Receber um jogo diretamente de um estúdio de desenvolvimento é sempre uma faca de dois gumes. Por um lado, há o entusiasmo de testemunhar em primeira mão a visão de uma equipe criativa. Por outro, há a responsabilidade de analisar aquela obra sem filtros, entregando ao público a realidade nua e crua da experiência de gameplay. Após passar boas horas desbravando o universo de Unpossess 2, cheguei a uma conclusão agridoce. Trata-se de um título que transborda potencial em sua premissa fundamental, mas que infelizmente vê seu brilho ofuscado por escolhas de execução questionáveis e uma clara necessidade de refinamento técnico.
Para quem acompanha o cenário de jogos de terror de forma ativa, a influência de Phasmophobia e outros grandes expoentes da investigação sobrenatural cooperativa é evidente. Unpossess 2 bebe diretamente dessa fonte, mas tenta dar um passo além ao mudar o foco da mera observação para a ação direta. Aqui, o objetivo central não é apenas coletar evidências e fugir com vida. A meta é o exorcismo.
O Arsenal do Exorcista e a Mecânica de Identificação
A mecânica funciona em camadas bem estruturadas. O jogador assume o papel de um especialista que precisa entrar em ambientes infestados por forças malignas. O arsenal à disposição é vasto e agrada quem busca aquela imersão clássica dos filmes de terror dos anos oitenta. Há crucifixos, água benta, sal grosso e uma parafernália tecnológica que inclui microfones direcionais e sistemas de câmeras.
O coração do loop de jogabilidade reside na identificação precisa. Cada demônio possui comportamentos específicos e reações distinções aos seus equipamentos. Descobrir a identidade exata da entidade é um pré-requisito obrigatório. Se você tentar realizar o ritual de banimento sem ter a certeza absoluta de quem está enfrentando, o preço a pagar é a vida da vítima possuída. Essa urgência cria uma atmosfera inicial de tensão genuína e legítima.
A Barreira do Idioma e os Desafios Técnicos
Contudo, é justamente quando o jogo exige precisão do jogador que ele começa a patinar. O primeiro grande obstáculo, especialmente para a comunidade brasileira, é a ausência total de localização para o nosso idioma. A falta de legendas em português do Brasil prejudica severamente a experiência. Unpossess 2 não é um jogo de ação frenética onde a linguagem é secundária. Ele exige a leitura atenta de relatórios, a interpretação correta de descrições textuais das entidades e a compreensão exata do funcionamento de cada ferramenta. Para quem não domina o inglês de forma fluida, o progresso se transforma em um exercício de tentativa e erro frustrante, quebrando o ritmo da investigação.
Soma-se a isso a clara necessidade de um banho de polimento no que diz respeito à jogabilidade pura. A movimentação do personagem carece de fluidez, transmitindo uma sensação de travamento que sabota os momentos de maior desespero. Presenciei pequenos bugs estruturais durante as sessões, desde problemas de colisão até falhas visuais que simplesmente arrancam o jogador da atmosfera macabra que os cenários tentam construir. Em um jogo de terror, a imersão é o ativo mais valioso. Quando um bug bobo acontece, o medo dá lugar à irritação.

O Ritmo do Medo e a Previsibilidade dos Gatilhos
Outro ponto que merece atenção dos desenvolvedores em futuras atualizações é o ritmo em que o terror se manifesta. O desenho de níveis atual sofre de uma previsibilidade excessiva. As assombrações e fenômenos paranormais demoram muito para engrenar de fato. Quase sempre, a atividade demoníaca parece aguardar que o jogador ative um gatilho mecânico específico para começar a agir.
Em uma das minhas partidas mais longas, o ambiente permaneceu em um silêncio sepulcral até o exato momento em que decidi interagir com um objeto amaldiçoado, ateando fogo e jogando sal grosso nele. Somente após essa ação direta as manifestações realmente começaram. O jogo ganharia uma atmosfera muito mais sufocante se adotasse a imprevisibilidade, permitindo que sustos e fenômenos bizarros acontecessem desde os primeiros minutos de exploração, mantendo o jogador constantemente em estado de alerta.
Solidão ou Caos: A Versatilidade Cooperativa
Apesar dos pesares, existe uma qualidade inegável que salva o projeto do ostracismo: a versatilidade da experiência. Unpossess 2 funciona muito bem tanto para o jogador solitário quanto para o trabalho em equipe. Jogar solo transforma a experiência em um teste de resistência psicológica e masoquismo puro, onde cada ruído no fone de ouvido gera desconfiança. Já a experiência cooperativa com amigos transforma o título em um caos divertido, onde a coordenação para usar os equipamentos e proteger a vítima gera momentos memoráveis de desespero compartilhado.

A conclusão que fica é que Unpossess 2 possui uma base extremamente promissora. A ideia de transformar a mecânica de investigação em um prelúdio para um exorcismo de alto risco é fantástica. No entanto, o estado atual do game exige paciência. A falta de localização para o português afasta uma parcela gigantesca do público local, e os problemas técnicos de movimentação e ritmo impedem que ele atinja o patamar dos grandes nomes do gênero. O título merece atenção e os desenvolvedores têm uma boa matéria-prima nas mãos. Resta saber se os próximos patches trarão o polimento que essa ideia tão interessante merece receber.
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Review de Jogos / Criador de Conteúdo
Designer, criador de conteúdo no canal Rafael Paganotti com seu quadro de review “Pitaco do Paganotti” e redator especializado em hardware e games, acompanhando a evolução da indústria há mais de 15 anos.
