Depois de muito tempo em early access, Realm of Ink foi finalmente lançado, permitindo que finalmente pudéssemos jogar sua versão completa.

Realm of Ink é um roguelite bem parecido com Hades com uma direção de arte muito bem feita, boss fights interessantes, gameplay divertida e muito mais.
História
A história de Realm of Ink mistura fantasia chinesa, existencialismo e metalinguagem. Como quero evitar spoilers, vou comentar apenas por cima a premissa do jogo.
Você começa controlando Red, uma espadachim extremamente habilidosa que, durante sua jornada, descobre algo perturbador. O fato de o jogo ser um roguelite foi uma escolha muito inteligente dos desenvolvedores, já que essa estrutura está diretamente ligada à narrativa.
Durante a aventura, Red recebe ajuda de uma entidade ancestral ligada a uma raposa chamada Scriptbound Fox. É ela quem contextualiza a mecânica de roguelite dentro da história: morrer, renascer, tentar novamente e aprender mais sobre o mundo a cada novo ciclo.
O existencialismo e a metalinguagem apresentados pelo jogo me deixaram extremamente curioso para descobrir mais sobre a narrativa e, particularmente, gostei bastante do rumo que a história tomou e do seu desfecho que, inclusive, há vários finais.
Gameplay
A gameplay de Realm of Ink é um dos pontos fortes do jogo, juntamente com sua história. Se você já jogou Hades, vai se sentir praticamente em casa, já que Realm of Ink possui mecânicas bastante semelhantes às do jogo da Supergiant Games.

Sempre que morrer, você será levado para a Estalagem da Raposa Espiritual. Nesse local, é possível aprimorar Red por meio da Estela Sagrada da Raposa Espiritual.

Na Estela Sagrada há três categorias principais de melhorias, representadas pelas árvores vermelha, verde e dourada. Cada uma delas possui diferentes ramificações de habilidades passivas e atributos que podem ser desbloqueados gradualmente. Ao liberar todas as habilidades de uma mesma ramificação, você desbloqueia um atributo maior.
Por exemplo: para aumentar em 20% o dano total, é necessário desbloquear Fúria de Lâminas, Ruptura Devastadora e Rebelde por Natureza. Assim que esses três atributos forem liberados, você recebe automaticamente o bônus adicional de dano.
Os últimos níveis são os mais caros, pois desbloqueiam habilidades passivas extremamente fortes que ajudam bastante durante a jogatina. Um exemplo é Golpe Decisivo, habilidade que aumenta seu dano em 20% e reduz em 10% o dano recebido ao entrar na Forja Hostil e no Vale do Desafio.
Para desbloquear essas melhorias, você precisará de moedas específicas da Estela Sagrada, obtidas ao derrotar inimigos.

Na Estala também existe o Parque de Mascotinta, onde você pode alimentar seu Mascotinta para melhorar os atributos dele. Recomendo bastante investir nisso, pois ele ajuda muito durante as batalhas. Além de atacar automaticamente os inimigos, o Mascotinta também pode atrair a atenção deles, o que acaba poupando um pouco do seu esforço durante os combates.

Ao falar com Violetta, você pode mudar a forma de Red, o que também altera completamente o estilo de gameplay da personagem. Ao todo, Red possui 9 formas diferentes, cada uma oferecendo uma maneira única de jogar.
Uma das formas que mais gostei de usar foi a Senhorita Lee, que transforma o combate em algo mais focado na distância, em vez de priorizar o corpo a corpo. O benefício exclusivo dessa forma é um aumento de 25% no bônus de dano global. Cada forma possui mecânicas e estilos próprios, o que faz com que o jogo consiga agradar diferentes tipos de jogadores.
No entanto, como nem tudo é de graça, desbloquear novas formas exige uma certa quantidade de Tintas de Jade, itens que podem ser obtidos — ou não — ao derrotar chefes.
Outra coisa muito legal é que você não precisa trocar de forma apenas para mudar o visual da Red. As Tintas de Jade também podem ser usadas para comprar skins, permitindo personalizar a personagem sem alterar seu estilo de gameplay. E, sinceramente, você provavelmente vai querer fazer isso, porque as skins são realmente muito bonitas.

Sempre que você sair de uma área, o jogo oferecerá duas opções de caminhos para seguir. Algumas áreas garantem mais relíquias, mas menos moedas de prata; outras oferecem mais elixires e uma quantidade maior de moedas. Também existem áreas mais difíceis, como a Forja Hostil e o Vale dos Desafios, que compensam o desafio com recompensas melhores.
Em alguns momentos, você também encontrará personagens que podem oferecer benefícios em troca de moedas ou até mesmo da sua própria vida. E, como todo bom roguelite, essas escolhas podem acabar sendo tanto um bônus quanto um ônus.

Depois de passar por algumas áreas, você chegará a uma área segura, onde poderá recuperar sua vida consumindo refeições que aumentam temporariamente alguns atributos. Além disso, também é possível comprar outras vantagens em troca de moedas de prata, garantindo bônus permanentes que durarão até sua próxima morte.
Caso você não tenha gostado de alguma habilidade adquirida, também é possível substituí-la. Além disso, conversando com Grace, você pode aprimorar ainda mais suas habilidades.
E, se você gosta de Shiba Inu, o jogo também tem um. Velho Seis é um cachorro que, ao receber algumas moedas de prata, lança um dado que pode render itens extremamente bons — ou resultados muito ruins.
Em alguns momentos também pode aparecer a Chefe Jade, oferecendo desconto em um de seus pratos.
Já Ruyi permite escolher entre três vantagens diferentes, embora todas venham acompanhadas de algum debuff para equilibrar a escolha. Vale lembrar que esses eventos acontecem de forma totalmente aleatória, então é sempre bom aproveitá-los quando aparecerem.
Na Estalagem da Raposa, você também pode selecionar diferentes níveis de dificuldade para tornar o jogo mais desafiador. Em compensação, as recompensas e os drops recebidos acabam sendo melhores.
No geral, a gameplay de Realm of Ink é muito boa e bastante diversificada. As mecânicas são fáceis de aprender, embora você ainda dependa um pouco da sorte em alguns momentos — afinal, continua sendo um roguelite.
Direção de arte e design de personagens
Outro ponto positivo de Realm of Ink é sua direçao de arte e design de personagens.

A direção de arte de Realm of Ink é facilmente o aspecto mais forte do jogo. Mesmo entre roguelites visualmente estilosos — um gênero já cheio de jogos com identidade marcante —, ele consegue parecer imediatamente reconhecível.
Toda a arte parece construída a partir da lógica da tinta e do pincel. Isso fica evidente nas partículas que lembram manchas de sumi-ê, nos cenários que parecem pinturas tradicionais se dissolvendo, nas transições que dão a sensação de páginas sendo reescritas e nos golpes que parecem pura caligrafia violenta.
O jogo tenta constantemente parecer uma pintura viva e instável, e isso muda bastante a sensação visual da experiência.

Os chefes têm uma qualidade ópera sobrenatural, normalmente misturam teatro tradicional, horror espiritual, aristocracia decadente, e formas animalescas. Realm of Ink é menos punk e agressivo e mais fantasia trágica ilustrada. Isso tudo destaca muito o jogo dentre tantos outros roguelites.
Trilha sonora
A trilha sonora de Realm of Ink segue exatamente a mesma filosofia da direção de arte: ela não tenta ser épica o tempo todo. Na maior parte do tempo, transmite uma sensação contemplativa, espiritual e levemente distante.
Ela passa a impressão de que você está vagando dentro de uma pintura antiga que está desaparecendo, algo que combina perfeitamente com a história e o visual do jogo. Uma coisa que gostei bastante é que a trilha sonora sabe recuar. Há vários momentos em que você ouve apenas vento, água, sinos, instrumentos isolados e sons ambientes naturais. Não são necessariamente músicas, mas essas ambientações sonoras combinam perfeitamente com a estética de tinta e vazio do jogo.
Otimização e tradução
Infelizmente, nem tudo são flores, pois duas coisas me incomodaram no jogo: a otimização e a tradução para o português brasileiro. Joguei no PS5 e, embora um patch tenha sido lançado no lançamento, ainda enfrentei problemas de desempenho em momentos mais exigentes, com muitos efeitos na tela. Esses efeitos faziam o jogo travar e acabavam comprometendo um pouco a gameplay.
A tradução para o português poderia passar por uma revisão mais cuidadosa, pois há problemas em que, quando um personagem se refere a outro, em vez de aparecer o nome do personagem, surge apenas “[It]”. Além disso, existem termos diferentes para se referir à mesma coisa. A transição entre capítulos, por exemplo, às vezes apresenta os números em algarismos romanos e, em outras, em números indo-arábicos. A fonte utilizada na tradução também é diferente da versão em inglês, que possui mais charme e combina melhor com a estética do jogo.
Apesar disso, a tradução ajudou a compreender a história e os itens, mas essas pequenas inconsistências podem acabar sendo um pouco incômodas.
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