A Temporada 14 de Diablo IV, Despertar da Morte, aposta em novas mecânicas, uma progressão mais dinâmica, Rupturas do Pandemônio e mudanças importantes no endgame para renovar a experiência em Santuário.
Quem acompanha Diablo IV há bastante tempo já sabe que uma temporada precisa entregar muito mais do que uma boa história. O entusiasmo inicial costuma ser grande quando novos sistemas, equipamentos e atividades chegam ao jogo, mas é depois das primeiras horas que realmente descobrimos se aquelas novidades conseguem sustentar a experiência. Ao longo de sua trajetória, Diablo IV passou por temporadas bastante diferentes nesse aspecto. Algumas apresentaram ideias interessantes que foram esquecidas rapidamente, enquanto outras conseguiram modificar a rotina de Santuário por tempo suficiente para deixar uma impressão mais duradoura.

É nesse cenário que chega a Temporada 14 de Diablo IV, intitulada Despertar da Morte. Depois dos acontecimentos de Vessel of Hatred, a nova temporada assume uma posição curiosa dentro do atual momento do jogo. Ela não possui a mesma responsabilidade de apresentar uma grande expansão ou uma campanha gigantesca, mas precisa mostrar que Diablo IV ainda consegue evoluir e oferecer bons motivos para retornar a Santuário.
Depois de alguns dias explorando o novo conteúdo, minha impressão é de que a Blizzard decidiu trabalhar menos naquilo que chama atenção imediatamente e mais na estrutura que sustenta a experiência. Despertar da Morte não tenta reinventar Diablo IV por completo. Em vez disso, procura melhorar a maneira como o jogador progride, experimenta diferentes builds e utiliza seu tempo dentro do jogo. E essa escolha faz bastante diferença.

A história da Temporada 14 de Diablo IV
A narrativa de Despertar da Morte gira em torno do surgimento do Culto da Morte. Depois dos acontecimentos recentes em Santuário, grupos fanáticos passam a interpretar a destruição causada pelos Primevos de uma maneira diferente. Para eles, a morte deixa de ser apenas uma consequência da eterna disputa entre as forças do Céu e do Inferno e passa a representar uma espécie de revelação que deve ser seguida e venerada.
Não estamos diante de uma nova campanha com a mesma escala de Vessel of Hatred. A história da Temporada 14 funciona muito mais como uma introdução às novas atividades e mecânicas do que como uma grande continuação da narrativa principal de Diablo IV. As missões apresentam o Culto da Morte enquanto conduzem o jogador pelos sistemas que serão utilizados durante a jornada sazonal.
Apesar disso, existe um cuidado interessante na maneira como a história é incorporada ao mundo. Os cultistas aparecem em regiões conhecidas de Santuário, alterando a percepção de lugares que já visitamos inúmeras vezes. A Blizzard não precisa criar uma região completamente nova para transmitir a sensação de que alguma coisa mudou.
São alterações pequenas, mas que ajudam a dar uma identidade própria à temporada.
Um início menos burocrático
Uma das primeiras mudanças que percebi em Diablo IV Temporada 14 foi a maneira como a Blizzard reduziu a sensação de burocracia durante o início da jornada. As principais atividades e sistemas aparecem relativamente cedo, permitindo que o jogador experimente as novidades sem precisar passar horas repetindo conteúdos conhecidos apenas para chegar ao ponto em que a temporada realmente começa.
Essa mudança interfere diretamente no ritmo da progressão. Em temporadas anteriores, muitas vezes tive a sensação de estar cumprindo uma lista de tarefas antes de finalmente chegar ao conteúdo que realmente queria experimentar. Em Despertar da Morte, essa barreira é consideravelmente menor.
A evolução do personagem também parece mais natural por causa disso. Em vez de perseguir apenas experiência, equipamentos e níveis, existe uma sequência de acontecimentos que mantém a atenção. O jogador sente que está avançando dentro da temporada, e não simplesmente se preparando para começar a jogar.
Rupturas do Pandemônio são o destaque da Temporada 14
Entre as novidades de Diablo IV Temporada 14, as Rupturas do Pandemônio são provavelmente as que mais chamam atenção. A atividade reúne diferentes ideias que já funcionaram em outros momentos da franquia, mas apresenta tudo de uma maneira suficientemente diferente para não parecer apenas uma nova versão de conteúdos antigos.
Ao entrar em uma Ruptura, o jogador é colocado diante de uma sequência de combates que aumenta rapidamente de intensidade. Grandes grupos de inimigos aparecem enquanto modificadores alteram o comportamento dos confrontos e novos objetivos surgem durante a atividade.
Em alguns momentos, a experiência lembra a intensidade das antigas Fendas Maiores de Diablo III. Em outros, existe uma proximidade evidente com as Hordas Infernais introduzidas em temporadas recentes. A principal diferença está na variedade encontrada durante cada incursão.
As Rupturas podem apresentar diferentes combinações de inimigos, modificadores e eventos, fazendo com que o jogador precise reagir ao que está acontecendo em vez de simplesmente memorizar uma sequência eficiente. Essa imprevisibilidade funciona muito bem porque mantém uma pequena dose de surpresa dentro de uma estrutura naturalmente repetitiva, e Diablo funciona melhor quando consegue surpreender.
Outro aspecto interessante das Rupturas do Pandemônio está na maneira como elas apresentam suas recompensas. O objetivo não é simplesmente derrotar inimigos cada vez mais fortes e esperar que um equipamento melhor apareça no final. Durante determinadas etapas, o jogador precisa decidir quais desafios pretende enfrentar, quais modificadores está disposto a aceitar e, em alguns momentos, qual caminho seguir.
É uma mecânica simples na teoria, mas que muda bastante o comportamento durante a atividade. Em diversas situações, me encontrei parando por alguns segundos para decidir se valia a pena assumir um risco maior em troca de uma recompensa potencialmente melhor.
Essa camada de decisão faz com que o jogador participe mais ativamente da construção daquela tentativa. Em vez de simplesmente repetir uma atividade seguindo a mesma estratégia, existe espaço para adaptar o percurso de acordo com aquilo que aparece. Foi uma sensação que senti falta em algumas temporadas anteriores.
Recompensas do Relicário do passe de batalha premium
Padrão









Armas








Feras








Armadura











O retorno do Cubo Horádrico
Poucas ferramentas possuem tanto peso dentro da história da franquia quanto o Cubo Horádrico, e a Blizzard decidiu mais uma vez utilizar esse elemento para ampliar a progressão de Diablo IV.
A diferença é que, na Temporada 14, o Cubo não funciona simplesmente como mais um menu de fabricação ou como um sistema isolado. Ele passa a ter uma participação mais constante na construção do personagem, oferecendo novas possibilidades de personalização conforme a temporada avança.
Gostei principalmente da maneira como ele conversa com os outros sistemas de progressão. Em vez de parecer uma mecânica criada apenas para preencher uma função específica, o Cubo consegue permanecer relevante durante diferentes momentos da jornada.
Isso é importante em um jogo que já possui uma quantidade considerável de sistemas. Quando uma mecânica nova existe de maneira isolada, é muito fácil que ela seja abandonada assim que outra atividade se torna mais eficiente. O Cubo consegue escapar desse problema justamente porque participa de diferentes etapas da evolução.
Únicos Míticos e a liberdade para criar builds
Os Únicos Míticos também receberam mudanças importantes na Temporada 14 de Diablo IV. Esses equipamentos continuam ocupando uma posição privilegiada dentro do sistema de itens, mas sua distribuição, balanceamento e relação com determinadas builds foram ajustados.
Durante bastante tempo, algumas construções acabaram transformando determinados equipamentos em praticamente obrigatórios. Isso não significava que outras opções fossem impossíveis, mas a diferença de eficiência fazia com que experimentar alternativas parecesse pouco vantajoso. A reformulação tenta diminuir essa distância.
Ainda existe naturalmente um caminho mais eficiente para determinadas classes e builds, algo praticamente inevitável em um jogo baseado em números e otimização. Porém, a diferença entre algumas opções parece menor, abrindo espaço para uma quantidade maior de experimentação.
Mudanças pequenas que melhoram Diablo IV
Nem todas as novidades da Temporada 14 de Diablo IV aparecem entre os grandes anúncios da Blizzard. Algumas melhorias só são percebidas depois de várias horas de jogo, principalmente por quem já acumulou bastante tempo em Santuário.
A navegação pelos menus parece mais rápida, determinadas animações foram reduzidas e alguns pequenos atrasos entre ações praticamente desapareceram. A organização do inventário também transmite uma sensação mais limpa.
Nenhuma dessas mudanças seria suficiente para justificar uma temporada inteira isoladamente. O valor está justamente no conjunto.
Depois de centenas de horas em Diablo IV, pequenas inconveniências começam a se acumular. Por isso, melhorias que dificilmente renderiam um trailer acabam tendo uma importância maior do que parece. Elas não necessariamente fazem o jogador parar para pensar sobre o que mudou, mas tornam a rotina mais confortável.
Autossuficiência Solo muda a experiência
Entre as novidades da Temporada 14, uma das mais importantes não envolve novos monstros ou equipamentos. O modo Autossuficiência Solo cria uma experiência separada para quem prefere construir seu personagem sem influência externa.
Ao escolher esse formato, o personagem passa a existir dentro de um ecossistema próprio. Não há troca de itens, mercado compartilhado ou qualquer outra forma de influência externa sobre sua progressão. Tudo aquilo que aparece no inventário precisa ser conquistado durante aquela própria jornada.
A diferença pode parecer pequena para quem está acostumado ao funcionamento tradicional de Diablo IV, mas ela muda bastante a maneira como o jogador enxerga seus equipamentos.
Encontrar uma peça rara deixa de representar apenas um aumento de atributos. Existe também a sensação de que aquele item foi conquistado exclusivamente através do próprio progresso.
Quem acompanha os ARPGs há bastante tempo provavelmente conhece a filosofia Self Found, adotada informalmente por parte da comunidade. Agora, Diablo IV oferece uma maneira oficial de seguir esse estilo de jogo. E isso pode tornar cada descoberta muito mais significativa.
O endgame de Diablo IV recebeu atenção
O endgame de Diablo IV também recebeu algumas mudanças, principalmente com ajustes no Fosso, que continua ocupando uma posição importante para quem pretende testar os limites de sua build.
A distribuição dos inimigos parece mais consistente e alguns chefes receberam comportamentos adicionais durante os confrontos. Não são mudanças capazes de transformar completamente o Fosso, mas ajudam a diminuir a sensação de estar enfrentando exatamente o mesmo desafio dezenas de vezes.
O equilíbrio entre risco e recompensa também parece mais interessante. Em temporadas anteriores, era comum encontrar determinado nível de dificuldade que oferecia a melhor relação entre tempo, segurança e recompensa e simplesmente repetir aquele conteúdo.
Na Temporada 14, me vi alternando estratégias com mais frequência. Isso não significa que o Fosso tenha deixado de ser repetitivo, afinal, a repetição é parte fundamental da estrutura de Diablo. A diferença está na sensação de que existe um pouco mais de espaço para variar a maneira como essa repetição acontece.
Diablo IV recebe colaboração com Overwatch
Uma das surpresas de Despertar da Morte é a colaboração com Overwatch. Misturar os dois universos poderia facilmente resultar em algo estranho, principalmente porque as identidades visuais das duas franquias são bastante diferentes.
A Blizzard, porém, conseguiu transportar elementos do universo futurista para Santuário sem descaracterizar completamente a estética de Diablo.
Os cosméticos inspirados nos personagens de Overwatch são naturalmente o elemento mais chamativo, mas a colaboração também conta com eventos, recompensas temáticas e desafios temporários que ajudam a criar a sensação de que existe algo diferente acontecendo durante a temporada.

Particularmente, ainda considero mais interessante quando Diablo utiliza elementos do próprio universo para construir suas temporadas. Mesmo assim, a colaboração funciona melhor do que eu esperava e consegue acrescentar personalidade ao calendário sazonal sem interferir diretamente na estrutura principal do jogo.
O grande acerto da Temporada 14
Não acho que tudo tenha sido executado perfeitamente, mas porque existe uma diferença perceptível na maneira como a Blizzard parece estar encarando a evolução do jogo. Em vez de apostar exclusivamente em uma mecânica chamativa para servir como principal atração da temporada, o estúdio parece mais interessado em melhorar a experiência de quem passa dezenas ou centenas de horas dentro de Santuário.
Essa intenção aparece na progressão, na construção das builds, nas novas atividades, no endgame e até nos pequenos ajustes que tornam a rotina mais confortável.
O mais interessante é que muitas dessas mudanças não parecem revolucionárias quando analisadas individualmente. O valor está no conjunto. Uma progressão menos burocrática, uma atividade com mais possibilidades de escolha, sistemas que permanecem relevantes por mais tempo e melhorias de qualidade de vida acabam criando uma experiência mais coesa.
Isso não significa que Despertar da Morte seja uma temporada perfeita. A narrativa do Culto da Morte cumpre sua função, mas dificilmente será lembrada como uma das histórias mais marcantes de Diablo IV.
Em alguns momentos, fica evidente que a trama existe principalmente para justificar as novas atividades e conduzir o jogador pelos sistemas da temporada. Depois das primeiras horas, parte da campanha volta a utilizar objetivos bastante conhecidos da franquia, como eliminar determinados grupos de inimigos, coletar recursos e avançar até o próximo evento.
Não chega a ser um problema grave, porque esse tipo de atividade faz parte da própria estrutura de Diablo. Ainda assim, é justamente porque a temporada demonstra disposição para experimentar em outras áreas que essas missões tradicionais acabam chamando mais atenção.
Seria interessante ver a Blizzard aplicar essa mesma criatividade também à estrutura narrativa e aos objetivos das missões em temporadas futuras.
O balanceamento ainda será um desafio
O balanceamento das classes em Diablo IV também deve continuar entre os assuntos mais discutidos pela comunidade durante as próximas semanas. As alterações nos Únicos Míticos modificaram algumas construções tradicionais e determinadas combinações parecem ter encontrado uma vantagem considerável logo nos primeiros dias.
Isso está longe de ser uma novidade em Diablo. Toda temporada acaba revelando builds que se tornam extremamente eficientes depois que a comunidade começa a testar milhares de combinações.
A questão mais importante será observar a velocidade com que a Blizzard responde a essas descobertas.
Nos últimos ciclos, o estúdio demonstrou uma disposição maior para acompanhar o comportamento da comunidade e realizar ajustes sem necessariamente esperar uma grande atualização. Essa postura deixa o jogo mais dinâmico e evita que determinados problemas permaneçam durante meses.
Ainda existem habilidades e construções que parecem destoar bastante das demais, mas isso não chega a comprometer a diversão neste momento. O verdadeiro teste será descobrir como esse equilíbrio vai se comportar depois que a Temporada 14 estiver mais madura.
Diablo IV depois de tantas temporadas
Diablo IV passou por muitos altos e baixos desde seu lançamento. Algumas temporadas trouxeram ideias que pareciam experimentos, enquanto outras deram a impressão de simplesmente preencher o calendário até a chegada do próximo grande conteúdo.
Despertar da Morte transmite uma sensação diferente, existe aqui uma preocupação maior com a forma como o jogador utiliza seu tempo, com o ritmo da progressão e principalmente com a liberdade para experimentar diferentes maneiras de construir seu personagem.
É uma abordagem que não depende necessariamente de reinventar Diablo IV a cada temporada. Pelo contrário. A Temporada 14 mostra que existe muito valor em pegar sistemas que já funcionam, identificar onde estão os problemas e melhorar essas estruturas aos poucos, depois de tantas atualizações, essa maturidade faz diferença.

Stay Awhile and Listen. Apenas um aficionado por games, quadrinhos e filmes. Redator do Patobah

