Desafiando gigantes do mercado e entrando com tudo dentro do nicho de jogos históricos e com modos de multijogadores massivos, Over the Top WWI foi não só uma experiência extraordinária para mim, como também uma traumatizante e violenta jogatina pelas horas que se seguiram, tendo sido elas fugindo de blindados, me escondendo da artilharia aérea e torcendo para que o homem ao meu lado na trincheira soubesse como conter os sangramentos de bala quando eu fosse atingido.

Agradeço imensamente pela confiança dos amigos da Patobah e também aos desenvolvedores da Flying Squirrel Entertainment, assim como à distribuidora do jogo, GG Publishing.
“A morte não é uma aventura para aqueles que estão face a face com ela.”
Eu não sei em que momento exato foi que eu me deparei com essa constatação e me vi aterrorizado com a construção de ambiente na minha frente, mas eu te garanto que não demorou muito e provavelmente foi logo nas primeiras horas.
Over the Top WWI conseguiu não só me conquistar, como também me tornar consciente do brutal ambiente no qual eu estava. Uma reprodução que tenta ser fiel dentro dos seus próprios limites interativos, claro, mas que ainda assim entrega trechos do que foi um dos maiores conflitos a céu aberto que o mundo já tinha vivido até então.
Os desenvolvedores conseguiram botar na equação geral desse jogo um fator que depende quase que inteiramente da percepção individual de cada jogador: o medo. O medo de se expor para fora da segurança de trincheiras construídas por nós mesmos, o medo de acompanhar o avanço de um blindado em campo aberto, sabendo que o inimigo possui aviões ainda intactos nos céus, ou mesmo o de estar na defesa, que convencionalmente seria o lado mais fácil, só que aqui você se sente vulnerável enquanto tem de segurar um avanço de dez, quinze, vinte homens ao mesmo tempo correndo na sua direção.
Isso sem contar com o arame farpado, inimigo maior de boa parte das minhas partidas, nas quais eu tentava me esgueirar por trás dos meus inimigos, covardemente fugindo da linha de frente, e era impedido por metros e mais metros de cercas jogadas ao chão, cessando previamente e prematuramente o meu avanço.

Esse misto de euforia, inclusive, é algo que organicamente a interação com outros jogadores vai te gerar, quando, por exemplo, algum dos seus puxa um ritmo acelerado
de cantoria, começa a gritar com os outros jogadores tentando tirá-los das trincheiras ou mesmo se joga de peito aberto contra os nossos inimigos, tornando-se uma espécie de “mártir” que nos motive a avançar.
Cave. Cave. Cave sem parar.
Não só a principal mecânica que chama atenção para o jogo, mas também, por incrível que pareça, uma real e efetiva forma de se sobreviver.
Em Over the Top WWI, para os que estão chegando de paraquedas nessa review, é possível não só equipar como verdadeiramente cavar pelo campo de batalha, ao mesmo tempo que também, com determinada e específica classe, se torna possível construir fortificações, sacos de areia ou pontos de esconderijo, onde dali pra frente, você depende inteiramente da sua habilidade com armas. Mas nada disso nasce sem que um punhado de jogadores se unam para cavar trincheiras, sempre tentando pensar na melhor forma delas impedirem o acesso inimigo ou mesmo permitirem que cheguemos à base inimiga, visando conquistá-la, mas fugindo do massivo avanço de blindados ou aviões.

É impressionante ver como, sem nenhum tipo de tutorial avançado, apenas sendo uma mecânica lançada na mão dos jogadores e deixada para sua própria criatividade, fosse capaz de fazer com que você experimentasse partidas incríveis com as mais diferentes tipos e linhas de estratégias, até em mapas repetidos.
Eu consegui encontrar linhas quilométricas de soldados parados, impedindo o avanço contra um ponto específico do mapa, como também estive colaborando com a criação de uma ligação entre dois objetivos, cuja finalidade era nos aproximar o mais rápido possível do nosso inimigo, fugindo de metralhadoras instaladas por eles.

Tanto no ataque quanto na defesa, cada partida de Over the Top se torna única, pois, mecanicamente, depende inteiramente da criatividade dos jogadores envolvidos. Do homem que passará a partida inteira cavando até aquele que percorrerá todo esse espaço fortificando esses trajetos, ainda assim todos eles têm seu valor rumo à vitória.
Coragem e Carisma no campo de batalha.
Uma extensão do que eu já tinha comentado mais abertamente no primeiro tópico, esse é dedicado a todos os jogadores com quem eu esbarrei ao longo dessas quase dez horas de gameplay e que, em muito, se decorreram pelas longas campanhas que tive de começar, parar e depois recomeçar em outros servidores.
Agradeço também ao amigo da Patobah, Ramos, por ter me acompanhado em alguns desses momentos, tornando-os tão divertidos quanto era possível enquanto fugíamos de tiros de artilharia e nos escondíamos dos melhores atiradores que só o outro time tinha de ter.

Over the Top WWI refez estruturalmente todo o pensamento que eu tinha sobre jogos massivos para multijogadores, assim como também a minha opinião acerca das comunidades que abrangem esses gêneros. Onde, depois de ter uma péssima experiência em um concorrente do gênero, me vi frustrado pela tão famosa “barreira de entrada”, naquela época representada majoritariamente por uma comunidade nada receptiva, o que felizmente no caso desse título, foi o extremo oposto.
Quero deixar também marcado aqui o meu elogio não só à comunidade, como a todos os moderadores de conteúdo que seguem arduamente lidando com o racismo dentro dos jogos, misoginia e todo tipo de preconceito. E que lutemos para que isso seja arrancado para fora dos nossos títulos favoritos, e para que, proporcionalmente, tenhamos salas preenchidas quase que completamente por pessoas tão carismáticas quanto as que eu encontrei.
Seus nicks definitivamente se perdem depois de tantas horas e nomes na mente, mas as memórias que tive, essas sim são eternas.
O que exatamente é um tanque?
E claro, eu não poderia deixar de fechar a minha análise sem ofender o meu principal inimigo de todas, repito, TODAS as partidas: os blindados.
Vou ser sincero com vocês que, muito em partes por responsabilidade completamente pessoal e talvez em outras partes por um desinteresse por um período que infelizmente é sufocado pela sua infeliz sequência, que foi a Segunda Guerra Mundial, a Primeira Guerra Mundial em Over the Top WWI é massivamente marcada por uma das suas características mais peculiares e talvez deixadas de lado pela maioria dos conhecedores: o quanto ela foi um gigantesco laboratório de invenções.

Das armas até seus próprios veículos, muitos dos conceitos que nós temos hoje só chegaram nesse ponto de aperfeiçoamento porque, no início de tudo, muita coisa teve de ser testada e boa parte dessas invenções eventualmente foi frustrada por um desempenho logístico. O que felizmente, nesse artificial mundo em que a guerra é eterna, nós não temos de nos preocupar com logística.
Nesse jogo, inclusive, a falta de uma definição específica para o que é um “tanque” traz carisma e perigo para o que nós vamos encontrar espalhados pelo mapa.
Afinal, o que seria esse novo veículo armado? Um trator blindado? Uma arma de apoio para a infantaria? Um substituto mais bruto para a cavalaria? Uma fortaleza móvel? Ou uma máquina capaz de atravessar esses quilômetros de trincheira?
A resposta é um gigantesco: não sei.
E, com ele, o nascimento de uma “árvore evolutiva” que ainda não tinha se decidido de qual espécie queria ser a reprodutora.
E essa não é apenas uma impressão estética, pois, no jogo, cada um desses “testes” no formato de blindados, transmite sensações e são operados de maneiras completamente distintas, sendo a imprevisibilidade o seu maior trunfo.
Não há como prever regras ou parâmetros em um tempo em que elas sequer tinham sido escritas.

“No gods or kings. Just ducks.”