Existe algo extremamente satisfatório em jogos que conseguem transformar movimento em diversão pura. Não apenas andar de um ponto até outro, mas fazer com que cada salto, deslize e escalada pareçam parte de uma dança improvisada no meio do caos. E é justamente aí que Freerunners encontra sua identidade.
Desenvolvido pela CBgameDev, o jogo aposta completamente na sensação de velocidade e liberdade, colocando o jogador no controle de um freerunner que precisa atravessar cenários urbanos utilizando parkour para escapar de inimigos e salvar um amigo capturado. Parece simples no papel, mas a execução consegue criar momentos genuinamente divertidos.

Movimento acima de tudo
A maior qualidade de Freerunners está justamente naquilo que muitos jogos de parkour falham: a sensação de movimento. Não basta apenas correr rápido ou apertar um botão para pular obstáculos. O jogo tenta transformar deslocamento em diversão constante, criando uma experiência onde cada ação parece fazer parte de um fluxo contínuo.
E quando esse fluxo encaixa, o resultado é extremamente satisfatório.
Você começa atravessando pequenos obstáculos quase de maneira automática. Salta muros, desliza por baixo de estruturas metálicas, corre pelas paredes e usa barras espalhadas pelos cenários para ganhar impulso. Em poucos minutos, o jogador já entende que velocidade não depende apenas de correr, mas de manter o ritmo entre os movimentos.
Existe uma sensação muito forte de momentum durante as partidas. Quanto mais você entende os mapas, mais natural tudo fica. O que inicialmente parece um sistema simples acaba se transformando em algo quase mecânico, como se o jogo estivesse constantemente recompensando quem aprende a “ler” o cenário.

Os melhores momentos surgem exatamente quando você para de pensar nos comandos e simplesmente reage ao ambiente. O personagem desliza entre obstáculos enquanto o mapa parece abrir novos caminhos naturalmente. É quase como resolver um quebra-cabeça em alta velocidade.
A comparação inevitável acaba sendo com Mirror’s Edge, principalmente pela mistura entre parkour e movimentação em primeira pessoa. Mas Freerunners escolhe seguir um caminho mais arcade e direto. Aqui existe menos preocupação com narrativa ou imersão cinematográfica.
O foco é puro ritmo.
E isso acaba funcionando muito bem porque o jogo entende exatamente onde sua diversão está: na sensação constante de avanço, velocidade e improviso.
Simples, mas extremamente eficiente
Uma das decisões mais inteligentes de Freerunners foi não tentar transformar o parkour em uma simulação complicada. O jogo entende que a diversão está na fluidez, não no realismo exagerado. E isso faz toda diferença durante a experiência.

Os comandos são rápidos de aprender e funcionam muito bem dentro da proposta arcade. Em poucos minutos você já começa a identificar quais estruturas podem servir de impulso, onde é possível correr pelas paredes e quais objetos ajudam a manter velocidade sem quebrar o ritmo da movimentação.
Existe uma naturalidade muito boa na forma como o jogo conduz o aprendizado. Nada parece excessivamente técnico. Aos poucos, o jogador simplesmente começa a experimentar novos caminhos por instinto.
E é justamente aí que Freerunners cresce.
Os cenários raramente parecem limitar o jogador a uma única rota correta. Mesmo quando existe um caminho principal evidente, o jogo constantemente incentiva improvisação. Em vários momentos consegui atravessar áreas inteiras utilizando estruturas que claramente pareciam secundárias, criando atalhos improvisados enquanto tentava manter velocidade máxima.
Essa liberdade deixa tudo mais divertido porque transforma movimentação em criatividade.
Você começa a olhar o cenário não como um mapa comum, mas como um playground cheio de possibilidades. Cada parede vira potencial impulso. Cada objeto pode servir como continuação do fluxo.
Outro detalhe importante é como os inimigos ajudam a elevar a tensão. Eles não possuem uma inteligência artificial particularmente impressionante, mas cumprem muito bem sua função narrativa e mecânica: pressionar o jogador o tempo inteiro.
Você não está simplesmente explorando ambientes ou tentando chegar ao final do mapa com calma. Existe urgência constante. A perseguição transforma o parkour em sobrevivência improvisada, fazendo com que decisões rápidas se tornem parte essencial da experiência.
O resultado é um ritmo muito mais intenso do que o jogo aparenta inicialmente.
O verdadeiro protagonista
Se existe algo que realmente faz Freerunners funcionar, é o cuidado com flow.
Muitos jogos focados em movimentação acabam criando cenários visualmente interessantes, mas esquecem que velocidade depende de ritmo. Aqui, vários trechos parecem desenhados especificamente para manter o jogador em movimento contínuo.

Quase nunca existe uma pausa longa.
O mapa constantemente empurra você para frente, conectando obstáculos de maneira natural. Um salto leva para uma parede. A parede leva para uma barra. A barra joga o personagem diretamente em outro impulso. Quando tudo encaixa, o jogo cria uma sensação quase musical.
Existe uma cadência muito específica durante as corridas.
Você começa analisando o ambiente com cautela, ainda tentando entender as possibilidades do cenário. Mas conforme aprende os trajetos, o jogo muda completamente. Os movimentos deixam de parecer ações separadas e começam a funcionar como uma sequência única.
É nesse momento que Freerunners entrega suas melhores sensações.
Completar uma rota perfeita sem perder velocidade gera aquele tipo de satisfação imediata que lembra jogos clássicos de skate ou títulos focados em combo. Existe prazer genuíno em perceber que você finalmente dominou o mapa. É quase automático.
De repente você já não pensa mais em apertar botões. Apenas reage. O cenário passa rápido, os movimentos se conectam naturalmente e o jogo finalmente “clica” na cabeça do jogador. E quando isso acontece, fica difícil largar.
Trilha sonora e sensação constante de velocidade
A trilha sonora de Freerunners talvez não seja o tipo de composição que você vai sair ouvindo fora do jogo depois da campanha terminar, mas ela entende perfeitamente qual é seu papel dentro da experiência. E sinceramente, isso acaba sendo mais importante.
As músicas trabalham muito mais como ferramenta de ritmo do que como espetáculo individual. As batidas acompanham a intensidade das corridas e ajudam a manter aquela sensação contínua de urgência, quase como se o jogo estivesse o tempo inteiro empurrando o jogador para frente.
Existe uma energia constante durante as fases. Mesmo nos momentos mais simples, a trilha consegue criar tensão suficiente para fazer qualquer perseguição parecer mais intensa do que realmente é. Quando a velocidade aumenta e os obstáculos começam a aparecer em sequência, a música acompanha essa escalada de forma bastante natural.
Mas o que realmente vende a sensação de velocidade são os efeitos sonoros. O impacto dos passos no concreto, o som seco das aterrissagens e o ruído do personagem deslizando pelo chão criam uma resposta física muito forte para cada movimento. Pequenos detalhes fazem diferença enorme em jogos focados em movimentação, e Freerunners entende isso muito bem.
Cada ação possui peso sonoro próprio. Os saltos transmitem impulso. As corridas pelas paredes possuem aquele som rápido de atrito contínuo. As quedas mais longas produzem aterrissagens pesadas que ajudam a reforçar a velocidade acumulada durante o trajeto.
Tudo trabalha junto para manter a sensação de momentum. E esse cuidado acaba sendo essencial porque o jogo depende completamente dessa ilusão de velocidade constante para funcionar. Se os movimentos não transmitissem impacto, boa parte da experiência perderia força.
Problemas que ainda aparecem no caminho
Apesar de extremamente divertido em seus melhores momentos, Freerunners ainda carrega algumas limitações bastante perceptíveis de um projeto independente menor.
A câmera é provavelmente o problema mais inconsistente do jogo. Em áreas abertas ela funciona relativamente bem, mas alguns cenários mais apertados acabam confundindo bastante a visualização, especialmente quando muitos obstáculos aparecem ao mesmo tempo.
Existem momentos onde a leitura do espaço fica complicada justamente quando o jogador mais precisa reagir rápido.
E em um jogo baseado totalmente em fluxo, qualquer pequena quebra de visão acaba impactando diretamente a experiência.
Também existem situações em que o personagem parece “grudar” em certas partes do cenário de maneira estranha. Nada absurdamente quebrado, mas suficiente para interromper corridas que estavam funcionando perfeitamente até aquele momento.
E isso incomoda justamente porque o jogo acerta tanto na sensação de fluidez.
Quando você está encaixando movimentos rapidamente e de repente o personagem trava em uma borda aleatória, a quebra de ritmo fica muito evidente.
A inteligência artificial dos inimigos também não chega a impressionar. Eles cumprem bem a função de manter pressão constante durante as perseguições, mas raramente parecem realmente inteligentes. Em vários momentos a sensação é que eles existem mais para acelerar o jogador do que para criar confrontos complexos.

Felizmente, essa parece ser uma decisão consciente do próprio design.
O foco claramente nunca foi combate ou estratégia contra inimigos. Eles funcionam quase como obstáculos móveis dentro do percurso.
Outro ponto que poderia ser melhor explorado é a verticalidade de algumas fases. Certos mapas conseguem criar trajetos extremamente criativos utilizando altura, impulsos e caminhos alternativos. Outros acabam parecendo mais lineares e menos inspirados visualmente.
Existe uma certa inconsistência na qualidade dos cenários. Algumas áreas são excelentes em manter flow contínuo e incentivar improvisação. Outras parecem simplesmente corredores cheios de obstáculos posicionados sem o mesmo cuidado.
Ainda assim, o mais impressionante é que boa parte desses problemas acaba sendo carregada pela força do gameplay principal.
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