Há algo diferente quando falamos de frio nos jogos e na vida. Para alguns, ele pode significar acolhimento, descanso e até mesmo a percepção do privilégio de se estar próximo a uma fonte de calor enquanto o mundo lá fora congela. E Deep Pixel Melancholy não só sabe disso, como também parece interessado em trabalhar no sentido para além do físico.

Porque aqui, o frio se torna desespero. O desespero de dias incapazes de encontrarem um fim, de rotinas que se repetem sem parar e caminhos, assim como conversas, que vão se repetir um dia após o outro.
O frio trabalhado nesse jogo, parece ser aquele não só capaz de gelar as mãos mas de congelar as horas. Parar completamente o tempo e esconder suas respostas por trás de uma geada violenta no fim da noite.
Esses e outros detalhes, foram oque me trouxeram aqui para agradecer ao time de desenvolvedores da ok/no pela oportunidade de jogar sua temo e aguardar, intrigado, para o lançamento de um curioso jogo previsto ainda para 2026.
A tempestade.
Iniciamos a demo sem muita explicação, parece mais um dia na vida de um trabalhador que ainda vamos começar a conhecer. Acordamos inclusive antes do despertador tocar, só para em alguns minutos acompanharmos o nosso protagonista ainda tentando convencer o próprio corpo a despertar para enfrentar o frio que parece ser o personagem principal, roubando nossa atenção do lado de fora da janela.
Existe desde o primeiro minuto dessa demo, uma sensação quase que de tristeza interminável e que aqui ganha a forma de uma neve que não para de cair lá fora. Os flocos esbranquiçados na janela parecem já antes mesmo de nos ser revelada a origem, estarem congelando por completo a nossa vontade de agir.
E é curioso perceber que essa ambientação já entrou dentro desse apartamento. Seja nos pensamentos ou nos trejeitos enquanto nos vestimos e falamos, iremos ver depois mais a frente o mesmo se repetir nos outros colegas de trabalho. Todos parecem igualmente abatidos, lidando seja com pessimismo ou sarcasmo frente a sensação do frio. A tristeza silenciosa que preenche os corredores e as ruas já tomadas pela neve.
É ai pra mim que mora a chave da experiência que Deep Pixel Melancholy me passou: a rotina. A rotina comprometida e encaixada em uma narrativa que exige atenção aos pequenos detalhes. O ritmo que aqui se vê desacelerando mais e mais, como se te obrigasse a participar da banal passagem de folhas na mesa do escritório, das notas do ambiente criadas a partir dos nossos pensamentos e opiniões ou nas luzes que não esboçam nenhuma reação enquanto caminhamos de volta pra casa.
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“No gods or kings. Just ducks.”
