Existe algo difícil de explicar que vem atraindo o público para The Drama antes mesmo do filme começar de fato. A proposta de se trabalhar em cima de algo tão problemático e perigoso como os segredos revelados dentro de um casamento assume o papel da descoberta de segredos desconfortáveis e de um abalo que pode acabar para sempre com a relação, mesmo que do casal mais sintonizado e apoiado.
REVIEW | THE DRAMA
Boa parte da expectativa em cima disso também vem com a presença de Robert Pattinson e Zendaya, dois atores que parecem viver os melhores momentos até hoje de suas respectivas carreiras, ocupando aqui o papel principal para esse casamento em rota de colisão.
E talvez, quem sabe, seja exatamente isso que faz de The Drama, ainda que sob o holofote de todas as críticas que eu pretendo tecer, também um bom ponto de partida para discutir violência, radicalização e juventude contemporânea, levando a um público maior do que aqueles que já discutem esses tópicos há anos. Ele nasce e se aproveita de 2026 para, quem sabe, alçar voos maiores nas esperadas premiações.
VAMOS FALAR ENTÃO DO ELEFANTE NA SALA…
Talvez o mais assustador desse filme e que, sem vontade nenhuma de esconder, vem sendo inclusive parte do material de promoção do filme, The Drama vá falar exatamente do segredo íntimo e cruel da personagem Emma, interpretada por Zendaya, acerca do seu passado ligado a um planejamento de tiroteio escolar.
Kristoffer Borgli não só vai trazer à tona essa corrupção pessoal de toda uma juventude, como também fazer questão de evidenciar onde ela começa. Porque não é nas mentes dessas crianças, não sozinhas; são nos quartos silenciosos, nas timelines que não têm fim.





É a preparação de meninos e meninas para um mundo onde elas se veem cada vez mais expostas a estímulos violentos, nos quais essa ruptura acontece como uma continuação natural de um mundo que já parece adoecido. Como se aquelas crianças não estivessem conhecendo ou descobrindo a brutalidade, mas sim apenas reproduzindo a estética que aprenderam a admirar desde cedo. O filme vai mostrar como as armas estão ali antes do afeto. Como a performance supera até mesmo a identidade dos atiradores.
Nesse sentido, o verdadeiro terror desse segredo não está na figura de Emma, mas na possibilidade de ela realmente considerar ser um símbolo e um sintoma de uma sociedade incapaz de oferecer pertencimento sem que, para chegarmos nele, tenhamos que humilhar e violentar. A radicalização presente em cada memória deixa de parecer um desvio isolado de uma criança problemática e passa a ser vista como um produto cultural, quando a maior motivação parece ser a “estética libertadora” que uma criança isolada parece enxergar.
ATUAÇÕES
Se, por um lado, Emma é o trabalho lento e progressivo do tratamento de uma mente que ainda quer ser reconstruída, por outro lado Pattinson, como Charlie, é uma figura completamente quebrada e que, ao ser exposto ao que parecia tão distante da sua realidade, simplesmente tem seu espírito quebrado. Demonstrando isso nos momentos em que ele se assusta com Emma ou mesmo quando tem medo de que os rompantes violentos dela do dia a dia, possam ocasionar sua morte.
Ele é uma das sínteses que esse filme parece se propor a apresentar, na forma do “indivíduo distante” não só da realidade, como até mesmo dos seus sofrimentos.
RITMO
Considerado bom por muitos que já tiveram a oportunidade de assistir, por aqui honestamente admito que é bastante envolvente e consegue dosar de maneira correta a corrida para a chegada, transfigurada na posição do salão de casamentos no dia especial para o casal.
Mas, no mais, parece ser exatamente isso que eventualmente acaba rompendo com a possibilidade de que The Drama partisse para ser uma carta aberta de um problema que não só fere os Estados Unidos, como, a partir dessa mesma radicalização, parece também estar colocando nossas democracias em risco.
CONCLUSÃO
The Drama não só vale o seu ingresso, como também a sua atenção. É, de longe, um dos trabalhos recentes do Pattinson mais emocionantes, já que ele se entrega ao ponto da angústia e do desespero. Só uma pena que, para a história, tenhamos seguido um rumo que parece uma jogada no seguro e não necessariamente a lição que o filme tinha a oportunidade de entregar.
São excelentes atores e um casal que realmente funciona a partir da ótica do desconforto, tornando cada cena tão especial quanto poderia ser.
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“No gods or kings. Just ducks.”

