Quando penso em Battlestar Galactica, logo imagino o potencial para um baita jogo de ficção científica. Na geração atual, os videogames seriam a mídia perfeita para fazer jus à sua grandiosidade, seja pelo orçamento disponível para o gênero ou pelo tempo que a interatividade oferece para o desenvolvimento de personagens.

Por isso, ao receber a chave de Scattered Hopes, fiquei intrigado. Visualmente, ele remete a jogos de turno complexos, focados em exploração e guerras espaciais, mas com elementos rogue. É uma combinação peculiar, que pode até afastar alguns de primeira, mas já adianto: em vários detalhes ele me surpreendeu. A experiência entrega algo bem diferente do que aparenta e pode trazer boas surpresas.
Um breve contexto sobre Battlestar Galactica
Antes de falarmos sobre o game em si, preciso comentar mais sobre Battlestar, pois sinto que não é um título tão popular no Brasil. Para que você entenda as críticas que farei adiante, é preciso compreender a dimensão e o peso que a franquia representa para a ficção científica na televisão.
Battlestar Galactica é um remake da série dos anos 1970. O primeiro episódio dessa nova versão chegou em 2004*, numa era de ouro da TV dominada por The Sopranos, The Wire e Deadwood — obras que trouxeram dramas sérios, adultos, com narrativas longas e valores de produção que até hoje são referências de qualidade. Em The Sopranos, por exemplo, o protagonista passava longe do padrão heroico das décadas anteriores; Tony Soprano era um personagem cheio de defeitos, que fazia sessões de terapia. Por mais simples que esses detalhes pareçam hoje (já que viraram o “novo normal” em séries dramáticas), na época era algo revolucionário.
O que Battlestar Galactica fez foi algo que ninguém havia conseguido antes: trazer esse padrão de qualidade “de prestígio” para o sci-fi televisivo. Outros tentaram. Babylon 5 tinha os temas, mas faltava orçamento. Star Trek flertou com isso em Deep Space Nine, mas o legado intocável de Gene Roddenberry nunca permitiu que a série mergulhasse de verdade em territórios mais sombrios de sexo, morte e política. Battlestar Galactica foi lá e chutou a porta.
Anti-heróis, traições, personagens em tons de cinza que se perdiam pelo caminho, maquinações políticas, religião e dilemas morais sem resposta fácil: tudo era jogado no colo do espectador com coragem e maturidade. A ambientação também acertava em cheio ao transmitir o peso real de cada impacto. Você sentia o desgaste, a escassez de recursos e a pura agonia da sobrevivência ao limite.
Depois desse divisor de águas, que durou quatro temporadas, o cenário das produções televisivas de ficção científica expandiu absurdamente, e é difícil não creditar uma parcela disso ao impacto de BSG.
Mesmo que você não conheça a série original, agora já tem uma noção do que ela representa. Com esse contexto em mente, as falhas do jogo farão muito mais sentido.
*Lembrando que o retorno exato foi em 2 episódios (com quase 4 horas de duração total) lançados em 2003 como uma espécie de filme/piloto para o ano seguinte, porém considero em minha opinião o lançamento das temporadas a causa do impacto na mídia que explico no decorrer do tópico.
Qual é a de Scattered Hopes?
O título se trata de um roguelite de estratégia e gerenciamento de recursos. Nele, você comanda a nave capitânia de uma facção escolhida inicialmente, liderando uma frota de civis que vai resgatando pelo caminho. O objetivo principal é fugir dos setores controlados pelos Cylons — os grandes vilões da obra — e alcançar os reforços aliados.

A estrutura consiste em gerenciar recursos, escolher o próximo setor no mapa e batalhar contra as naves inimigas. Nas batalhas, você não é obrigado a destruir todo mundo, mas sim a resistir por um tempo determinado.
Em Scattered Hopes, o loop se divide em duas partes:
- > Fase de Gerenciamento: Entre as batalhas, você administra recursos, evolui a tripulação designando-os para funções, lida com crises locais, fortalece as naves e tenta investigar quem é o Cylon infiltrado na equipe. (Isso não é spoiler, já que acontece em absolutamente toda jogada como algo roteirizado, bem simples e sem profundidade).
- > Combate Espacial: Aqui o jogo vira quase um RPG tático. Você pode pausar o gameplay a qualquer momento para analisar o mapa e prever o direcionamento dos ataques inimigos — algo super divertido que permite elaborar estratégias refinadas. Porém, as ações só acontecem quando você despausa o jogo, de forma bem semelhante ao sistema de Dragon Age. O objetivo é segurar a pressão dos Cylons até que o motor de salto (FTL) carregue para te levar ao próximo mapa, repetindo o ciclo.
Quer entender melhor a diferença de roguelike e roguelite? Confira no vídeo:
O Gameplay: Tensão na medida certa, mas com prazo de validade
Você não vai encontrar aqui um jogo de estratégia travado, cheio de submenus que te obrigam a passar horas em um tutorial para aprender o básico. Isso é um ponto positivo: por mais que aparente complexidade, o ritmo é direto. Mas não confunda simplicidade com falta de profundidade: você ainda precisa entender como cada nave auxilia no combate, quais defesas são mais efetivas, como gerenciar os recursos escassos e como mitigar as crises. O desafio te prende bem por algumas horas.
A pausa tática é sua melhor amiga e o jogo te dá total liberdade para usá-la. A tensão constante de segurar os Cylons enquanto o motor carrega faz com que dois minutos pareçam uma eternidade — da melhor forma possível. É divertido, tenso e fácil de pegar o jeito.

O gerenciamento é o coração do jogo e funciona muito bem nas primeiras tentativas (runs). Cada setor parece um episódio inédito da série de TV. Você tem ações limitadas para resolver problemas, coletar suprimentos, treinar a tripulação e investigar traidores antes que a frota Cylon te alcance. A sensação de corrida contra o tempo é palpável.
O problema surge após algumas jogatinas. A mecânica rogue depende intrinsecamente da repetição e da constância. Você vai perder, ganhar e recomeçar. Para esse ciclo funcionar a longo prazo, o jogo precisa de incentivos fortes, caso contrário, o cansaço bate. E é justamente aqui que Scattered Hopes peca: as crises começam a se repetir excessivamente, sem trazer novidades mecânicas ou narrativas que justifiquem novas partidas.
Olhando para o material de origem e o nome que o jogo carrega, a desenvolvedora poderia ter explorado muito mais a história. Daria para expandir os tripulantes além dos eventos de crise, trazendo diálogos inéditos e nuances a cada nova tentativa, como os melhores roguelikes do mercado fazem hoje (alô, Hades).
A investigação do Cylon infiltrado, que deveria ser o ápice da paranoia de cada partida, é rasa e sem graça. Falta carisma e desenvolvimento; você não se apega a nenhum membro da tripulação, o que esvazia o peso da traição. É uma pena, pois a série é a maior referência possível de tensão, paranoia e drama político. O jogo apenas flerta com isso de forma superficial. As investigações viram um processo de eliminação previsível, estilo paredão de reality show, que logo te faz querer pular os textos para voltar logo ao combate.
Para piorar, o jogo não está localizado em português. Se o idioma for uma barreira para você, a experiência fica ainda mais capenga, reduzindo o título a um mero simulador de recursos e batalhas no espaço.

Com poucas horas, os eventos se repetem, o fator surpresa desaparece e o sistema de facções — que deveria dar peso político às escolhas — se mostra super superficial: uma barra onde o “Sim” ou “Não” apenas empurram um ponteiro para os lados, sem as consequências reais de uma narrativa madura.
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Criador do canal Toca Du Corvo

