Quando comecei Banishers: Ghosts of New Eden há algumas semanas atrás, esperava encontrar apenas mais um RPG de ação inspirado pelos grandes nomes do gênero. Mas o que encontrei foi algo muito mais interessante.

Essa nova obra da DON’T NOD, estúdio conhecido por jogos focados em narrativa, entrega uma aventura sobrenatural que mistura ação, investigação, escolhas morais e uma história de amor surpreendentemente madura.
Depois de concluir a campanha, fiquei com a clara sensação de ter jogado um daqueles títulos que talvez não tenham recebido toda a atenção que mereciam no lançamento, mas que possuem qualidades suficientes para marcar quem decide embarcar nessa jornada.
AMOR, MORTE E SACRIFÍCIO
A trama acompanha Red mac Raith e Antea Duarte, dois Banishers, caçadores de espíritos encarregados de libertar pessoas de assombrações e maldições. Logo no início acontece uma tragédia que muda completamente o rumo da aventura e estabelece o principal conflito da narrativa.
O que mais me impressionou foi a forma como o jogo desenvolve a relação entre os protagonistas. Red e Antea não parecem personagens criados apenas para mover a história adiante. Eles possuem química, conflitos, inseguranças e momentos de carinho que tornam tudo muito mais humano.

A escrita é facilmente o maior destaque do jogo. Cada caso sobrenatural que investiguei parecia uma pequena história própria. Muitas vezes eu chegava esperando encontrar um vilão óbvio e acabava descobrindo situações muito mais complexas. O jogo constantemente me obrigou a decidir quem merecia perdão, punição ou redenção.
Poucos RPGs recentes conseguiram me fazer parar por alguns minutos olhando para a tela antes de tomar uma decisão. Banishers conseguiu isso várias vezes. Você se envolve em cada história e percebe como os humanos erram mesmo tentando acertar.

PARTINDO PARA O JOGO
A estrutura do jogo gira em torno de exploração, diálogos, investigações e batalhas contra criaturas sobrenaturais.
Grande parte da minha diversão em Banishers: Ghosts of New Eden veio da forma como o jogo utiliza seus dois protagonistas. Red e Antea não são apenas personagens diferentes na história, eles possuem funções distintas durante a jogabilidade, e aprender a combinar suas habilidades é fundamental para aproveitar o sistema de combate.
Red atua como o combatente físico da dupla. Ao longo da campanha, utilizei principalmente sua espada e seu rifle espiritual. A espada oferece golpes rápidos e eficientes para confrontos corpo a corpo, enquanto o rifle permite atingir inimigos à distância e explorar fraquezas específicas dos adversários. Existe também um sistema de equipamentos e melhorias que possibilita personalizar parte do estilo de luta, seja aumentando dano, resistência ou efeitos especiais.
Já Antea representa o lado sobrenatural da experiência. Como espírito, ela utiliza poderes espectrais capazes de causar dano massivo, interromper ataques inimigos e explorar pontos vulneráveis que Red sozinho não conseguiria alcançar. Durante as batalhas, alternar constantemente entre os dois personagens se torna algo natural, criando um ritmo interessante que impede o combate de parecer um simples festival de apertar botões.
A árvore de habilidades também merece destaque. Conforme avancei pela história, desbloqueei novas técnicas para ambos os personagens, permitindo criar combinações mais eficientes. Algumas habilidades fortalecem os ataques físicos de Red, enquanto outras ampliam o potencial espiritual de Antea. Há ainda melhorias focadas em controle de multidões, recuperação de recursos e aumento de dano contra determinados tipos de inimigos.
Os poderes sobrenaturais de Antea também desempenham papel importante fora das batalhas. Durante as investigações, utilizei suas capacidades para enxergar vestígios espirituais, acessar memórias ocultas e encontrar pistas invisíveis aos olhos de pessoas comuns. Isso ajuda a integrar narrativa e gameplay de maneira bastante natural.
Nos primeiros capítulos eu gostei bastante do sistema de combate. Existe uma boa sensação nos golpes, os poderes são visualmente interessantes e a troca entre os dois personagens adiciona variedade às batalhas.
Nem tudo é perfeito. Apesar da boa quantidade de habilidades disponíveis, o combate começa a revelar certa repetição nas horas finais da campanha. Depois de desbloquear boa parte das técnicas principais, senti que as batalhas deixaram de apresentar novidades na mesma velocidade que a narrativa. Os inimigos variam menos do que eu gostaria, e isso acaba limitando parte do potencial do sistema geral de habilidades.

Ainda assim, eu não diria que o combate é ruim. Longe disso. Ele simplesmente não evolui na mesma velocidade que a narrativa. Mas convenhamos, é quase impossível competir com essa narrativa.
As investigações, por outro lado, foram uma surpresa extremamente positiva. Vasculhar ambientes em busca de pistas, conversar com personagens e montar o quebra-cabeça de cada assombração foi algo que manteve meu interesse do início ao fim. Você realmente se envolve.
Visualmente, Banishers talvez não seja o RPG mais impressionante da geração, mas sua direção de arte compensa boa parte das limitações técnicas.
A ambientação colonial de New Eden cria uma atmosfera melancólica que combina perfeitamente com o tema sobrenatural. Florestas densas, vilarejos abandonados, cemitérios e construções decadentes ajudam a construir um mundo constantemente envolto por uma sensação de tristeza e mistério que faz total sentido com os eventos da narrativa.

A trilha sonora também merece elogios. Ela sabe exatamente quando ficar em segundo plano e quando assumir o protagonismo para reforçar os momentos emocionais.
Outro ponto que me conquistou foi a atuação dos personagens. As performances de Red e Antea carregam boa parte do peso dramático da narrativa e ajudam a vender cada momento importante da campanha.
PERFEITO? NÃO PRECISA SER
Apesar de ter gostado muito (muito mesmo) do jogo, alguns problemas ficaram evidentes.
A exploração às vezes sofre com excesso de idas e vindas. Em determinados momentos senti que o jogo prolongava certas atividades mais do que deveria. Algumas áreas poderiam ser mais compactas e objetivas.
Também encontrei pequenos problemas técnicos e animações que não estão exatamente no mesmo nível dos grandes blockbusters da indústria. Nada que tenha arruinado minha experiência, mas são limitações perceptíveis.
Outro detalhe é que algumas escolhas passam a sensação de serem mais impactantes do que realmente são. Embora o sistema de decisões funcione muito bem na narrativa, em certos momentos eu gostaria de ver consequências ainda mais profundas em elementos da jogabilidade.
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