Todos nós temos medos, ansiedades e frustrações que ficam presas em nossas mentes, muitas vezes guardadas na mais profunda escuridão dos pensamentos. Agora, imagine o horror que seria precisar enfrentar tudo isso de uma vez, estando preso na própria mente e sem conseguir chamar por ajuda ou sequer correr dos monstros e do medo. Comatose (Em Coma, na tradução do Inglês), desenvolvido pelo estúdio brasileiro Lucky Dart e publicado pela The Bueno Interactive, nos convida a encarar exatamente esse medo que reside no subconsciente.

HISTORIA/ENREDO
Laura é uma adolescente que vive uma vida até então normal. Certa noite, é convidada pela melhor amiga Bruna a ir em um encontro duplo. Depois de tanto a amiga insistir, Laura, que é antissocial, decide ir ao encontro e por lá, compra um maço de cigarro no bar mais próximo, a pedido de sua mãe. Porém, ao chegar encontra o bar fechado e vê de longe uma silhueta assustadora de um homem a observando. Ela tenta correr de volta para casa, mas é esfaqueada brutalmente diversas vezes.
A adolescente acorda em uma versão distorcida da cidade em que mora, com névoas cobrindo todos os lugares e tudo completamente silencioso e vazio, exceto por um cachorro que late para ela, parecendo querer mostrar algo. Após ela o seguir, chega até a própria casa, que também está vazia. Lá, ela encontra o seu diário e um mapa da cidade, e continua seguindo o cachorro pela cidade, até chegar em uma porta que emite um estranho brilho dourado. Ao passar pela porta, volta para o exato mesmo lugar em que acordou, só que dessa vez o cachorro não está mais lá, sendo possível apenas ouvir de longe o seu latido.
Ela decide percorrer novamente todo caminho até tentar novamente chegar na porta, que agora não está mais lá. Um orelhão toca ao fundo, é Eunice, a mãe de Laura, ao que parece conversando com um médico sobre o estado de saúde de Laura, que é grave. Laura percebe que está presa no pior lugar em que poderia estar: dentro de sua mente perturbada, onde seus maiores medos são mais fortes, e tudo com o que ela não queria lidar durante toda sua vida estava ali diante dela, sem que ela pudesse ignorar.
GAMEPLAY
Desde os primeiros segundos de gameplay é perceptível o quanto Comatose se inspira em obras clássicas do gênero Survival Horror, como nas franquias Resident Evil e Silent Hill. A névoa constante, a cidade como simbolização da mente, o funcionamento do mapa e do inventário, os inimigos e a arquitetura remetem a Silent Hill, com direito até a uma referência direta a Silent Hill 4 em uma porta trancada na casa da Laura. Resident Evil também marca presença, visível nas chaves com formatos de animais e cores (como a chave verde da serpente e a do olho) e em uma homenagem ao clássico puzzle da shotgun do primeiro RE.
A dificuldade é equilibrada e consegue desafiar o jogador, sem se tornar frustrante e chato depois de muito tempo de gameplay. É possível atacar e fugir dos inimigos sem frustrações excessivas. Além disso, a mecânica de melhorar armas utilizando peças de ferramentas espalhadas pelo mapa é um excelente atrativo. Caso você seja um jogador que gosta de explorar o mapa, também será recompensado com curativos, seringas e munição em caixas.

Os puzzles de Comatose, apesar de serem bem elaborados, duvidam demais da capacidade do jogador e acabam quase sempre entregando tudo de cara, em vez de estimular o pensamento lógico. O primeiro puzzle ocorre em um porão subterrâneo, onde precisei acender todas as velas com um isqueiro enquanto um monstro rastejava pelas sombras tentando apagá-las para me matar. Porém, foi um puzzle simples demais, bastou pegar o padrão de movimentação da criatura e correr para acender a última vela. Mas, mesmo sendo relativamente fácil, não chegou em nenhum momento a estragar a experiência. Destaco aqui os puzzles da estátua com as moedas, o do bar e o da shotgun já citado anteriormente.
Um detalhe que tornou a minha experiência com Comatose ainda mais especial foi ter acompanhado durante meses o processo de criação do jogo pelo canal do Leozera no YouTube. Ver de perto todos os perrengues (e foram muitos) e o esforço dedicado para dar vida a esse projeto, me fez criar um apego muito maior pela obra. Fico genuinamente feliz em ver que ele finalmente conseguiu lançar o jogo, provando, mais uma vez, a força do cenário de desenvolvimento independente no Brasil e o crescimento exponencial que esse mercado vem tendo.
Comatose lança em acesso antecipado, tendo apenas o primeiro capítulo disponível, e sendo possível terminar em média em 3 horas. Os demais capítulos serão lançados no prazo de até 6 meses (de acordo com o próprio dev). O jogo também não conta com conquistas, que provavelmente serão adicionadas na versão 1.0, junto de melhorias como balanceamento, performance, novos inimigos e novos ambientes.

Em relação à estabilidade e problemas técnicos, a minha experiência com Comatose foi surpreendentemente fluida. Durante todo o meu tempo de jogo, não presenciei absolutamente nenhum bug. No entanto, é importante destacar que, ao acompanhar as discussões na Steam, notei que essa não foi a realidade de todos os usuários. Muitos jogadores relataram ter sofrido com bugs de progressão críticos que os impediam de avançar na história, além de outras falhas menores que, em conjunto, acabam atrapalhando bastante a imersão e a experiência geral com o título. Porém, vi também que o Dev já está corrigindo a grande maioria desses problemas e está trabalhando para ajudar todos que foram prejudicados.
DIREÇÃO DE ARTE/SOM
Uma das maiores características de Comatose é o estilo de PSX, que ganhou muito destaque nos últimos anos, sendo popularizado pela Puppet Combo. Particularmente, é um estilo que adoro e que traz uma sensação única para os jogos, principalmente os que focam no horror.
É nítido o quanto de carinho foi colocado no desenvolvimento deste jogo, mesmo tendo um estilo que exige bem menos trabalho, tudo aqui é bem esmerado e feito harmoniosamente, com todos elementos combinando entre si. Os monstros são grotescos, o ambiente é escuro e sujo, com sangue, terra e ferrugem espalhados por toda a cidade.

As animações possuem um efeito que dá a sensação de estar em stop motion, devido ao baixo fps em que são feitas, e também têm referências ao Brasil, como quando a Laura utiliza um kit-médico e passa um Merthiolate no braço. Ademais, as animações de recargas de munição, da movimentação, dos inimigos, da seringa, tudo é muito bem polido, o que torna o jogo ainda mais satisfatório.
A safe room do jogo também merece destaque, é um dos grandes acertos de design. O ambiente traz uma música incrivelmente tranquila, com o som relaxante da chuva batendo do lado de fora e a luz azul do computador iluminando o quarto transmitindo paz. É um pequeno refúgio que acalma a alma e nos faz esquecer de qualquer problema.
A ambientação é maravilhosa. O fato de o jogo se passar no Brasil traz uma proximidade imensa. Diversas vezes durante a jogatina vi similaridades com locais, casas e ruas que já frequentei, o que causa uma agradável e um tanto macabra sensação de nostalgia. Além disso, objetos que não deveriam estar ali, como macas de hospital espalhadas pelos cenários, também surgem constantemente para simbolizar e nos lembrar do coma da protagonista.
O design de som do jogo é satisfatório e consegue cumprir o seu papel com êxito. Algo que me chamou atenção durante minha experiência foram os momentos em que a Laura ficava com o coração acelerado e a respiração ofegante, conseguindo me deixar tenso durante quase todos os momentos do jogo, principalmente quando o Porco estava me perseguindo em locais fechados e escuros. A parte mais fraca são os sons dos tiros, que achei limitados e que não trouxe a sensação de realmente estar atirando com uma pistola ou shotgun. Mas, de novo, nada que realmente me atrapalhou durante o jogo.
A trilha sonora é maravilhosa, desde a música do menu até o fim do jogo. Cada composição se encaixa de maneira orgânica na premissa do jogo, cumprindo com excelência o papel de intensificar a atmosfera densa e o foco no horror psicológico que a trama exige.
CONCLUSÃO
Presenciar produções brasileiras como Comatose ganhando forma com tamanho nível de polimento e dedicação é algo genuinamente recompensador. O jogo consolida uma base incrivelmente robusta ao unir um terror psicológico denso a mecânicas nostálgicas que respeitam as raízes do gênero. O que temos em mãos é um vislumbre brilhante do potencial da obra. Se os futuros capítulos mantiverem o nível deste ato inicial, Comatose terá tudo para se consagrar como um título obrigatório para qualquer fã do survival horror clássico.
PONTOS FORTES
- Direção de Arte Única: Gráficos estilo PSX bem trabalhados, com animações que complementam a atmosfera.
- Ambientação Brasileira: Cenários nostálgicos e imersivos que conectam o jogador à obra.
- Design de Som Aflitivo: A música dinâmica e a respiração ofegante da protagonista tornam as perseguições genuinamente tensas.
- Referências aos Clássicos: Homenagens bem dosadas e respeitosas a Resident Evil e Silent Hill.
- Safe Rooms: O contraste de calmaria no meio do caos foi brilhantemente executado.
PONTOS FRACOS
- Falta de Conquistas: A ausência de um sistema de achievements na Steam faz um pouco de falta para quem gosta do fator “completista” (embora seja perdoável por estar em acesso antecipado).
- Conteúdo Limitado: Como se trata do acesso antecipado, apenas o primeiro capítulo está finalizado, deixando aquele gostinho de “quero mais” prematuro.
- Excesso de Explicação nos Puzzles: O jogo às vezes subestima a intuição do jogador, entregando dicas muito diretas dos quebra-cabeças. Isso acaba diminuindo aquele sentimento de recompensa ao descobrir a solução por conta própria.
- Sons de Tiro: Embora o áudio ambiental e de tensão seja fantástico, os efeitos sonoros das armas de fogo carecem de impacto. Os disparos soam um pouco abafados e sem o peso necessário para transmitir a urgência e o desespero do combate.
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Gosto de registrar minhas jogatinas escrevendo reviews e tirando fotos dos jogos. Meus jogos favoritos são Grim Fandango e Dark Souls II.
