“Um spin-off que troca a violência pelo peso emocional e acerta justamente por isso“
Review | Battle Royale: Angels’ Border
Tem obras que marcam pela grandiosidade, outras pela violência. Angels’ Border segue outro caminho: ele marca pelas pessoas.
Publicado originalmente em 2011 na revista Young Champion e compilado em volume único em 2012, o mangá divide sua arte entre Mioko Ohnishi e Youhei Oguma, cada um responsável por um dos capítulos dessa história paralela.
Dentro de um universo tão associado ao caos quanto Battle Royale, o spin-off surpreende justamente por desacelerar. Em vez de focar no jogo ou na violência, ele olha para algo mais simples e muito mais doloroso, as relações humanas.
A história revisita o incidente do farol sob outra perspectiva. O interesse não está na explosão final, mas no que vem antes dela. Existe uma sensação constante de inevitabilidade, como se o destino já estivesse traçado… e ainda assim você continua lendo.
E isso só funciona por um motivo: os personagens.








A narrativa se divide em duas partes, acompanhando Haruka e Chisato. São histórias diferentes, mas que se complementam e ampliam o peso daquele momento.
No caso da Haruka, tudo é mais contido. Dentro do farol, as garotas tentam manter uma rotina quase normal, dividem comida, conversam, fingem que ainda existe algum controle. É nesse ambiente que os sentimentos dela por Yukie começam a aparecer, sempre de forma sutil.
Há uma cena em que o grupo conversa tentando manter a calma, e Haruka apenas observa Yukie em silêncio. Não chama atenção à primeira vista, mas o cuidado no olhar entrega tudo. Dá pra sentir que tem algo ali… só que nunca encontra espaço para sair e nesse momento mangá acerta em cheio.
Em outro momento, quando a tensão cresce e o medo começa a circular entre elas, surge a chance de ela se abrir. A cena constrói isso no silêncio, na hesitação, no último instante, ela recua. A conversa segue. E aquilo fica preso.
Isso torna a personagem muito real. Haruka não deixa de sentir, ela sente demais. Só não consegue transformar isso em palavras.
Quando o clima no farol desanda de vez e a paranoia toma conta, esse silêncio pesa. Pesa bastante. Porque não é só sobre o que está acontecendo ali, mas sobre tudo o que ela nunca conseguiu dizer.
Já a história da Chisato segue outro caminho, mas não é menos dolorosa. Sua relação com Shinji Mimura é construída através de flashbacks, que dão outra camada à narrativa.
Em uma dessas cenas, os dois conversam escondidos, longe dos outros. É um momento simples, quase tranquilo mas carregado de tensão. Existe cuidado nas palavras, um receio constante de serem vistos. Não é um romance livre. É algo que precisa existir nas sombras.
Em outro flashback, isso fica ainda mais claro. O ambiente não permite esse tipo de proximidade, o que transforma o sentimento em algo quase proibido. Mesmo assim, existe troca, carinho e sinceridade sendo justamente isso que torna o presente tão pesado.
Quando a história volta para o jogo, essas memórias ganham outro peso. O contraste entre o que foi vivido e o que está acontecendo agora é forte. Não é só sobre sobreviver, é sobre perder algo que era real.
Diferente da Haruka, que nunca conseguiu se expressar, Chisato vive o oposto. Ela teve algo concreto, mas foi interrompido e isso dói de um jeito diferente sendo mais direto e mais inevitável.
Essa dualidade sustenta o mangá. De um lado, sentimentos que nunca saíram. Do outro, sentimentos que foram interrompidos aonde no fim, ambos caminham para o mesmo destino.
Comparado ao Battle Royale, Angels’ Border se destaca por ter tempo para desenvolver essas nuances. Aqui, o impacto não vem só do que acontece, mas do que é construído antes.
A arte acompanha bem essa proposta. Mesmo com dois artistas, o mangá mantém consistência emocional, principalmente nas expressões e nos momentos mais silenciosos. Não busca grandiosidade, busca proximidade e isso funciona.
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Olá! Me chamo Jun e sou apaixonado por J-RPGs, animes, jogos de luta e títulos orientais em geral desde criança, sempre buscando histórias marcantes e combates intensos.

