Boa Leitura!

Sancticide | PC Review

Se o fim dos tempos bíblicos não é parte do futuro ou de uma promessa, mas sim do seu presente, de que lado você estaria? De que forma se posicionaria no que é o último capítulo da história humana? Será mesmo que fugir é uma opção ou só nos resta enfrentar, tomando um lado como certo?

Seja lá qual for a sua resposta, aqui no controle de Ezechiel, você se torna um “coletor de pecados” e travará uma guerra não só contra o seu próprio mundo, mas também, mental e pessoalmente, contra aqueles a quem você serve.

Sancticide

Essa proposta tão diferente do que se imagina para um jogo em 2026 é fruto da mente criativa dos desenvolvedores da Red Square Games e da Sylen Studios, tendo Sancticide sido desenvolvido por ambos e distribuído também pelos mesmos.

Dessa colaboração inusitada nasceu um RPG de ação tão diferente quanto, em que, com erros e acertos, trago para vocês hoje o que foi a minha experiência.

Ezechiel, Coletores de Pecados e Vida Urbana.

Não há o que discutir. O fim do mundo finalmente chegou.

E, com ele, da forma como os desenvolvedores quiseram trabalhar, haverá um tempo de transição no qual, sentenciados a continuar habitando esta Terra, a fé será a principal moeda de troca, enquanto o pecado será uma condenação sem chances de ser recorrida.

Nosso protagonista, Ezechiel, é uma das poucas pessoas convidadas a se tornar um “coletor de pecados”, função essa que exerce o papel de investigador, júri, juiz, tribunal e executor para todo aquele que desejar e a quem for oferecido esse cargo, em troca, claro, de uma aparente salvação que nunca fica clara, seja por exemplos de outros que a obtiveram ou mesmo por não sabermos se ela efetivamente existe, já que trabalharemos até que tudo se acabe.

Sancticide

A sociedade, no entanto, rejeita, em muitos aspectos, a presença desses coletores. São apedrejados, odiados, ofendidos em cada esquina através de pichações, palavras duras ou mesmo olhares atravessados.

O mundo de Sancticide faz questão de demonstrar que não há fé suficiente que aceite viver sob um regime tão rígido assim, de forma que o jeito encontrado para se manifestar e até mesmo se rebelar foi através da luta armada contra esses caçadores e, por vezes, até da execução de alguns deles. Mecanicamente, é claro, nós sempre iremos renascer, mas, a valer do contexto, não será uma ou duas vezes que veremos outros coletores sem terem a mesma oportunidade.

Destaco, nesse tópico de abertura, a vida urbana, porque realmente me impressionou e foi algo que eu nunca tinha sequer pensado em um jogo abordar: a combinação de uma vida cotidiana que até então funcionava e era comum para a maior parte das pessoas, mas que agora é invadida pela presença de um fim que, sim, foi pensado pela maior parte de nós, mas nunca esperado para esta era, funciona e é muito bem apresentado nesse jogo.

Caminhar pelas ruas principais da maior cidade do mapa significa ver resquícios de um mundo muito parecido com o nosso e que agora se encontra marcado pela calamidade. Noções como a de propriedade privada, por exemplo, já não valem absolutamente nada, visto que sequer há uma economia ativa, seja enquanto mecânica ou como parte do cenário, já que a escassez é uma realidade em um mundo constantemente sendo destruído. Também não faz mais sentido para ninguém acumular qualquer tipo de riqueza. Nada disso importa.

Não importa nem mesmo na vida das pessoas, porque, independentemente da dificuldade escolhida para jogar, o que você vai encontrar, na maior parte do tempo, são inimigos básicos até demais, usando armas por vezes improvisadas ou extremamente simples, como espingardas quebradas, escopetas enferrujadas e pistolas que não contam com nem meia dúzia de balas.

A realidade de Sancticideé a de um mundo e de um povo não está vivendo, mas sim sobrevivendo. Sofrendo e sendo punida, mesmo tão próxima da redenção.

“Them at the Top”

Difícil de traduzir, mas o termo se refere mais ou menos a algo como “aqueles no topo”. É uma revelação que, inclusive, trabalha melhor a lore de Sancticide, te fazendo duvidar e, eventualmente, com outras “provas” (apresentadas pela campanha), consolidar um pouco mais a teoria de que quem realmente veio a este mundo e o está governando não necessariamente são anjos. E isso não é dito com demérito, mas como uma constatação de que, na minha interpretação pessoal da história, é quase como se o processo de julgamento, o ato de “purgar” este mundo, ou seja, limpar o mal; simplesmente estivesse estagnado ou até, quem sabe, terceirizado para um seleto grupo no controle que agora detém, na Terra, os seus próprios interesses.

Sancticide não é um jogo longo, e isso eu já preciso te alertar de cara. Pude concluí-lo em menos de cinco horas, tendo sido, no que se refere à história, um jogo que me

cativou bastante. Nessas cinco horas, inclusive, muito dessa ideia de pessoalidade e humanidade transportada para as tais figuras angelicais, é trabalhada quase durante todo o jogo, mas de maneira não tão clara assim (oque eu imagino ser proposital).

Uma das críticas que Ezechiel levanta, por exemplo, é se aquele que nos envia de um lado para o outro neste mundo fragmentado não estaria, quem sabe, se tornando “humano” demais. O que, com isso, quer dizer e sinalizar que (ele) passou a lutar por si, pelos seus interesses e pelos seus próprios objetivos.

De forma que a nossa própria atuação e a de todos os Coletores de Pecados, poderia não passar de nada senão um grande plano de vingança e controle.

Afinal de contas, quem realmente é que está no controle do mundo a partir do momento em que o seu Deus se abstém?

O fim que nunca chega.

“Os mortos foram julgados segundo as suas obras.” Apocalipse 20:12

Antes de qualquer coisa, abro este tópico sensível com a declaração de que tudo o que for estabelecido aqui carrega absoluto respeito pela crença e pela fé dos povos. O que segue se pauta apenas em interpretações e em julgamentos restritos à proposta do jogo e às leituras que fiz de sua narrativa. Não há qualquer intenção de atacar a uma fé, instituições religiosas ou contestar as Escrituras.

Feito esse esclarecimento, apresento uma das maiores surpresas que tive enquanto pesquisava para escrever esta análise. Na tentativa de compreender onde os desenvolvedores poderiam ter buscado inspiração para construir esse universo, acabei encontrando três perspectivas teológicas distintas que, em diferentes momentos, pareceram dialogar com a proposta de Sancticide.

A primeira delas é o Premilenismo, corrente difundida e defendida por muitos grupos protestantes. Ela sustenta que existe uma tendência natural e inevitável de afastamento da humanidade em relação a Deus, culminando em uma grande tribulação mundial, no surgimento do Anticristo e, posteriormente, no retorno de Cristo, que derrotaria seus inimigos e estabeleceria um reino milenar sobre a Terra.

Dentro dessa corrente existem duas leituras principais: o Premilenismo Histórico, que segue essa estrutura de maneira mais tradicional, e o Premilenismo Dispensacionalista, desenvolvido no século XIX, que incorpora as ideias modernas do arrebatamento antes ou depois da tribulação, dependendo da interpretação adotada.

A segunda posição é o Amilenismo, defendido por boa parte da tradição católica, ortodoxa e também por diversos grupos protestantes históricos. Nessa interpretação, o “milênio” mencionado nas Escrituras não corresponde a um período futuro nem necessariamente a mil anos literais. Cristo já reina desde a sua ressurreição e, por consequência, os poderes de Satanás estariam limitados. Assim, nós já viveríamos esse milênio de forma simbólica. O retorno de Cristo aconteceria apenas uma vez, seguido imediatamente pelo Juízo Final e pela renovação da criação. Dentro dessa leitura, o livro do Apocalipse trata muito mais da luta contínua entre o Reino de Deus e as forças do mal do que de uma sequência cronológica de acontecimentos futuros.

Por fim, temos o Pós-milenismo, uma visão bastante popular entre os séculos XVII e XIX. Ela sustenta que o Evangelho continuará transformando povos e nações ao longo da história, permitindo que a justiça cresça progressivamente até que se estabeleça uma longa era de paz e influência cristã, identificada simbolicamente como “o milênio”, antecedendo o retorno definitivo de Cristo.

Depois de apresentar essas três perspectivas, gostaria de conectá-las à forma como interpretei Sancticide.

O Premilenismo parece surgir aqui de maneira invertida. Após criaturas autointituladas “anjos” ocuparem o lugar de Cristo nesse reino intermediário, aquilo que deveria representar redenção transforma-se em uma ditadura incompatível com aquilo que a humanidade esperava encontrar. A promessa de que “Deus virá depois” converte-se em justificativa teocrática para controlar os povos.

A figura do Anjo de Luz, frequentemente associada, em algumas interpretações cristãs, ao modo como Satanás se disfarça para enganar, também me parece estabelecer um paralelo na campanha. Ela dialoga tanto com o papel que ocupamos enquanto obedecemos a ordens moralmente questionáveis quanto com uma crítica à forma como grandes figuras de autoridade podem esconder interesses particulares atrás de discursos considerados sagrados.

Por fim, o próprio tempo histórico vivido pela humanidade na vida real e na campanha de Sancticide, dialoga com o enfraquecimento do Pós-milenismo após as duas Guerras Mundiais, quando a expectativa de uma era de paz foi gradualmente perdendo força diante da violência e da destruição. Em Sancticide, essa ideia ganha nova forma: a promessa de paz feita por esse governo angelical acaba produzindo exatamente o oposto daquilo que anunciava, levando a narrativa a defender, antes de tudo, a própria humanidade diante de um regime que promete salvação, mas entrega opressão.

E é tão interessante ver como Sancticide levanta tantas questões e brinca tanto com aquilo que esperamos encontrar em uma narrativa inspirada na escatologia cristã que, mesmo com todos os seus problemas técnicos, você termina deixando a sensação de que se viveu uma experiência genuinamente diferente.

Desempenho ruim pode ser compensado com boa ambientação?

Por incrível que pareça, sim, essa foi a definição da minha experiência e surpresa ao longo dessas quase cinco horas de jogo. Fiz tudo o que podia, explorei os mapas ao máximo porque realmente me interessei por eles e, ironicamente, foi justamente isso que me fez continuar, mesmo percebendo o quão mal otimizado o jogo rodava na minha máquina.

Sancticide

Foi preciso abrir mão da qualidade gráfica, principalmente de texturas e iluminação, para conseguir uma taxa de quadros minimamente estável. O que perdi em fidelidade visual acabou sendo compensado apenas em parte por um desempenho um pouco mais aceitável, mas nem isso foi suficiente para evitar travadas constantes e alguns bugs bastante incômodos.

Esses problemas ficaram especialmente evidentes nas duas lutas contra chefes. Em ambos os casos, a sensação era de que o jogo simplesmente deixava de compreender o que estava acontecendo. Não sei se por limitações de otimização, alguma falha na engine ou qualquer outro problema técnico, mas o resultado era uma completa perda de estabilidade, com objetos deixando de carregar corretamente, animações falhando e até situações completamente inesperadas atrapalhando o meu jogo.

O pior exemplo aconteceu quando o corpo do meu personagem simplesmente “grudou” no do inimigo. Nenhum dos dois conseguia se afastar e a luta virou uma cena quase cômica, em que ambos apenas trocavam golpes continuamente, anulando um ao outro sem que fosse possível prosseguir normalmente.

Mas, deixando de lado essa péssima experiência técnica (se é que isso é possível), foram justamente os mapas que me convenceram a permanecer.

Como talvez tenha ficado evidente na pequena e bastante amadora pesquisa que fiz sobre diferentes interpretações cristãs acerca do fim dos tempos, acredito que muito desse imaginário também tenha servido de inspiração para os próprios desenvolvedores, ou talvez faça parte das experiências pessoais que eles carregam. O resultado é um mundo que transmite exatamente essa mesma sensação de colapso espiritual e social.

Existe uma imersão muito particular em Sancticide. Não apenas pela culpa que o jogo faz você carregar conforme entende a posição hierárquica ocupada por Ezechiel dentro dessa nova sociedade, mas também pelo impacto que a presença dos anjos e a iminência do fim dos tempos causaram sobre tudo aquilo que ainda restava da civilização.

Sancticide

Na abertura desta análise, comentei sobre a inexistência de uma economia funcional nesse mundo. Mas essa ausência também se estende à infraestrutura, à saúde pública, ao planejamento urbano e praticamente a qualquer outro aspecto que antes sustentava a vida em sociedade. Tudo aqui parece abandonado.

Em contraste, porém, permanecem as necessidades mais básicas. O jogo nunca diz isso explicitamente, mas deixa claro que, independentemente do julgamento moral reservado para a humanidade, inúmeros homens e mulheres jamais terão sequer a oportunidade de chegar vivos aos tribunais do “céu”. Morrerão muito antes, consumidos pela fome, pela sede e pelo abandono.

Sancticide

Existe uma ironia profundamente triste nessa visão de fim do mundo. Em uma realidade construída sobre a promessa de um julgamento final, muitos sequer terão forças para sobreviver até ele.

Agradecimentos

Independentemente de qualquer posição apresentada, interpretação levantada ou texto citado ao longo desta análise, quero agradecer principalmente aos desenvolvedores de Sancticidepela confiança no trabalho da Patobah e, da mesma forma, aos próprios membros da equipe, que pensaram em mim para a oportunidade de cobrir este jogo.

Talvez não tenha sido um dos jogos mais desafiadores que já enfrentei em termos de gameplay, mas certamente foi um dos que mais me desafiaram moralmente. Poucas vezes terminei uma campanha carregando tantas dúvidas e interesse pelo contexto sobre aquilo que havia acabado de experimentar.

Ainda gostaria de ter visto uma história mais longa e um desenvolvimento maior para alguns personagens, mas, mesmo dentro das poucas horas que passei nesse universo, considero que a experiência foi satisfatória.

Com uma otimização mais consistente e alguns ajustes importantes na performance, acredito sinceramente que esta nota tem potencial para crescer bastante.

Mais reviews: AQUI

PATÔMETRO
Conclusão
Na data de publicação desta review, Sancticide ainda decepciona pela forma como desempenha em máquinas que, em teoria, deveriam ser mais do que suficientes para executá-lo com qualidade gráfica elevada. Ainda assim, se você estiver disposto a investir entre quatro e seis horas para concluir a campanha, explorar seus mapas com calma e realizar algumas atividades secundárias, acredito que seja um jogo que vale a pena conhecer, principalmente em uma promoção futura. Enquanto os problemas de desempenho não são corrigidos, talvez o melhor seja fazer exatamente isso: coloque-o na sua lista de desejos e acompanhe sua evolução. Se os desenvolvedores entregarem o cuidado técnico que esse universo merece, há uma boa chance de que a sua experiência recompense a espera.
Notas do Visitante0 Votes
0
PROS
História interessante
temas desafiadores
personagem principal interessante
CONTRAS
Trilha sonora fraca
desempenho muito ruim no PC
personagens coadjuvantes desinteressantes
5
NOTA FINAL

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