Otherside Tapes: Favela sem sombra de dúvidas é uma experiência de terror psicológico que aposta em algo particularmente difícil de reproduzir, transformar um ambiente familiar em uma verdadeira fonte de desconforto.
Desenvolvido pela Pulsatrix Studios, o jogo apresenta uma escala menor que outros jogos do estúdio, porém ainda mantém a essência do mesmo, com bastante exploração, puzzles e horror em primeira pessoa.

Creio que justamente pela redução do escopo, permita o jogo concentrar seus esforços naquilo que creio ser o seu maior acerto, a ambientação, percorrer os becos, casa, vielas e os espaços dessa comunidade, enquanto há o desconforto sendo muito bem estabelecido, estabelece uma sensação diferente daquela que podemos encontrar em outros jogos de terror.
Chega a ser até uma forma desconfortável de familiaridade, especialmente para quem cresceu em bairros mais pobres ou teve contato próximo com as comunidades brasileiras.
Resultando em um jogo que nem sempre acerta no ritmo ou na narrativa, porém acha o seu caminho ao transformar elementos do cotidiano brasileiro em um forte combustível para o horror.
Premissa e História
Em Otherside Tapes: Favela, nós acompanhamos Cláudio da Silva, um criador de conteúdo que decide investigar a Favela das Almas, local que houve um grande incêndio anos atrás e que atualmente se relaciona com alguns desaparecimentos e acontecimentos sobrenaturais, o que leva o protagonista a ir gravar sua exploração urbana.
A premissa de fato funciona muito bem como ponto de partida para essa experiência, porém é perceptível que faltou um pouco mais de presença da história durante boa parte da campanha.
O jogo apresenta conceitos interessantes e até mesmo questões que podem despertar a curiosidade do jogador, porém esses tropos nem sempre conseguem ser desenvolvidos com a mesma força que demonstra na ambientação. Grande parte que passei jogando, tinha a leve sensação que o cenário conta uma história muito mais interessante do que o próprio roteiro.
Porém isso não significa que a narrativa seja ruim, pelo contrário, de fato existem boas ideias, apenas faltou aprofundamento, principalmente para criar uma conexão maior entre o jogador e Cláudio, além do que estaria acontecendo naquele lugar.
Ainda assim, creio que a grande sacada está em como o próprio ambiente funciona como um elemento narrativo, quanto a ideia do roteiro, creio que tentaram dar um ar de mistério sem ter muita informação, o que teve o efeito inverso e pode parecer até “vazio” para algumas pessoas.
Gameplay e Jogabilidade
Não joguei os outros jogos do estúdio como Fobia ou A.I.L.A. porém do que consegui ver, é a familiaridade da estrutura entre os jogos. Otherside Tapes: Favela aposta em exploração, investigação, puzzles, gerenciamento da movimentação pelo cenário e momentos de fuga.
Creio que o início pode parecer muito monótono, uma vez que mesmo a exploração sendo muito boa (grande parte devido a ambientação), principalmente durante a primeira metade do jogo, senti que pesaram demais a mão no backtracking, fazendo com que tivesse que passar bastante tempo andando, tendo que voltar constantemente por áreas já visitadas, podendo quebrar o ritmo da experiência, principalmente quando o jogador precisa atravessar os mesmos trechos novamente sem nenhuma novidade a ser apresentada e o acréscimo da lentidão do personagem mesmo ao correr, creio que isso tenha sido implementado tanto por ele estar gravando, mas também pra evitar emboscadas das criaturas de maneira fácil ao jogador, visto que estando de costas você vira um alvo fácil e ativa a perseguição.

Os puzzles também podem ser um obstáculo para o fluxo da aventura, alguns de fato são verdadeiramente interessantes e ajudam a criar a sensação de descobrimento e investigação, outros apenas acabam sendo sem sentido, mesmo com uma resolução fácil. Creio fielmente que o verdadeiro trunfo aqui seja o suspense e o terror, o que se pode dizer que talvez faça com que não tenha um ritmo constante desses elementos.
Por outro lado, existe uma qualidade muito interessante na maneira como é trabalhado o medo e os sustos aqui, nem tudo depende de um evento que precisa ser roteirizado de forma muito concreta, às vezes acontece de uma forma tão natural que se torna perfeita, derivando da exploração e trazendo o horror de maneira emergente, seja um gemido, um ruído, uma figura que aparece e some rapidamente, ou até mesmo alguma criatura paralisada te observando, o que faz com que você comece a desconfiar de que não está sozinho.

E essa abordagem funciona perfeitamente, devido a participação do jogador na construção o medo, uma vez que você precisa se manter olhando para as criaturas e não ser perseguido, mas talvez ao sair do raio de perseguição de uma, apenas ao virar a câmera você se depare com um susto ou até mesmo um frio na espinha que você não estava esperando.
Direção de Arte/Técnica
Aqui, com certeza é onde Otherside Tapes: Favela tem seu principal destaque, na ambientação. A Favela das Almas, não é apenas um cenário genérico criado para um jogo de terror. Houve uma boa atenção aos detalhes que ajudam a construir um espaço que é brasileiro sem nenhuma sombra de dúvidas.
Para mim, esse aspecto é o que mais tem impacto nesse jogo, visto qeu vários elementos remetem diretamente a coisas que fazem ou fizeram parte do imaginário e do cotidiano de comunidades brasileiras. O jogo consegue transformar, todos os becos estreitos, casas simples, estruturas improvisadas e iluminação precária e a própria sensação de estar cercado por essas construções em elementos que corroboram com a tensão.

E existe uma camada ainda mais interessante nisso tudo, o terror em Otherside Tapes: Favela não está apenas nas criaturas ou no sobrenatural, ele também está fortemente embasado na paranoia, o tempo todo você consegue sentir a sensação de ser observado, de ouvir alguma coisa sem conseguir saber de onde veio, além de estar em um lugar onde você não tem controle sobre o que pode acontecer, dialoga com experiências muito mais reais para quem vive ou cresceu próximo de comunidades brasileiras.
Mesmo sem viver em uma favela, cresci em um bairro pobre e reconheci diversos elementos presentes no jogo, pequenos detalhes que poderiam passar despercebidos por alguns jogadores acabaram me colocando dentro daquele espaço de uma maneira muito mais forte.

Há referências a acontecimentos conhecidos pelos brasileiros e elementos associados à violência e dificuldades que as pessoas que residem nessas áreas enfrentam diariamente, o próprio conceito de “micro-ondas” é algo que é particularmente pesado justamente por ser algo reconhecível dentro do contexto brasileiro.
Isso mostra que nem só de visual essa ambientação foi construída, os arquivos de leitura do jogo acrescentam muito mais a construção dessa experiência, por outro lado também temos as piadas e referências humorísticas e até mesmo dos envolvidos no projeto.
A Pulsatrix insere algumas pequenas referências seja para humor ou descontração, para mim não houve quebra na tensão, porém pode ser incômodo para alguns.

Conclusão
Otherside Tapes: Favela pode não ser o maior jogo da Pulsatrix Studios, mas talvez seja um dos mais interessantes quando é analisado o que ele tenta fazer.
E é impossível ignorar o quanto essa ambientação fica extremamente forte por ser brasileira. Fazendo com que haja o entendimento que uma favela pode ser assustadora não apenas por aquilo que é sobrenatural, mas por toda a sensação de paranoia e vulnerabilidade que é apresentado nesses ambientes.
Tudo isso ganha ainda mais força quando os elementos reconhecíveis do nosso cotidiano são inseridos nesse contexto sobrenatural, fazendo um terror que tem uma identidade difícil de se reproduzir se houvesse uma tentativa de fazer isso em outro país.
Claro que o jogo não é perfeito, o backtracking atrapalha o ritmo, uma narrativa consideravelmente mediana, porém ainda assim, Otherside Tapes: Favela possui algo que muitos jogos de terror atuais não conseguem alcançar: PERSONALIDADE.
É um terror brasileiro, não apenas devido sua localização, mas por que entende algumas das sensações, referências, contradições e anseios que fazem parte desse ambiente.
Se você gosta de jogos de terror psicológico com exploração, Otherside Tapes: Favela merece a sua chance, esperando claro, algo com um escopo menor, mais concentrado e familiar, porque talvez de fato o maior medo aqui não seja encontrar algo sobrenatural, talvez seja perceber o quanto daquele lugar parece real.


