Grim Trials é a estreia do estúdio Glory Jam no gênero roguelite, estilo popularizado por grandes obras como Dead Cells e Hades — este último servindo como inspiração direta para os desenvolvedores. Embora visualmente lembre o famoso título da Supergiant Games à primeira vista, fica claro desde o início que a obra possui uma identidade própria e reúne mecânicas criativas que a tornam bastante singular.

Premissa:
O que nos define como seres humanos? Somos o fruto dos nossos próprios erros? Ser o escolhido é uma bênção ou uma maldição? Essas são as reflexões propostas pela narrativa de Grim Trials. Na trama, assumimos o papel de Avelin, uma jovem que, após falecer, é selecionada para se tornar uma ceifadora de almas. Para assumir o posto, contudo, ela precisa passar por provações e expiar suas falhas, personificadas na forma de monstros.
A jornada se desenrola por meio das missões enviadas pelo mentor John. Avelin é transportada para domínios temáticos de cada pecado capital e precisa avançar até derrotar o chefe local. O grande trunfo da história é o preço dessa purificação: ao retornar vitoriosa de uma incursão, a protagonista percebe que perdeu um pedaço da própria essência. Ao erradicar a Ira, por exemplo, ela se torna apática e perde a chama interior que a guiava, ao derrotar a Gula, perde a ambição e torna-se conformada. Assim, o processo que deveria transformá-la em alguém melhor acaba por remover o que resta de sua humanidade.
Avelin é uma excelente protagonista, de gênio forte e opiniões convictas, ela rende ótimos diálogos com os personagens secundários. Estes, por sua vez, também são muito bem construídos, cada um possui um passado trágico atrelado às suas falhas, como Kai (ligado à gula) e Myliun (à avareza). O aprendizado compartilhado por esses aliados gera empatia e traz a sensação de conhece-los.
Gameplay:
Como um bom roguelite, o ciclo de jogo consiste em escolher uma fase, explorar salas interligadas e combater hordas de inimigos. Ao limpar uma área, o jogador escolhe uma vantagem temporária válida apenas para aquela tentativa, além de coletar recursos de fabricação. Ao ser derrotado, o jogador retorna à base inicial e pode utilizar os materiais acumulados para forjar novas armas e peças de armadura, além de investir em uma árvore de habilidades passivas com melhorias permanentes para a sua build.

O combate se destaca pela agilidade e fluidez, com partidas rápidas que duram entre seis e oito minutos. A variedade de armas não é extensa, mas cada tipo possui características marcantes de alcance, velocidade e impacto. Já as armaduras oferecem grande liberdade de customização, cada peça concede atributos específicos e é possível misturar partes de conjuntos diferentes para adaptar o estilo de luta ao gosto do jogador (em minha experiência, utilizei uma combinação focada em ataques à distância, combinando a armadura completa de atirador a habilidades de dano para bestas).

Direção de Arte:
O aspecto visual e sonoro é, sem dúvida, o maior atrativo do projeto. Os gráficos lembram desenhos feitos a mão, apresentando traços imperfeitos e uma paleta de cores vibrante que transparece a paixão da equipe no desenvolvimento. O character design de aliados, oponentes e chefes é riquíssimo em detalhes que externalizam a personalidade de cada figura.

A trilha sonora de heavy metal é um espetáculo à parte. Em diversos combates contra chefes, fiz questão de pausar a luta apenas para apreciar as composições. Até mesmo a música do menu principal é marcante, enriquecendo a ambientação do início ao fim.
Qualidade Técnica:
Infelizmente, este é o ponto mais fraco da experiência. Durante a análise na versão de PlayStation 5, enfrentei frequentes stutterings (microtravamentos) que, embora breves, foram suficientes para atrapalhar a precisão no minigame de fabricação e causar a perda desnecessária de vida nos combates. Fora essas engasgadas no desempenho, não presenciei erros mais severos, como crashes ou falhas de progressão.


Apaixonado por jogos que desafiam, especialmente no cenário indie. Produzo análises com opinião honesta, senso crítico e compromisso com a transparência editorial.
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