Boa Leitura!

CANNES 2026

CANNES 2026

Antes de qualquer coisa, gostaria de iniciar agradecendo imensamente aos amigos do Patonerd pela oportunidade de cobrir e comentar um pouco mais sobre o que foi o Festival de Cannes 2026. Um evento que, honestamente, parece ter ocupado um lugar bastante singular dentro do imaginário dos últimos anos do festival, não apenas pela seleção de filmes apresentados, mas também pela forma como foram recebidos tanto pela indústria quanto pelo público mais entusiasta.

Cannes deste ano foi bem diferente do que vinha sendo nos últimos. E talvez o mais curioso e também difícil, seja encontrar a razão do por quê disso.

Em meio a uma edição marcada por expectativas altas, alto investimento, debates intensos e um interesse renovado em alguns dos profissionais que voltam a dar as caras, chamou atenção a forma como alguns dos principais filmes exibidos no festival, passaram a imediatamente ocupar discussões boas ou ruins, mas muito maiores e menos previsíveis do que poderia se esperar.

Muito disso, claro, merecia uma discussão mais aprofundada, algo que eu tentarei desenvolver melhor ao longo do texto. Mas, neste primeiro momento, a proposta é mais direta: apresentar os principais filmes exibidos no festival, seus realizadores e suas propostas. Porque antes de uma opinião, polêmica ou disputa por prêmios, eu pretendo ser apenas um guia do que Cannes 2026 quis mostrar ao mundo.

OS FILMES QUE ESTIVERAM COMPETINDO

Nome do filme: AMARGA NAVIDAD Diretor(a): Pedro ALMODÓVAR.

Comentário geral: Foi apontado como um filme no qual o diretor parece atravessar uma fase mais reflexiva em comparação aos seus trabalhos mais recentes. O filme, inclusive, transmite isso ao receber elogios pela forte presença da personalidade criativa empregada no roteiro e na construção de seus personagens, reforçando assim a identidade autoral que continua sendo uma das maiores marcas do diretor.

Nome do filme: COWARD. Diretor(a): Lukas DHONT.

Comentário geral: Foi bastante elogiada a atenção com que o diretor observa a realidade dos seus personagens, especialmente na construção da percepção de vulnerabilidade mediante as transformações ao longo da história. Outro ponto semelhante de forte destaque, foi a transição gradual dos pensamentos e da percepção de realidade do protagonista diante a brutalidade da guerra.

Nome do filme: THE DREAMED ADVENTURE. Diretor(a): Valeska GRISEBACH.

Comentário geral: Existe uma percepção comum entre as críticas que podemos ler, sobre uma certa insatisfação comum com algumas das decisões tomadas ao longo do enredo do filme. Mas ainda assim, em igual peso, lemos também elogios pela maneira como a diretora desafia o público e cuidadosamente empregando tempo e desenvolvimento para a construção da sua protagonista.

Nome do filme: EL SER QUERIDO Diretor(a): Rodrigo SOROGOYEN

Comentário geral: Os elogios mais recorrentes são principalmente sobre a força das atuações. Além também de comentários pontuais sobre a curiosa sensação de familiaridade que a obra causa, trazendo a tona sentimentos semelhantes aos provocados por Valor Sentimental, um dos grandes sucessos do ano passado.

Nome do filme: FATHERLAND Diretor(a): Pawel PAWLIKOWSKI

Comentário geral: Elogiado pelo seu forte peso social e pela forma como aborda a política, o filme foi um dos mais comentados de Cannes 2026. Para as críticas, destaco a forma como o filme parece ampliar o alcance dos seus temas e reforçar a sua relevância apartir do circuito do festival.

Nome do filme: FJORD Diretor(a): Cristian MUNGIU

Comentário geral: Esse é um dos vários que carrega o mérito de ter dominado, mesmo que por algum tempo apenas, as conversas em torno de Cannes 2026. Ele está cercado de expectativas consideráveis de tentar também conquistar a opinião pública quando estiver disponível para todos.

A forma como a direção articula temas como violência, choque entre culturas, presença do Estado e os desafios ligados à criação de crianças, foram alguns dos pontos elogiados desse filme.

Ainda assim, a recepção não foi unânime. Há em mesmo peso, parte das críticas apontando uma insatisfação com a forma como a história é concluída. Portanto, vamos esperar para ver a recepção do público geral.

Nome do filme: GARRANCE Diretor(a): Jeanne HERRY

Comentário geral: A proposta parece ser discutir o alcoolismo, mas também sobre a fina linha tênue entre possuir ou não controle sobre as próprias ações e suas consequências, recompensas ou destruições.

Ainda assim, a recepção não foi completamente boa. Parte das críticas destaca certa insatisfação com a forma como o filme usa certos artifícios, supostamente de forma forçada para tentar impedir conclusões mais rápidas.

Nome do filme: GENTLE MONSTER Diretor(a): Marie KREUTZER

Comentário geral: Foi frequentemente apontado como um dos projetos mais ambiciosos da carreira da Léa Seydoux, que aqui ocupa o papel principal e concentra boa parte dos elogios desse filme. Grande parte da crítica destaca a força da entrega dela e o seu papel como eixo emocional do filme.

Ainda assim, a recepção pareceu dividida. Porque embora exista reconhecimento para o talento da Léa, parte das críticas aponta certa frustração com a forma da estrutura desse filme, especialmente no desenvolvimento e desfecho da história.

Nome do filme: THE BIRTHDAY PARTY Diretor(a): Léa MYSIUS

Comentário geral: A proposta central foi elogiada por parte da crítica, no entanto a recepção em torno da execução nem tanto. Durante o festival, também houveram notícias sobre vaias e parte dos comentários aponta frustração com a tentativa do filme de se consolidar como um thriller de grande impacto.

Nome do filme: PARALLEL TALES Diretor(a): Asghar FARHADI

Comentário geral: Vem sendo apontado por uma parte da crítica como um dos trabalhos mais fracos da carreira do diretor, especialmente quando posto lado a lado com obras anteriores. Entre os comentários mais recorrentes, alguns falam do sentimento de distanciamento em relação ao enredo, tido como vago ou pouco envolvente por parte das críticas mais incisivas.

Havia muita expectativa em torno desse trabalho.

Nome do filme: HOPE Diretor(a): NA Hong-Jin

Comentário geral: Oque infelizmente tomou conta dos comentários públicos dessa exibição de HOPE em Cannes, foi uma polêmica considerada desnecessária e possivelmente evitável, relacionada à versão exibida durante o festival. Onde parte dos comentários apontava para uma sensação de estar vendo um trabalho incompleto, no que se refere aos efeitos visuais apresentados nesse corte de Cannes.

Isso acabou ofuscando comentários maiores sobre o enredo e as atuações. A sensação que passa é de urgência para que isso seja resolvido até a entrega da versão disponibilizada para os cinemas

Nome do filme: THE UNKNOWN Diretor(a): Arthur HARARI

Comentário geral: O filme foi elogiado por dialogar muito bem com a “proposta de Cannes”, especialmente por sua tentativa em construir um visual chamativo e uma narrativa ambiciosa.

Nome do filme: LA BOLA NEGRA Diretor(a): Javier CALVO, Javier AMBROSSI

Comentário geral: O filme se consolidou como uma das surpresas desta edição do festival, invocando tanto críticas positivas quanto negativas. Recebeu elogios mas também está sendo alvo de discussões em torno da forma como aborda o período da ditadura franquista.

Nome do filme: MINOTAUR Diretor(a): Andrei ZVIAGUINTSEV

Comentário geral: O filme recebeu elogios pelo tom crítico com que constrói o drama política da sua história, ao mesmo tempo que estabelece um suspense ambientado sob o pano de fundo da guerra russo-ucraniana. Inevitavelmente, porém, acabou atraindo para si comentários que ultrapassam os limites do próprio filme.

Concentrando sob si, polêmicas políticas de contexto contemporâneo.

Nome do filme: MOULIN Diretor(a): László NEMES

Comentário geral: O filme vem sendo elogiado pela maneira cuidadosa com que representa o papel da resistência diante dos medos e sacrifícios impostos em um território que naquele período se via ocupado.

Outro ponto de elogio também está na condução do diretor, que, mesmo tendo espaço para recorrer a maiores liberdades criativas ou preencher lacunas histórias que não tem respostas, com sua própria interpretação. Ainda assim ele opta por uma abordagem mais contida e respeitosa. Onde ao invés de dramatizar excessivamente ou inventar acontecimentos, ele está comprometido em preservar a fidelidade enquanto mantém respeito pela complexidade e pelo peso humano do período.

Nome do filme: NAGI NOTES Diretor(a): FUKADA Koji

Comentário geral: O filme recebeu elogios por sua fotografia e por algumas sequências específicas que parecem concentrar a força de sua estética. Ainda assim, a recepção não parece ter alcançado um consenso sólido quanto a sua qualidade, dividindo assim as opiniões.

Nome do filme: A MAN OF HIS TIME Diretor(a): Emmanuel MARRE

Comentário geral: O filme acompanha o papel de um burocrata de uma França ocupada, usando isso para iniciar o ponto de vista das tensões morais, políticas e humanas do período.

Ainda assim, a recepção acabou dividindo opiniões. Parte das críticas está na forma como o diretor escolheu abordar a trajetória, enquanto outros comentários também reclamavam da forma como ele transitava entre os períodos históricos usando saltos temporais.

Nome do filme: PAPER TIGER Diretor(a): James GRAY

Comentário geral: Vem recebendo elogios pela atuação de Adam Driver no papel principal, tido por alguns como o melhor dos seus trabalhos recentes. Ainda assim, teve uma recepção mista com parte das críticas demonstrando insatisfação pela condução de alguns personagens, sobretudo figuras femininas que poderiam ter sido “melhor desenvolvidas”.

Nome do filme: SHEEP IN THE BOX Diretor(a): KOREEDA Hirokazu

Comentário geral: A proposta do filme de substituir pessoas falecidas por robôs, acabou sendo frustrante para alguns críticos visto que os comentários apontam que o filme não consegue conduzir o peso emocional da sua proposta, especialmente quando comparado a outros filmes que partem do mesmo ponto.

Nome do filme: ALL OF SUDDEN Diretor(a): HAMAGUCHI Ryusuke

Comentário geral: O filme foi muito elogiado durante o festival, ele acompanha a trajetória de uma mulher que trabalha em uma casa de repousos, profundamente dedicada e apaixonada pelo que faz. No entanto, quando a vocação vem a passar por dilemas envolvendo produtividade, tempo, dinheiro e eficiência, o filme ganha outra rota.

A trama vai se expandir através das novas conexões e relações pessoais que a protagonista vai vir a ter e é exatamente ai que os maiores destaques e elogios do filme, estão. Nesse peso e força emocional que ele carrega.

Nome do filme: THE MAN I LOVE Diretor(a): Ira SACHIS

Comentário geral: O filme acabou ficando marcado, para o bem e para o mal, pela presença de Rami Malek no papel principal, cuja atuação e forte presença inevitavelmente passaram a concentrar boa parte das discussões em torno do filme.

E ainda que a trama pareça trabalhar temas sensíveis ligados a medos, inseguranças e vulnerabilidades humanas de maneira bem feita, ainda assim as críticas apontam justamente que a condução visual gerou estranhamento ou pelo menos foi percebida como questionável.

VISÃO GERAL DO EVENTO

Cannes 2026 deixa uma impressão diferente e em certa medida, contraditória. Porque se para parte do público e da crítica, essa edição foi marcada por uma seleção de filmes considerada questionável, chegando a ser apontada por alguns como decepcionante quando comparada ao peso simbólico e artístico de anos anteriores.

Há também a visão de que isso possa ter sido ocasionado pelo não alcance do mesmo entusiasmo e sensação de descoberta de outras edições.

Essa impressão de alguma forma parece ter sido refletida e percebida, através do clima do evento. Comparativamente tendo sido relatado um fluxo menor de pessoas comentada em algumas matérias e coberturas produzidas ao longo do festival.

Essa discussão paralela e a fragilidade provocada, acabam abrindo margem para por exemplo: uma cobertura midiática desnecessária em torno das vaias. Onde redes sociais e parte do debate online são levados a se interessarem por contabilizar minutos de aplausos ou tentar contar quantas vaias tivemos, quase que tornando o festival em um estudo de métricas.

O resultado disso, para muitos, acaba sendo a perda de foco do que é o objetivo principal de Cannes. Em vez da conversa se focar nos filmes, ela é sequestrada artificialmente por números e reações.

Cannes 2026 teve sim boas surpresas, filmes interessantes e roteiros que merecem a sua atenção. Mas no ar e na impressão da edição, acabou ficando pintada esse montante de frustrações e polêmicas que podem sim, impactar edições futuras.

AGRADECIMENTOS

Antes de encerrar, gostaria de agradecer mais uma vez à equipe da Patonerd pela oportunidade e confiança em me permitir acompanhar e comentar um pouco mais sobre o que foi Cannes em 2026. Poder contribuir, assistir e compartilhar minhas impressões de um evento tão importante, foi uma honra.

Deixo também o convite para que você leitor continue acompanhando o trabalho da equipe do Patonerd, que segue com uma cobertura dedicada sobre lançamentos, festivais e cinema de forma geral, sempre abrindo espaço para discussão e curiosidade sobre essa paixão comum.

Muito obrigado pela companhia e por ter lido. E que venham os próximos festivais!

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