicas… tudo é excelente. O trabalho da Top Hat, distribuidora desse título, também é bacana pelo tratamento com nosso país, ajudando a traduzir o jogo para o nosso idioma. E claro, é impossível não amar o que Well Dweller representa.


Crítico do patobah.com.br e apresentador do Patotícias no Youtube: @PatobahOficial