Wolverine da Insomniac é um bom hack ‘n slash. Ótimos gráficos, combate visceral e divertido e bom ritmo da história contrastam com uma jogabilidade que se preocupa demais em guiar o jogador, eventos de ação rápida mal scriptados e pouco fator replay.
Marvel’s Wolverine foi anunciado em 2021 pela Insomniac. O estúdio que mais trabalha na empresa é o mais desprestigiado pela própria Sony. Um vazamento pouco depois comprometeu esse projeto e outros, criando um ambiente de críticas vindo de pessoas que nunca sequer desenvolveram uma linha de código.
E, para melhorar o timing, o jogo é lançado em 15 de setembro, semanas depois de a Sony anunciar o fim da mídia física. Uma campanha contra o jogo se instaurou como fogo na floresta. De vídeos questionando um Logan sensível a afirmar que Jean era a verdadeira protagonista, muita coisa foi dita com intenção apenas de prejudicar o que acontece de verdade no jogo. Vamos à crítica.
Logando na História
Wolverine começa com a Equipe X, grupo de mutantes do qual Logan faz parte, em uma missão de resgate. Nathaniel Essex foi sequestrado pelo indigesto Bolivar Trask. O responsável por perseguir e massacrar mutantes é um ser humano odioso e, para mim, a representação de muitos indivíduos que vivem entre nós no momento.

O roteiro e a história do jogo se desenrolam a partir desse momento. Focando nos personagens e nesse universo construído pela Insomniac, eu gostei MUITO da condução, ritmo e maneira como os eventos se desenrolam. Minha crítica à história no geral é que alguns vilões e até mesmo suas motivações são jogados nas entrelinhas e logo são retirados de cena na mesma velocidade em que aparecem. Uma pena, pois a atuação de todos os atores, sejam principais ou secundários, é INCRÍVEL. Temos a querida Debra Wilson fazendo a mutante Callisto — a imortal da INDÚSTRIA que com certeza merecia mais amor e carinho de todos nós, fãs, por seu trabalho excelente em diversos jogos. Troy Baker, como Essex, está acima da média como sempre, e Liam McIntyre como Logan e Krizia Bajos como Jean são a cereja de um bolo bom, mas que precisa de mais tempo no forno para ficar melhor ainda.
Bonito é…
Wolverine é um jogo belíssimo. As texturas de pele, rosto, ferimentos e composição dos objetos são muito bem-feitas. Lutar contra inimigos e reduzi-los a pedaços de metal e carne sempre é satisfatório e bem-feito. Mesmo os NPCs nas cidades do jogo têm um cuidado na construção. Há muitos elementos destrutíveis nos locais de luta e o esforço do time nesse quesito é notório. Nessa parte, de fato, ele realmente é um projeto Triplo A. Minha única crítica à parte gráfica, por assim dizer, é sobre alguns trechos com vegetação densa. Ficou um pouco grosseiro. Nada mais.

O bom, o mau e o banal
A jogabilidade dividirá opiniões com toda a certeza. Se temos um jogo que abusa e usa do simples, a brutalidade de Logan compensa. Você irá rasgar e brutalizar tudo o que vir pela frente. Wolverine, graças a Deus, mesmo com todos os seus filtros de acessibilidade para pais de família, consegue entregar brutalidade, sangue e muita violência. O sistema de fúria e cura é interessante e funciona de acordo com a mística do personagem. Logan tem um fator de cura acelerado, regenerando órgãos vitais e tecidos em segundos. A maneira que o estúdio americano encontrou para mostrar isso no combate foi criar um sistema focado no ataque constante, onde você deve estar sempre em posição de combate, massacrando tudo o que vier ao seu encontro.
Cada movimento, golpe e execução enchem a barra de fúria e, conforme você acumula essa energia, Wolverine fica mais brutal e impiedoso. Aliado a habilidades que vão desde ataques de área até fator de cura acelerado, o jogador se sentirá em casa em minutos com esse sistema.
Porém, existem problemas nesse aspecto. Primeiro que, visando o desenvolvimento do jogador e da campanha, a variedade chega um pouco tarde. Na metade do jogo apenas o potencial vem à tona com as esquivas perfeitas, ataques pesados críticos e muito mais. Não senti tédio, muito pelo contrário: é um sistema ao qual o jogador vai se afeiçoando, mas obviamente seria muito mais legal se tivéssemos essa variedade desde o começo ou se a campanha fosse mais extensa do que as 15 a 25 horas de média que se exige para terminá-la. Ficou uma sensação de “quero mais” com toda a certeza.

As cenas de perseguição são maneiras e, jogando nas dificuldades mais altas, você toma dano e morre SIM. Mentiram para você nisso. MAAAS…
Nem tudo são flores. AQUI farei uma seção para falar da polêmica do jogo: os eventos de ação rápida ou QTEs (Quick Time Events).
EU não sei o que a Insomniac pensou ao criar algo tão permissivo e sem sentido. Se existe a opção de ativar no menu de acessibilidade para que eles se resolvam sozinhos, por que deixar esses comandos funcionarem de maneira automatizada ou permissiva demais se o jogador desativou essa opção?
Em diversas oportunidades, errei o botão de contexto e fui premiado com o andamento da cena do mesmo jeito, ou simplesmente nada acontecendo. É algo que me irritou profundamente, porque temos no portfólio da PlayStation a Santa Monica, que basicamente solidificou essa jogabilidade nos anos 2000, e simplesmente um bater de portas até lá e uma consultoria prática resultaria em algo muito melhor que esta porcaria.
E o que me deixa mais puto é que, em alguns deles, Logan morre se você errar — o que deveria ser MANDATÓRIO na MAIORIA deles. Nem que você tomasse um dano alto pela burrada, mandaram MUITO MAL na construção desse sistema.

Eu sou defensor da acessibilidade nos videogames, desde que se tenha liberdade para jogar como quiser e ativar ou desativar facilitadores de jogabilidade. Wolverine é um jogo que subestima a inteligência de seus jogadores mesmo com esse fator desligado e é o reflexo de uma comunidade doente que não sabe o que de fato quer, além de desenvolvedores que têm MEDO de criar suas obras por assédio nas redes, criando jogos que ou são altamente permissivos com erros ou incrivelmente punitivos sem razão alguma.
Som e Música
Wolverine tem a trilha sonora guiada pelo compositor David Flemming. O artista captou o clima pesado do mundo, da tragédia do personagem e dos momentos mais frenéticos, criando um trabalho excepcional neste departamento. É um jogo que tem na música a extensão de seu drama. A trilha sonora é excelente.
Os efeitos sonoros, dublagem e atuação são impecáveis e mostram o alto nível da produção. Perfeitos.
Parte técnica
Jogo da PlayStation, custando 400 reais e com um suposto tratamento de altíssima qualidade tem que no MÍNIMO rodar bem e oferecer todas as opções de renderização. NO MÍNIMO.
Wolverine tem isso. Há modos de qualidade e desempenho focados respectivamente nos 30 frames e 60 frames. O que é legal é o modo de 120 Hz. Jogar com um monitor compatível com essa taxa de atualização melhora e muito a suavidade das ações. Recomendo demais jogar o modo 120 Hz atrelado ao modo qualidade. Nesse aspecto, o trabalho da PlayStation é sempre impecável.
Mas aí vem o problema: Wolverine tem bugs que não deveriam acontecer. Um estúdio veterano como a Insomniac, precificação absurda e um alto nível de marketing e tratamento, você espera algo MUITO MELHOR. Eis a lista dos bugs que tive:
– As animações de combate são erráticas. Se você ataca um inimigo em uma escada, desnível ou qualquer outro tipo de local que não seja uma arena plana, acontece e muito das garras do Logan atravessarem o ar ou o inimigo sofrer a animação de morte enquanto o Logan ATACA uma parede. Isso aconteceu mais de uma vez comigo.
– Há atrasos de legenda em uma cutscene contextual. Não se repetiu depois, mas faltou controle de qualidade da Insomniac.
– Na penúltima missão, em uma ação contextual onde Logan procura uma pessoa, o botão de interação não apareceu. Travado, tive de voltar ao ponto de checagem.


Crítico do patobah.com.br e apresentador do Patotícias no Youtube: @PatobahOficial