Review Quarteto Fantástico (2023) Vol. 2
Depois de um primeiro volume extremamente focado em mistério, separação familiar e pequenas histórias conceituais, Quarteto Fantástico (2023) Vol. 2 mostra Ryan North cada vez mais confortável à frente da revista. O que antes parecia apenas um grande quebra-cabeça envolvendo a ausência do Edifício Baxter e o afastamento da equipe, agora começa a ganhar um senso maior de continuidade, sem abandonar o espírito inventivo e quase experimental que vem definindo essa fase.
Mais do que simplesmente homenagear o passado da equipe, North entende algo essencial sobre o Quarteto Fantástico, a série sempre funcionou melhor quando mistura ciência absurda, humanidade e criatividade narrativa. E aqui isso aparece de maneira ainda mais evidente.
Ficha Técnica
Quarteto Fantástico (2023) Vol. 2 reúne as edições Fantastic Four (2022) 7-11, publicadas no Brasil pela Panini em formato com papel couchê, 136 páginas, capa cartão e lombada quadrada.
Mesmo sendo uma edição relativamente simples dentro da linha Marvel da editora, o acabamento chama bastante atenção pelo ótimo trabalho editorial. O verniz localizado na capa ajuda a valorizar muito a arte do encadernado, deixando a publicação visualmente elegante sem perder a simplicidade. É aquele tipo de edição que talvez não tenha luxo exagerado, mas transmite bastante cuidado gráfico nas mãos do leitor.
Nos roteiros, Ryan North continua expandindo sua visão extremamente criativa para a equipe, enquanto Iban Coello, Ivan Fiorelli e Leandro Fernandez dividem os desenhos mantendo uma identidade visual bastante consistente ao longo da leitura.
História / Premissa
Em sua já aclamada fase à frente do título do Quarteto, Ryan North abalou completamente a vida da primeira família da Marvel ao transportar o Edifício Baxter para a Zona Negativa junto dos filhos da equipe, fazendo o grupo desaparecer por um ano inteiro. Após todos os conflitos e consequências do primeiro volume, Reed, Sue, Ben e Johnny finalmente encontram um momento de respiro na casa da Tia Petúnia, embora, obviamente, isso ainda resulte em situações cientificamente absurdas e perigos cada vez mais imprevisíveis.
O mais interessante é como North transforma ideias extremamente clássicas do Quarteto Fantástico em algo moderno sem perder a essência original da equipe. A primeira história do encadernado, inclusive, celebra as setecentas edições do grupo e introduz finalmente um personagem muito importante para o núcleo do Quarteto que ainda não havia aparecido nessa fase.
Além disso, existe um carinho muito grande pela história da Marvel. Uma das edições revisita diretamente o espírito clássico de revistas como Tales to Astonish, trazendo referências claras a publicações dos anos 60 sem parecer apenas fanservice vazio. Ryan North constantemente olha para trás para entender o que fez o Quarteto Fantástico funcionar por décadas, mas utiliza isso para construir novas ideias, novos problemas científicos e novas formas de contar histórias.
E talvez esse seja justamente o maior mérito desse volume, a sensação constante de invenção. Cada edição parece funcionar em torno de um conceito diferente, mas tudo conversa organicamente dentro da proposta maior da revista. Aos poucos, essa fase vai se consolidando como uma das abordagens mais criativas e inteligentes do Quarteto Fantástico nos últimos anos.
Arte
Visualmente, o encadernado mantém a identidade estabelecida no primeiro volume, mas agora com uma sensação maior de variedade estética. Iban Coello, Ivan Fiorelli e Leandro Fernandez conseguem trabalhar estilos diferentes sem quebrar a consistência visual da revista.
Existe uma preocupação constante em fazer os conceitos científicos parecerem grandiosos, estranhos e até desconfortáveis em alguns momentos. A ficção científica aqui não serve apenas como pano de fundo para ação, mas como ferramenta narrativa. Portais, distorções temporais, criaturas impossíveis e cenários surreais são desenhados de forma bastante dinâmica, ajudando a reforçar o clima de descoberta constante que define o Quarteto Fantástico.









Ao mesmo tempo, a HQ nunca perde o lado humano. As expressões faciais e a interação entre os personagens carregam muito da personalidade da equipe, principalmente nos momentos mais íntimos envolvendo essa família. Existe um equilíbrio muito bom entre grandiosidade cósmica e pequenos momentos familiares.
Narrativa e Ritmo
Se o primeiro volume funcionava muito como uma apresentação de conceitos e mistérios, aqui Ryan North começa a demonstrar de maneira ainda mais clara o quão inteligente sua estrutura narrativa realmente é.
As histórias continuam relativamente episódicas, mas agora existe uma sensação muito maior de progressão contínua. Cada edição possui sua própria identidade, porém todas ajudam a fortalecer os laços da equipe, expandir o universo da revista e desenvolver os impactos do desaparecimento do Edifício Baxter.
O mais interessante talvez seja justamente a maneira como os problemas são resolvidos. North entende perfeitamente que o Quarteto Fantástico não funciona apenas como um grupo de heróis tradicionais, mas como cientistas, exploradores e pessoas extremamente inteligentes tentando compreender situações impossíveis. Muitas das resoluções surgem através de lógica, experimentação científica, interpretação de conceitos ou soluções criativas, e não apenas através de combate físico.
Isso faz com que a leitura seja constantemente envolvente. Existe quase um sentimento de “descoberta” em cada capítulo, como se o leitor estivesse tentando solucionar os problemas junto dos personagens.
A própria estrutura narrativa também merece destaque. Ryan North brinca bastante com passagem de tempo, construção de tensão e perspectiva dos personagens, criando histórias que muitas vezes parecem simples em um primeiro momento, mas revelam ideias extremamente engenhosas conforme avançam.
Mesmo quando a HQ desacelera para focar em diálogos ou relações familiares, a leitura nunca perde ritmo, justamente porque os personagens são muito carismáticos e bem escritos. Reed continua sendo o cientista obcecado pelo impossível, Ben permanece como o coração emocional da equipe e Johnny talvez esteja em uma de suas versões mais humanas e interessantes dos últimos anos.
Vale a pena?
Sim. Quarteto Fantástico (2023) Vol. 2 não apenas mantém a qualidade do primeiro encadernado, como também fortalece tudo aquilo que fez essa nova fase funcionar tão bem.
Ryan North demonstra um entendimento impressionante da essência do Quarteto Fantástico, equilibrando homenagem ao passado, ficção científica criativa, humor, drama familiar e experimentação narrativa sem deixar a revista inacessível para novos leitores.
Ao mesmo tempo em que celebra décadas de histórias da Marvel, a HQ nunca parece presa à nostalgia. Pelo contrário: essa talvez seja uma das fases mais inventivas da equipe em muito tempo justamente porque entende o passado sem depender exclusivamente dele.
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