Starfield é uma experiência divertida e incrivelmente bela. SIM, existem problemas como a performance terrível e a dificuldade que sofre com um nivelamento ruim, mas a aventura da Bethesda é sólida.
As missões secundárias e o mundo são um show à parte, e a narrativa prende o jogador até o fim. Mesmo as criticadas DLCs me divertiram, e o cuidado extremo com algumas mecânicas vai te fisgar, com certeza.

A vastidão espacial, o mistério em saber se estamos sozinhos e a beleza do que poderia ser uma humanidade vivendo junto ao cosmos sempre fascinaram crianças e adultos. Starfield é um projeto que capta exatamente isso. Eu nunca vi ou vivi um jogo com a temática que tivesse um cuidado tão grande na ambientação do que seria uma hipotética vida no espaço. Facções interessantes, cidades que vão desde uma vibrante metrópole em neon até um destacamento que parece ter saído de um filme de cowboys espaciais… Starfield te cativa aos poucos, mas esse impacto no final irá perdurar durante toda a sua reflexão após terminar a obra.
Uma odisséia no espaço
A história principal é mais direta, ainda que contenha algumas surpresas. Em resumo, você é um minerador no seu primeiro dia de trabalho. Durante a extração de um artefato misterioso, ao tocá-lo, um efeito estranho como uma alucinação te afeta e você só acorda na enfermaria. Daí, uma série de eventos — inclusive o seu envolvimento com um grupo de exploradores chamados de “CONSTELAÇÃO” — ocorre, e o ponto de partida do jogo é a sua chegada ao planeta Jemison, lar da UC (Sistemas Colonizados), após essa breve introdução.

Starfield, assim como outras obras da Bethesda, é um jogo que espera muito do jogador em sua narrativa como um todo. Intrigas corporativas, sujeitos indigestos e escolhas extremamente difíceis vão pautar suas experiências. A história principal é até divertida, mas as missões de facções são as mais incríveis e imperdíveis. Há intrigas entre setores e jurisdições espaciais, um gostinho das disputas corporativas, a lenda de um vigilante muito peculiar que lembra um personagem famoso da DC… É tanta coisa bacana, são tantas histórias fantásticas ocorrendo que o jogador fica imerso. Eu tive muitas favoritas, mas é óbvio que todas são imperdíveis e de alto nível. O único ponto crítico aqui, para mim, é a Bethesda simplesmente travar as missões da guilda de rastreadores através de pagamentos no menu Criações. Isso realmente me incomodou; é o tipo de prática mesquinha que eu não esperava, já que a missão em si era MUITO, MUITO bacana.
Beleza de outro mundo
E é mesmo. Starfield é lindo. Os mundos e fundos, planetas hostis e as espaçonaves… ah, as espaçonaves! Nunca vi tanta criatividade envolvida em um construtor de naves. Possibilidades também! Eu perdi horas e horas mexendo e modificando cada pedaço, entendendo as mecânicas e menus diversos. As galáxias são vastas, e o único ponto que poderia sim ser melhor é a exploração. Mas falarei mais disso depois.
O arsenal é vasto e diferenciado. Uniformes e armaduras diferentes são cheios de detalhes e texturas, com armas que unem tecnologias do mundo ao bom e velho fuzil movido a balas. É divertido montar seu arsenal, até porque ele também é belíssimo de se ver.

Outro fator que pode destoar bastante nos gráficos são as texturas e a construção de personagens comuns (os famosos “NPCs”) e monstros alienígenas — a fauna no geral. Embora os personagens principais, roupas e ambientes sejam incrivelmente variados e detalhados, o mesmo não se pode dizer a respeito disso. Um preço até baixo a se pagar, já que todo o resto não parava de encantar.
Como se opera esta nave?
Starfield tem bons controles e um menu de comandos completamente personalizável. Só isso já rende ao jogador um perfil que se adequa melhor às suas necessidades, o que para mim é um ponto alto. Espere tudo o que acompanha um RPG massivo da empresa: menus rápidos direcionais com espaços personalizados por você, botões de ações contextuais como pular, mirar e atirar… nada foge do padrão visto em outros grandes jogos.
Pilotar naves é um show à parte; contudo, é uma caminhada longa até pegar o jeito. E isso nem de longe é pela mecânica em si, que é bem direta ao ponto, fácil de pegar e totalmente explicada. Para melhorar a coisa, o sistema de nivelamento dos combates aeroespaciais é simplesmente… ruim. O jogo diz que o nível das naves inimigas e sua quantidade afetarão as batalhas, mas como vou saber o nível da minha nave se não há uma resposta EFETIVA para isso? “AH, MAS VOCÊ PODE OLHAR NOS MENUS…” SIM, TUDO DIZENDO QUE SOU NÍVEL 1? FICA DIFÍCIL! Cabe ao jogador, caso queira se interessar pela parte mais complexa da coisa, se virar. O problema de verdade aqui é outro, e eu considero ser o ponto divisivo na jogabilidade: as ações que vão exigir mais rapidez ou complexidade de combinações nos menus de jogabilidade, da nave e de toda e qualquer ação.

E tem de tudo, meus amigos: gestão de recursos, peso do personagem e da nave, doenças e remédios que você terá que tomar ao se expor a planetas hostis… é problema o tempo todo, é muita coisa a toda hora. É aí que você entende que, depois de algumas horas imerso na aventura, você simplesmente se enrola na pressa de atingir um ponto no mapa ou acessar as diversas camadas de equipamentos e submenus presentes. Fica simplesmente cansativo, a ponto de eu evitar a todo custo sequer me aventurar, algumas vezes, nas camadas de personalização. E nem me fale nas gestões de entrepostos, casas seguras e baús itinerantes de equipamentos. Nem mexi nisso aí. Lembrando que essa é a minha experiência como jogador, mas entenda que não foi pelo fato de eu NÃO SABER o que fazer, e sim pela caminhada para chegar onde eu queria, aliada ao tempo e tédio que eu sentia em abraçar tudo. Sem falar na empolgação com as missões. Literalmente, sem tempo, irmão. Starfield te faz ficar apressado, e isso, por um lado, foi muito bom.
Como sempre, as habilidades, construção de personagem e sistema de níveis continuam os mesmos de outras experiências do mercado. Você pode ser um guerreiro com foco em pilotagem e ação direta, ou um esquivo furtivo com uma nave extremamente pautada em fugas. O ponto aqui é que cada círculo de habilidade tem 4 níveis diferentes e, para atingir esses pontos, é preciso cumprir objetivos. Para destravar mais um nível de cura com pacotes médicos, por exemplo, você vai precisar se curar 25 vezes, e assim gradativamente em cada etapa. Isso pode parecer ruim, mas acho que é a maneira dos desenvolvedores te fazerem realmente ser o personagem que deseja, não só evoluindo naturalmente, mas com ações também. CADA NÍVEL atingido destrava um ponto de habilidade, e cabe a você ser quem quiser nos sistemas colonizados.
No espaço não se ouve nada… mas aqui tem barulho sim!
Nada a reclamar no departamento de efeitos sonoros, voz e músicas. Tudo muito coeso, bem-feito e detalhado. Barulhos de armas, naves, inimigos, animais… tudo variado e de alta qualidade. A dublagem é incrível. Mesmo personagens secundários têm um trabalho de voz excelente. A imersão total quando estamos pelo espaço e a variedade de sons, vozes e do choque contra meteoritos vale demais a experiência. Mérito total da Bethesda aqui, e que essa equipe de áudio sirva de exemplo para outros jogos do mercado.
As DLCs são legais sim. Só a Terran Armada que poderia ser mais.
Ouvi coisas ruins de Shattered Space e adorei minha visita à Casa Va’ruun. É um mundo menor, com uma trama envolvendo religião e gente teimosa e incrivelmente fanática, que me renderam quase 20 horas de diversão. Talvez as reclamações sejam por ser “mais do mesmo”, mas isso nem de longe atrapalhou minha jornada. A DLC é um vislumbre do que Starfield seria caso investisse em mundos mais completos, em vez de mais de 100 planetas lotados de recursos que já coletamos, com fauna e flora que já revisitamos.

Terran Armada é para atiradores — gente que gosta de sair atirando em tudo. Para mim isso é muito bom, e os equipamentos aliados à primeira missão são de fato divertidos, mas a execução poderia ser bem melhor. As secundárias são baseadas em eventos de coleta e pirataria que são liberadas logo após você fazer amizade com a nave central, e elas se repetem a rodo. As expedições dentro das naves robóticas se repetem ao extremo também e, apesar de a gunplay ser ótima, senti falta de intrigas e personagens mais complexos. Faltou profundidade. Mas ei, para dar uns tirinhos e evoluir teu personagem? Só vai.
Otimização ruim, bugs e insistência no que poderia melhorar.
Não, eu não tive muitos crashes. Só dois. Não, não tive muitos problemas com quests parando. Só uma, na Terran Armada, em que tive de refazer um encontro de combate espacial porque a nave que queria me explodir sumiu. E não, não tive muitos congelamentos. Só um.
O problema de Starfield reside na performance porquíssima. É um dos trabalhos mais porcos que eu já vi em um RPG atual. Engasgos a todo momento, quedas bruscas e absurdas nos combates de nave e a insistência em dificultar o que deveria ser simples: loadings, loadings e LOADINGS em toda viagem rápida, em todo carregamento de save… ao sair, ao entrar em um prédio… ao entrar no menu, ao sair do menu… e tem ainda mais pormenores.

É seguro dizer que a AMBIÇÃO do jogo e do que queriam fazer falou mais alto. Starfield tem milhares de sistemas, planetas e construções. Se você deixa cair um item em uma região explorável, ele ficará lá permanentemente. Todo ambiente interno é cheio de vida e detalhes. Mas seria uma irresponsabilidade com meu público não avisar que você terá que ter muita paciência com todos os modos escolhidos de performance no PlayStation.

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Crítico do patobah.com.br e apresentador do Patotícias no Youtube: @PatobahOficial

