Como você começou nesse hobby? Se lembra qual foi o seu primeiro videogame? Consegue, de cabeça, me falar as configurações do seu primeiro computador? Ou quem sabe ainda tem memórias ou até fotos da casa, do quarto, do ambiente em que você se reunia com a família para aproveitar o que hoje ainda é uma paixão?

Se eu te pedisse, conseguiria me descrever o cheiro do café que alguém na casa fazia enquanto você contava os minutos, tão mais longos do que os de quando nos tornamos adultos, para receber quem sabe aquela amizade ou parente que ia poder jogar contigo?
Essas e tantas outras memórias que nos conectam e fazem parte da nossa história, para muito mais do que apenas aqueles objetos, é com toda certeza o que ReStory: Chill Electronics Repairs tentou me contar.
Desenvolvido pela Mandragora e distribuído pela tinyBuild, ReStory é a grande aposta para agosto e um jogo que foi muito aguardado desde o seu anúncio. Sua construção e desenvolvimento têm nitidamente um carinho que transborda para fora das linhas de código, os quais me geraram momentos de surpresa e satisfação pelas progressivas conquistas, as quais compartilho agora com vocês.
Ressuscitando memórias.
Assumindo no lugar do antigo dono um pequeno e movimentado ponto bem no coração dessa cidade, você agora vai estar a cargo de, basicamente, “ressuscitar” as memórias perdidas e presas nestes objetos que te são confiados. Sejam eles videogames, celulares, rádios, videogames de mão, chaleiras e até pequenos computadores. Das mais diferentes formas, eles vão precisar da sua ajuda para voltarem a funcionar.

Esses clientes vão ser acessados tanto e majoritariamente online, com seus pedidos mandados para um e-mail bastante amador que você tem, quanto também e aqui é no que se refere à história principal do jogo, através de visitas e encontros recorrentes com os personagens principais deste universo. Eles muitas vezes vão ser aqueles que vão acabar te levando a desbloquear novas mecânicas e ferramentas para que você amplie o leque de aparelhos com os quais pode trabalhar.
São personagens de idas e vindas rápidas, então fica difícil se conectar com eles, mas vamos deixar dessa forma porque quero um tópico só para esse aspecto.
Em resumo, a gameplay é isso: você recebe um pedido com especificações do que deve ser feito, em alguns casos tem que comprar peças e, eventualmente, assim que
terminar tudo, despacha ele para ser pego pessoalmente por um personagem da campanha ou encaminhado pelo nosso principal amigo, um entregador que vai e vem com as nossas encomendas e pedidos.
O ambiente de quem se move tão pouco.
É uma realidade que já era perceptível no trailer. O foco de ReStory está no ato da restauração e, por conta disso, você realmente não precisa ir para lugar nenhum.
Vai poder se mover para a direita, para a esquerda e, com alguns inconvenientes da câmera parecer ter uma sensibilidade muito alta em certos momentos, vai ser tranquilo de trabalhar. Essa pouca mobilidade te dá mais ainda a sensação de algo particular, íntimo, um trabalho realmente de coração, visto que é tudo o que você tem. A felicidade e o esforço no pouco, sabe? O que talvez até seja uma experiência particular minha, mas me deixa de alguma forma feliz à medida que a história vai caminhando e aquele seu pequeno estabelecimento, esmagado pelo centro de uma cidade bastante desenvolvida, se vê ganhando cada vez mais visibilidade. É aquele frio na barriga acompanhado de um sorriso sem graça.
O espaço que você tem na mesa, inclusive, pode ser expandido comprando futuramente prateleiras e outros acessórios para a parede, os quais te abrem um leque maior sobre o que pode vir a comprar, inclusive até produtos quebrados no mercado de usados, para que restaure e revenda por um valor com uma margem de lucro às vezes bastante alta. Será a sua organização nessa mesa dividida em três partes e que precisa comportar tanto suas peças que rodam e consertam tudo, quanto os produtos que você vai empilhando, que determinam o quão eficiente você vai ser naquele dia.
E acredite, às vezes as 12 horas de serviço, que é basicamente a sua rotina de funcionamento usual, podem parecer pouco tempo e muito corridas para conseguir lidar com tudo. Não demorou para que eu tivesse pedidos e mais pedidos empilhados, enquanto eu corria pra consertar o que era visivelmente um PSP.
Ferramentas, licenças e finalmente adesivos.
Espere encontrar uma chave de fendas, um pincel para limpar a poeira, uma máquina de solda, um spray para conseguir pintar carcaças, um software para reprogramar alguns aparelhos, trituradores para lidar da melhor maneira possível com objetos quebrados, sprays para te ajudarem a limpar melhor os cantos mais difíceis e assim por diante; essas ferramentas todas, terão como foco a restauração dos pedidos que você for recebendo.

Esses pedidos, inclusive, estão separados e protegidos por trás de “licenças”, uma mecânica que te permite pagar um determinado valor (que a medida que progride, se torna cada vez mais exorbitante) para liberar novos aparelhos para serem recebidos e renovados. É basicamente uma lógica de pague e ganhe.
O mesmo vale para os adesivos, mas que aqui, junto com a área de pintura de carcaças, têm como única função a estética dos aparelhos que você está revendendo. Vão ter clientes que querem cores e paletas específicas, mas no geral, e principalmente se tratando dos produtos quebrados que você compra de terceiros para revender, esses estão ali dispostos para a sua mais pura criatividade.
Desde que consiga consertar e dar um rosto completamente novo, a imaginação é o limite e, acredite quando eu digo, ReStory valoriza e muito a sua autenticidade.
Preciso fazer algo além de consertar?
Deveria, mas não sinto que o jogo entregue o suficiente, pelo menos não foi para que me prendesse na história que ele quer contar.
Se por um lado ReStory parece tão competente em criar um ambiente confortável e um fluxo de gameplay que, por mais que se torne extremamente repetitivo com pouco tempo, ainda assim siga tão bem que você não se importa de estar repetindo o mesmo pedido duas, três, quatro vezes, desmontando o mesmo objeto. Por outro lado, ele não conseguiu me fisgar na história que quer contar, o que por várias vezes, me fez acompanhar o que estava acontecendo, mas contando também os minutos para quando o jogo me liberasse para voltar a desmontar o que eu estava fazendo e parei, ou conseguir pegar mais um pedido para ocupar o meu tempo.
Se há algum mérito na construção desses diversos personagens que entram e saem da sua loja, eu diria que é o espaçamento com que eles aparecem. Achei positivo que não estão ali o tempo todo, muito menos fazendo algo como “marcar presença”, seja por mensagens ou outros meios.
Eles vêm de tempos em tempos, no momento certo, falam o que tem de ser falado, desenvolvem um pouco mais do rumo que o roteiro segue individualmente para cada um deles e depois somem por dois, três dias, quem sabe, no melhor dos casos, uma semana inteira.
E não digo isso, muito menos nesse tom, como uma forma de falar que é necessariamente e totalmente ruim, mas só que me pareceu que o ritmo de gameplay não combinou com a tentativa de tentar ir fundo em um jogo que pertence a um gênero corriqueiramente elogiado e também criticado pela ausência de algum “sentido geral”.

A história serve muito mais para aprender novas mecânicas e juntar o dinheiro suficiente que vai te obrigar a comprar novos aparelhos; do que necessariamente atuar como uma espécie de “liga” para conectar todos os eventos.
Aqui, neste estilo de jogo, eu sinto que ela é completamente desnecessária e também parece ter sido uma tentativa dos desenvolvedores da Mandragora em criarem algo diferente e pouco usual para o gênero de Cozy Games, oque talvez tenha jogado de alguma forma contra o ritmo do jogador.
Fica sendo um aspecto particularmente retido no gosto pessoal, mas que, para ser honesto com tudo, eu precisava estar compartilhando com vocês oque pensei. É de longe a história, o ponto mais fraco do jogo pra mim.
Depois de quase 20 horas, eu sigo pensando em parafusos e cabos, mas não nos personagens que me foram apresentados.
Desafios, conquistas e um ano inteiro pela frente.
Com atualmente no seu lançamento cerca de 50 conquistas alcançáveis, sendo duas delas secretas e que dependem das suas escolhas de campanha; ReStory felizmente parece ter uma equipe competente e muito consciente do que querem construir e a que locais querem pertencer. De forma que, sem DLCs anunciadas ou, a princípio, pensadas, todas as conquistas podem ser feitas durante a sua estadia na campanha, sem a dependência de mecânicas externas do jogo, muito menos de conexão com terceiros.
Dentre essas conquistas, inclusive, uma que me motiva e muito a continuar jogando mesmo após essa review é a chamada “Akiba Feels Like Home“, que desafia os jogadores a trabalharem/jogarem por cerca de 365 dias dentro do jogo. O que não só constitui uma longa jornada, como também me parece ser a melhor forma de conquistar outras conquistas paralelas e tão difíceis quanto, envolvendo desafios de tempo, compra de títulos de licença extremamente caros ou mesmo aquelas que eventualmente vão incluir a sua melhoria constante de equipamentos, buscando com essa, a melhoria total de tudo o que tem na sua loja.
ReStory é o tipo de jogo para aqueles que gostam de conquistas e que correm atrás da popularmente chamada “platina” (e aqui independe de plataformas), oque posso te garantir e prometer que não só vai ser algo que você vai alcançar com certa facilidade, como também vai se apaixonar pelo que está fazendo até lá. A repetição, sim, é um fator da gameplay e presente até demais, com por vezes, pedidos de um mesmo tipo de aparelho em dois, três, quatro, cinco e-mails de clientes diferentes. Mas o que salva (e que definitivamente não é a história), como eu já esclareci na minha opinião, é o ritmo que você pega à medida que joga e o quão confortável ele se torna.
Porque apesar de um ou dois tipos de pedidos serem chatos, você ainda assim se sente satisfeito quando consegue terminar e é imediatamente recompensado quando a encomenda sai do seu balcão.
Por favor, seja lá que tipo de gameplay você goste, dê uma chance para esse jogo.
Agradecimentos.
Não há satisfação maior para mim, integrando a equipe da Patobah e tendo a possibilidade de trabalhar com essa equipe fenomenal de criadores de conteúdo diversos; do que poder jogar jogos como esse. ReStory me conquistou desde os seus primeiros anúncios e comentários nas redes, o que me permitiu estar atrás da sua cobertura e agora, inclusive, me tornar mais grato ainda por estar trazendo pra vocês essa review.
Muito grato sou por poder prestigiar o trabalho dos desenvolvedores da Mandragora e também poder agradecer a distribuição da tinyBuild na plataforma Steam.
Não tive problemas em praticamente nenhum momento e apenas satisfação por, explicitamente ou intimamente, sentir que eu estava renovando os sonhos e memórias daqueles personagens e anônimos da internet, ao conseguir restaurar suas máquinas e consoles da infância. Muito obrigado pela oportunidade de sentir vida de volta na indústria.
Eu faço esse trabalho por experiências como essa.

“No gods or kings. Just ducks.”

