
The Sinking City 2 foi desenvolvido pela Frogwares, um estúdio ucraniano em que todos os desenvolvedores sofreram muito durante a guerra que assolou seu país.
Depois de um período prolongado de produção, o estúdio finalmente conseguir publicar o seu jogo, o qual explorei intensamente nas minhas pouco mais de 10h de gameplay, tempo suficiente para que eu finalizasse a campanha, desvendasse todos os mistérios disponíveis e chegasse ao limite do que era possível se fazer em uma única jornada pela história do jogo.
(À título de informação, eu nunca joguei o antecessor – The Sinking City -, de forma que quaisquer referências a ele certamente me passaram despercebidas.)
Um mundo inundado
A história começa com Calvin, nosso protagonista, tomando conta de Faye, sua esposa, a qual se encontra acamada por conta de um possível ritual que teria saído do controle do casal, do qual eles pouco se recordam.
Para tentar despertá-la deste torpor, Calvin pretende encontrar um livro mágico chamado “Recitações da Alma Tenebrosa“, o qual conteria um ritual capaz de trazê-la de volta. Entretanto, esse livro se encontra na Biblioteca da Universidade de Arkham, obrigando o protagonista a navegar pela cidade inundada e iniciar a trama da aventura.
Logo de início, já podemos perceber que essa tarefa não será nada fácil: estamos uma cidade que está cada vez mais inundada por motivos desconhecidos. Os últimos barcos de resgate e evacuação já estão de partida, mas o protagonista se recusa a deixar o local sem a sua esposa.
Podendo contar apenas com sua própria coragem e determinação para salva-la, o protagonista logo descobrirá que existe uma força perigosa agindo por trás de todos esses acontecimentos, de forma que o destino de Faye talvez não esteja apenas em suas mãos…





Como sempre, não irei me aprofundar na história do jogo para evitar spoilers indesejados no review. Assim, o que me resta é contar o que achei dela.
A construção de mundo desse jogo é FENOMENAL! A atmosfera claramente inspirada em Lovecraft encaixa perfeitamente em uma história misteriosa que me deixou vidrado a todo momento.
O ritmo do jogo é agradável, as pontas soltas são amarradas de forma coerente e nos momentos certos toma rumos surpreendentes, especialmente na reta final.
Inclusive, vale destacar que cada uma das “principais” áreas de exploração do jogo tem suas próprias histórias internas (como o Mercado de Peixes, o Hospital, o Hotel), de forma que estamos sempre solucionando pequenos mistérios e entendendo mais sobre o mundo e os lugares.
Quanto ao final, ele superou consideravelmente as minhas expectativas, deixando-me surpreso de uma forma que eu não ficava há um bom tempo com videogames!
O único ponto negativo da trama é o uso do famoso recurso de “A princesa está em outro castelo!“. Como o jogo é curto, não chega a incomodar, mas esse subterfúgio para nos mandar de uma área a outra é tão batido que salta aos olhos.
O amor em meio ao horror
Apesar dos personagens serem um dos pontos principais da trama, eu sinto que aqui reside o ponto “menos forte” do jogo. Evito usar a palavra “fraco”, porque não acho que eles sejam ruins ou algo parecido, mas me farei entender melhor na sequência.
Calvin é um protagonista que me remete uma mistura de Leon (Resident Evil) com Indiana Jones. Corajoso, determinado e com um bom senso de humor, é um refresco jogar uma sobrevivência de terror em que o personagem já tem conhecimento prévio de como o sobrenatural funciona e não se amedronta perante a ele. Seu amor por Faye é tão palpável que em nenhum momento duvidamos de sua motivação e de que ele faria qualquer coisa para salvá-la.
Já Faye é o que podemos chamar de coprotagonista. A história inteira gira em torno dela, de forma que pouco posso informar sem trazer spoilers, mas saibam que ela possui uma personalidade marcante, sendo meu grande destaque positivo neste tópico, ao lado de seu marido.
Os personagens secundários (como Corentin, Lorelei e a ‘Mamãe Peixada’) são todos muito interessantes, com designs, histórias e diálogos que me fizeram SALIVAR por mais… Mas que acabaram me deixando passar fome mesmo. Temos basicamente apenas dois diálogos com cada um deles: quando os conhecemos e quando nos despedimos.
Isso foi uma baita decepção, pois todos eles eram realmente interessantes e eu gostaria de vê-los e interagir muito mais… Entretanto, entendo também o escopo do projeto e a situação do estúdio, de forma que não consigo cobrá-los muito por isso.
Por outro lado, os antagonistas oscilam entre serem interessantes (como Mi-Go) e um pouco “ausentes” demais, pois apesar de enfrentarmos os Rastejantes a todo momento (os ‘zumbis’ do jogo), dificilmente vemos e interagimos com a suposta ameaça oculta por trás de tudo aquilo.
Resident Evil em águas lovecraftianas
Mas para falarmos dos Rastejantes, temos de explicar melhor a gameplay, para assim adentrar no quesito do combate.
Neste ponto, é INEVITÁVEL fazer uma comparação que surge assim que abrimos o mapa ou o inventário do jogo: The Sinking City 2 inspira-se PESADAMENTE na franquia Resident Evil, mas mais especificamente em Resident Evil 2 Remake.
O estilo de gerenciamento de recursos é praticamente idêntico: temos um inventário extremamente limitado, o qual podemos aumentar conforme exploramos e encontramos pochetes no jogo. Devemos sempre tomar cuidado com a nossa quantidade de munição, por muitas vezes sendo mais benéfico apenas ignorar os inimigos de áreas em que você está transitando, para evitar o desperdício de balas.
As variações de armas e até a ordem que as encontramos também são muito similares aos da outra franquia, porém temos uma diferença importante no sistema de combate em si. Apesar de ainda enfrentarmos ‘zumbis’, aqui conhecidos como Rastejantes, e algumas outras criaturas que são variações de desses infectado, The Sinking CIty 2 possui um sistema de pontos fracos bem evidente, os quais são demonstrados por pústulas vermelhas que surgem nos corpos dos inimigos enquanto os combatemos.
O estilo dos puzzles e o foco no backtracking (voltar a um local já explorado após conseguir uma chave ou item) também nos remetem muito à Resident Evil , mas aqui eu talvez uma opinião impopular: o backtracking de The Sinking City 2 supera o de Resident Evil.
Inclusive, a Frogwares se atentou para não cometer um erro há muito repetido pela franquia Resident Evil: o das áreas iniciais serem muito melhores do que as demais áreas desses jogos. Aqui, o jogo fez múltiplas áreas enormes com foco no backtracking que se sustentam todas muito bem (ao menos até chegar à reta final do jogo, a qual achei menos inspirada que as demais).
Como outros pontos que remetem a franquias renomadas, menciono também a sala de salvamento e a existência de um monstro perseguidor (como em Resident Evil), bem como um quadro mental de pistas (remetendo a Alan Wake 2, mas muito mais simplificado).
Em resumo, The Sinking City 2 soube aproveitar os melhores elementos que outros jogos do gênero possuíam, com cuidado o suficiente para deixar sua própria marca.
A dificuldade dos combates era equilibrada, pendendo mais para o lado fácil (até porque não morri nenhuma vez durante o jogo inteiro). Existiram momentos desesperadores, onde eu era cercado por inúmeros inimigos e acabava sentindo o peso de uma jogabilidade não tão polida quanto poderia, mas era possível lidar com eles estando bem equipado. As lutas com chefes, por outro lado, baseiam-se mais em explorar corretamente suas mecânicas, as quais são razoavelmente interessantes, mas não particularmente difíceis.
Quanto à exploração do jogo, ela é EXTREMAMENTE satisfatória. Como já disse antes, o backtracking é sensacional, então dá muito gosto retornar em uma área previamente inacessível, agora em posse da chave ou outro elemento que desbloqueia o caminho. Destaco que essas áreas “extras” costumavam conter recompensas bem relevantes, com o jogo evitando de colocar itens mundanos em locais de difícil acesso!
Uma Arkham tão bela quanto perturbadora
Também era de grande ajuda o fato de que estávamos explorando locais belíssimos, os quais claramente foram construídos com muito esmero pela equipe de desenvolvimento. Não apenas a área da cidade inundada era muito bela, mas os ambientes fechados em que passamos a maior parte do tempo eram soberbos, onde dou um mérito especial para a belíssima área do “Hotel”!
A trilha sonora era decente, não chamando a atenção a ponto de eu me recordar especificamente de alguma música para citar aqui, mas também nunca era ruim o suficiente para incomodar. Inclusive, o jogo usa muito bem os momentos de silêncio para gerar tensão, cortando por completo a trilha sonora quando quer nos deixar desconfortáveis.
Por fim, quanto ao aspecto técnico, tenho dois pontos negativos a comentar.
O primeiro é que o jogo possui um aspecto visual meio “lavado”, como se as imagens fossem levemente borradas ou possuíssem um filtro claro por cima, deixando tudo com uma aparência meio estranha. É um incômodo que vez ou outra se acentuava, principalmente nos ambientes externos.
O segundo, foi que eu experienciei um crash em um momento de grande ação, com um travamento que me fez ter de reiniciar até o meu PS5 para voltar a jogar. Felizmente, o jogo havia salvado logo antes desse momento de luta, então não tive grande prejuízo.
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Fã de RPGs e jogos indies, advogado e redator do Patobah