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TALAKA | PC (demo) review

Quando sua ligação mais forte com o seu passado, sua história e o amor da sua família se veem em perigo, até onde você é capaz de ir? É nessa jornada que os desenvolvedores da Potato Kid nos levam em TALAKA, um promissor indie que carrega no peito a coragem de trazer e explorar o universo de lendas e histórias dos Orixás e que aqui se manifestam não só como aliados e guias, mas também como parte da narrativa de um tempo em que há o medo do esquecimento e do desaparecimento.

A vida da nossa protagonista vai se entrelaçar com a deles após o desaparecimento de sua avó e o descobrimento de seus próprios poderes mágicos, intimamente ligados a este mundo divino.

TALAKA

Distribuída pela Acclaim, Inc., a demonstração de TALAKA já pode ser acessada na Steam e jogada até certo ponto, o suficiente, eu te garanto, para te deixar animado com o que os desenvolvedores prometem entregar no produto final.

Meu muito obrigado, antes de tudo, não apenas pela coragem dos envolvidos neste projeto, mas também pelo coração em cada uma das representações dos Orixás, no conto das lendas atreladas e na sensibilidade de, em tempos tão turbulentos quanto os que vivemos, conceber uma obra tão corajosa em/por abordar a vivência, a história e a ancestralidade de todo um povo até hoje perseguido.

Talaka e o Brasil.

O que a Potato Kid entrega com TALAKA e o que isso significa para o Brasil e poderá, em seu lançamento final, significar para tantas outras crianças, adolescentes e grupos sociais, é algo realmente impactante e de dimensões grandiosas. O jogo se dispõe a criar sob uma ótica nacional aquilo que se ergue não apenas como uma experiência interativa voltada ao entretenimento e ao ensino, mas também como uma densa afirmação de identidade cultural.

O estúdio aqui, intencionalmente ou não, articula um retorno a uma travessia mitológica e social. Onde ao trazer uma protagonista jovem e negra, nascida no interior do país e cuja bagagem cultural é tecida pelas lendas, cosmologias e contos populares, faz com que o formato da investigação na construção dessa herança ancestral sobreviva em uma nova forma de mídia (jogos), esquivando-se do apagamento imposto por instituições e convertendo-se em uma ferramenta simbólica e efetiva de reconfiguração do real.

A história e o ponto de partida que encontramos nesta DEMO estabelecem, a partir do sequestro de sua avó (levada ao mundo dos Orixás), uma partida forçada para a nossa protagonista. Ela embarca em uma jornada de resgate que transborda a lógica do heroísmo clássico e ocidental, convertendo-a no entanto, em uma restituição de uma nova forma de narrar as viagens e cosmovisões de outros povos além dos europeus.

Essa dinâmica quase de oposição faz com que os Orixás e as demais entidades, aqui não estejam apenas associados à sua posição de divindades distantes, mas, em suas próprias apresentações, conectem-se diretamente a gestos e manifestações vividos pela classe trabalhadora brasileira, tantas vezes soterrada pelas narrativas oficiais que nos distanciam do nosso passado. A busca pela avó funciona, assim, como o resgate de uma ancestralidade que redescobre o sagrado no cotidiano, na pele e na memória.

Um dos grandes méritos deste título e um dos vários motivos pelos quais saio desta demonstração mais animado do que nunca, é a maestria e o respeito apaixonado com que o estúdio constrói seus menores símbolos. A avó figura com precisão a imagem da mulher trabalhadora do interior brasileiro: um corpo calejado pelo tempo e pelo trabalho duro, mas que preserva a doçura de um coração capaz de manter, mesmo frente à severidade do dia a dia, uma inabalável sensibilidade voltada ao acolhimento e ao amor. Essa matriarca, que funciona como o pilar pedagógico da família, é também quem manifesta o afeto inerente às religiões de matriz africana e à própria cultura do povo brasileiro.

E é no segredo de um canto ao anoitecer, na história repetida de geração em geração e na tradição preservada por milênios que o carinho mais íntimo do lar transborda.

Ao se transformar em videogame, as memórias que tantas vezes tentam encobrir ganham uma contribuição de grande relevância e de um sentimento fenomenal. Viva o Brasil daqueles que foram e continuam sendo silenciados.

Gameplay em um mundo de Lendas e Monstros.

Sobre os desenvolvedores de TALAKA e o que entregaram nesta demonstração, devo ressaltar a extrema competência na composição do combate, sobretudo no que se refere a evocar memórias (de outros títulos), gerar afinidade e proporcionar uma fácil compreensão do fluxo de gameplay, mantendo uma linha bastante consistente.

Aqui nos movimentamos de forma bidimensional, percorrendo a tela de um lado ao outro, saltando e descendo por diferentes plataformas e estruturas. Nosso caminho é constantemente povoado por ondas de criaturas, cada uma exigindo uma abordagem e uma estratégia distinta para ser derrotada.

Eventualmente, surgem inimigos imbuídos com uma espécie de ‘energia do além’, os quais demandam a intervenção de uma habilidade especial e que, desta vez, é concedida à nossa protagonista. Em TALAKA, a esquiva é peça-chave para evitar o dano de projéteis e investidas, um recurso absolutamente indispensável nas lutas contra os chefões e que, ao menos nos confrontos que marcaram a minha passagem por esta DEMO, apresentavam quase sempre padrões de ataque em área baseados em disparos.

TALAKA também demonstra uma clara consciência de mercado e dos riscos que uma fidelidade purista e engessada a um único gênero poderia trazer para uma produção independente. E pensando nisso, os desenvolvedores implementaram uma área de customização de dificuldade acessível, desenhada para moldar a melhor experiência possível para cada perfil de jogador.

É possível ativar inibidores de dano, ajustar porcentagens de dano recebido/aplicado, e até modificar opções ligadas à dinâmica de corrida pelo mapa. Quase todos os aspectos da jornada podem ser calibrados, algo que me agradou profundamente, pois sinto que essa acessibilidade me deixa ainda mais inclinado e entusiasmado para conferir a versão final.

No fim das contas, a essência do título se resume a isso: um jogo ágil, de excelente ritmo, com fases marcadas pela conquista de novos poderes e combates que progridem em sintonia com a evolução do próprio jogador conforme os recursos são coletados.

Agradecimentos e Expectativas.

Meu muito obrigado aos desenvolvedores de TALAKA não só pelo que entregaram, mas também pela batalha que estão enfrentando e vão enfrentar com este jogo. 

Que ele se manifeste não apenas como mais um título nacional, o que por si só seria de muito orgulho. Mas também, como uma proposta e um manifesto de povos, culturas e histórias que por tanto tempo foram escondidas e tidas como incontáveis. 

Viva sim o Brasil, mas o Brasil que abarca seus filhos. Todos eles.

Foto de DioC
SOBRE O AUTOR

DioC

"No gods or kings. Just ducks."

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