Em um mercado onde boa parte dos jogos de quebra-cabeça tenta prender a atenção com histórias gigantescas ou mecânicas exageradamente complexas, Helix: Descent N Ascent escolhe outro caminho. O novo projeto da Badass Mongoose aposta na curiosidade do jogador. Em vez de explicar tudo logo nos primeiros minutos, ele apresenta um mundo misterioso e deixa que cada descoberta aconteça naturalmente.

O resultado é uma experiência bastante diferente. Não é um jogo que impressiona pela ação ou pelo ritmo acelerado, mas pela forma como incentiva a observação, a experimentação e a satisfação de resolver um problema usando apenas aquilo que você aprendeu durante a jornada. É um título que conversa diretamente com quem gosta de explorar cada canto do mapa e sentir que foi recompensado por isso.
História
A narrativa é propositalmente enigmática. Você desperta em um mundo antigo completamente abandonado, sem qualquer explicação sobre quem é ou como chegou ali. Logo nos primeiros momentos surge uma figura praticamente idêntica ao protagonista. Esse misterioso sósia aparece em momentos importantes da aventura, sempre levantando novas dúvidas em vez de oferecer respostas.
A história quase não utiliza diálogos. Em vez disso, ela é construída por meio da ambientação, das ruínas espalhadas pelo cenário, dos símbolos encontrados durante a exploração e dos próprios quebra-cabeças. Aos poucos, fica claro que uma antiga civilização dominava poderes capazes de alterar a própria realidade, e cabe ao jogador descobrir o que aconteceu com esse povo.

Essa abordagem funciona muito bem porque desperta curiosidade o tempo inteiro. Ao mesmo tempo, pode afastar quem prefere narrativas mais diretas.
Helix nunca faz questão de explicar tudo. Muitas interpretações ficam nas mãos do jogador, algo que lembra títulos como Cocoon, Tunic e até Outer Wilds em sua forma de contar histórias.
Jogabilidade
A jogabilidade é, sem dúvida, o maior destaque de Helix: Descent N Ascent. Toda a aventura gira em torno da exploração e da resolução de enigmas, mas a forma como isso acontece impede que o jogo caia na repetição. Em vez de simplesmente apresentar um quebra-cabeça após o outro, cada nova área introduz uma habilidade inédita que muda completamente a maneira de interagir com o cenário.
No início, tudo é bastante simples. Você movimenta caixas, aciona alavancas e aprende como o mundo reage às suas ações. É uma espécie de tutorial disfarçado, que ensina as regras sem interromper a experiência.
Depois disso, o jogo começa a mostrar sua criatividade. Uma das primeiras habilidades permite criar blocos sólidos para pressionar interruptores, formar caminhos ou bloquear determinados obstáculos. Em seguida surgem poderes completamente diferentes, como controlar um pequeno drone para acessar locais estreitos, utilizar um gancho para atravessar grandes distâncias ou capturar pequenas criaturas necessárias para resolver desafios específicos.
O grande diferencial aparece quando essas habilidades deixam de funcionar isoladamente e passam a ser combinadas. O jogo exige que você pense vários passos à frente. Um mesmo quebra-cabeça pode envolver movimentação, troca de poderes, posicionamento correto dos objetos e interpretação do ambiente ao redor.
Outro elemento interessante é a troca entre formas claras e escuras. Certos caminhos simplesmente deixam de existir dependendo da dimensão em que o personagem se encontra. Plataformas aparecem e desaparecem, obstáculos mudam completamente de comportamento e o cenário inteiro passa a fazer parte do quebra-cabeça.

Essa mecânica transforma o mapa em um enorme quebra-cabeça conectado. Conforme novas habilidades são desbloqueadas, áreas anteriormente inacessíveis passam a fazer sentido, incentivando revisitas constantes. É um design inteligente que recompensa a memória e a observação do jogador, sem depender de marcadores indicando exatamente para onde ir.
Outro acerto é a estrutura relativamente aberta. Em vários momentos existem diferentes enigmas disponíveis ao mesmo tempo, permitindo que o jogador escolha qual deseja enfrentar primeiro. Caso algum desafio pareça complicado demais, basta seguir outro caminho e retornar depois com uma nova perspectiva.
Os fliperamas espalhados pelo mundo também trazem variedade. Eles funcionam como pequenos desafios de plataforma que servem para liberar novas áreas, elevadores e acessos importantes. Além disso, escondem códigos secretos e modificadores que ampliam ainda mais o conteúdo para quem gosta de explorar tudo.

Naturalmente, nem tudo funciona de maneira perfeita. A necessidade de retornar ao centro principal sempre que é preciso trocar o conjunto de habilidades acaba gerando um pouco de repetição. Em alguns momentos o vai e vem pelo mapa quebra o ritmo da exploração, principalmente nas horas finais.
Também existe uma curva de dificuldade bastante irregular. Alguns enigmas são resolvidos rapidamente, enquanto outros exigem uma mudança completa de raciocínio. Felizmente, o jogo oferece opções de acessibilidade, possibilidade de pular determinados desafios e ajustar a dificuldade, tornando a experiência mais amigável para quem não está acostumado com jogos de quebra-cabeça.
Mesmo com esses pequenos tropeços, Helix entrega uma das experiências de puzzles mais inteligentes do ano. Poucos jogos conseguem ensinar tantas mecânicas novas sem recorrer a longos tutoriais ou interromper constantemente o jogador.
Direção de arte
Visualmente, Helix é um jogo que chama atenção desde o primeiro minuto. Toda sua identidade gira em torno de uma estética monocromática inspirada em quadrinhos independentes, mangás clássicos em preto e branco e ilustrações desenhadas à mão. O resultado é um mundo extremamente bonito, cheio de personalidade e fácil de reconhecer.
Apesar da ausência de cores, os cenários nunca parecem vazios. O uso de sombras, contraste e iluminação cria profundidade suficiente para destacar caminhos, elementos importantes e detalhes da ambientação.

As animações também merecem elogios. Cada movimento do personagem transmite fluidez, enquanto os efeitos das habilidades conseguem diferenciar claramente cada poder sem poluir a tela.
A trilha sonora acompanha perfeitamente esse clima contemplativo. Em vez de músicas marcantes o tempo inteiro, ela aposta em composições discretas que aumentam a sensação de solidão e mistério durante toda a exploração. É um caso em que áudio e imagem trabalham juntos para fortalecer a atmosfera do jogo.
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