Antes de qualquer coisa, agradeço a oportunidade que me foi dada pelos amigos da Patobah e pela confiança dos desenvolvedores da Panic Panda, além da Ultimate Publishing, Ultimate Games S.A. e PlayWay S.A. pela distribuição e por terem feito chegar até mim a chave de acesso do seu mais novo título: Meat Grinder: Hotdog Simulator.

Não é um jogo do qual eu sequer soubesse o que esperar, dada a excentricidade de sua proposta. Mas, com alguma coragem e permitindo-me flutuar pelo humor peculiar que o jogo estabelece mesmo diante de uma premissa tão macabra quanto cachorros-quentes feitos de carne humana; convido você a entender um pouco mais do que este título tem a oferecer.
Sigamos então para a review.
Sua rotina como o novo dono.
Sortudo o suficiente para não se lembrar de como chegou até aquele momento, mas consciente de que precisa gerenciar o novo estabelecimento que lhe foi passado, você é jogado nessa tarefa sem mais nem menos, tendo de aprender conforme as necessidades aparecem e o dinheiro fica cada vez mais curto.

O primeiro dia serve para ensinar o básico: como fritar as salsichas, usar os acompanhamentos e manter a loja limpa. O fluxo de clientes é quase sempre o mesmo, apresentando picos em dois momentos do dia que se repetem ao longo de toda a gameplay, tornando-se cada vez mais fáceis de lidar à medida que você ganha e acumula dinheiro para reinvestir no conserto de equipamentos antigos e na compra de mais suprimentos.
Eventualmente assim como o material de divulgação do jogo sugere e como mencionei na abertura desta review, você se depara com a necessidade de escavar túmulos para extrair a carne que servirá de ingrediente para as salsichas vendidas no dia seguinte.
Dessa forma, Meat Grinder transforma-se em uma jornada de dois turnos: durante o dia, você abre e gerencia a lanchonete e o estoque; à noite, sai em busca de novos corpos no cemitério local. Os moradores podem até estranhar e comentar sobre o mistério que passou a rondar a vizinhança, mas em nenhum momento essa suspeita evolui para uma investigação real contra você; pelo contrário.
Há uma clara perda de oportunidade não só nesse aspecto, mas em vários outros pontos onde parecia haver margem para crescer e dar mais substância à história, algo que, infelizmente, acaba não se concretizando.
Mecânicas do Cemitério.
Ainda que eu tenha comentado por cima no tópico anterior, não há muito mais para onde avançar no que se refere aos turnos e às atividades noturnas.
No começo, o cemitério parece ser a única rota lógica, e o seu maior perigo é um policial que ronda a entrada, motivado contextualmente a impedir e capturar quem ouse saquear e sumir com os corpos. Tomado esse cuidado, basta entrar na área, encontrar a pá, cavar, desenterrar o defunto e levá-lo com cautela de volta para a câmara fria da lanchonete.
Lá, por meio de uma mecânica específica usada exclusivamente nessa parte do jogo, você desmembra o corpo com facadas (um processo que mais tarde pode ser aprimorado com uma serra elétrica, agilizando o que antes exigia esforço manual). E uma vez esquartejado, o material é colocado em um processador para render as carnes necessárias na produção das salsichas.
Não há qualquer evolução em relação a esse aspecto do jogo, o que se revela bastante decepcionante e frustrante, visto que a dinâmica é apresentada logo na primeira noite e repete-se sem nenhuma novidade até o fim da experiência.

Com o tempo, você até desbloqueia uma cesta para caçar ingredientes e preparar molhos especiais utilizando itens espalhados por pontos específicos do cenário, mas, fora isso, não há nada além. O jogo simplesmente optou por não aprofundar suas próprias mecânicas.
De onde nasce o interesse humano pelo imaginário canibal?
Foi algo que eu me perguntei enquanto jogava e que motivou tanto esta pesquisa quanto as respostas que encontrei.
O fascínio humano pelo imaginário canibal e pela figura do praticante parece atravessar não apenas o estudo das sociedades, mas também a história das religiões, dos ritos e das teorias estéticas, indo muito além de meros desvios patológicos. Há uma dimensão particular que enlaça mente e cultura.

Paralelamente a essa linha de pensamento, o imaginário do canibal carrega também uma intensa carga fantasiosa, operando sempre como o reverso da ordem civilizatória. Nos contos folclóricos e nas narrativas imperialistas, a figura desse praticante ganha o mesmo patamar do ogro, da bruxa ou de qualquer monstro que funcione como um arquétipo para justificar a violência contra aqueles que se oponham.
A modernidade e a secularização da informação também me parecem responsáveis por viabilizar o surgimento de um título como Meat Grinder: aquilo que antes constituía um repertório mitológico restrito a estudiosos ganha agora uma presença social que transpassa a origem dos contos de fadas e do medo ligado a eles. A literatura gótica e o cinema de horror/terror somam-se a esse esforço de fomentação, transformando o praticante naquele que, diante do colapso das normas sociais e do confronto com a miséria radical, faz de tudo para sobreviver.
Provando, assim, que a ânsia por consumir o outro permanece viva e que a sua rejeição é apenas uma questão de ‘quando’ e de ‘quem’.
Agradecimentos.
Quero deixar meu muito obrigado aos amigos da Panic Panda e elogiá-los pelo quão ousados foram, ainda que eu tenha minhas questões acerca do que gostaria de ter visto. Espero que, com isso, tenhamos muitas outras oportunidades de cobrir seus jogos.

“No gods or kings. Just ducks.”