Boa Leitura!

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 | PC Review

Sobram demônios, falta juízo e o Brasil precisa ser salvo. Mais uma vez.

Tem jogo que nasce de uma grande ideia. Tem jogo que nasce de um sonho. E tem jogo que aparentemente nasceu depois de alguém passar tempo demais na internet brasileira e pensar: “E se eu colocasse um portal pro inferno numa favela, armas de feijoada e o Ronaldo no meio dessa desgraça toda?

Aviãozinho
Obrigado, JF!

Assim chegamos a AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4: SOBRARAM DEMONIOS DO PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA QUE ABRI E AGORA TENHO QUE SALVAR OS MAMADAS DO RONALDO. Sim, esse é o nome completo. Não é uma sinopse, não é uma descrição da história e muito menos um pedido de socorro. É o título do jogo. Um título tão grande que, se você falar ele inteiro em voz alta, provavelmente já desbloqueia uma conquista chamada “Fôlego de Atleta”. Só de copiar e colar você já gastou energia suficiente para enfrentar um demônio.

Desenvolvido por Joeveno, o game continua a proposta de Aviãozinho do Tráfico 3, lançado em 2025, misturando boomer shooter, humor shitpost e referências da cultura brasileira. A ideia é simples: pegar a fórmula de jogos como Quake, colocar uma quantidade absurda de brasilidade no meio e ver até onde essa mistura consegue chegar. E olha, a mistura vai longe mesmo. Vai tão longe que passa pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, inferno e até o céu. É praticamente um pacote turístico completo, só que no lugar de praia, hotel e café da manhã, você recebe demônios, armas absurdas e a responsabilidade de salvar o Brasil. O turismo brasileiro nunca esteve tão preocupado com a presença de criaturas do inferno.

A história, como era de se esperar, não veio para disputar prêmio de roteiro. Os demônios capturaram os Mamadas, e agora cabe ao protagonista salvar essa galera enquanto enfrenta criaturas bizarras, torcedores possuídos e outros inimigos que parecem ter saído de um grupo de WhatsApp que foi abandonado pela sociedade. Ronaldo McDaleste também está no meio dessa confusão, tentando aproveitar a situação para seus esquemas de bets e conquistar o mundo. Porque aparentemente abrir um portal para o inferno não foi suficiente. O cidadão olhou para o caos e pensou: “Dá para ganhar dinheiro com isso”. É esse tipo de lógica que movimenta a aventura.

A narrativa existe para empurrar a maluquice de uma fase para outra, e sinceramente, é exatamente o que precisa fazer. Não espere grandes reviravoltas dramáticas, diálogos emocionantes ou aquele momento em que o protagonista olha para o horizonte e diz que tudo vai ficar bem. Aqui, se alguém olhar para o horizonte, provavelmente vai encontrar um demônio com camisa de futebol tentando te matar. E se não encontrar, pode ter certeza de que alguma outra coisa absurda está esperando logo atrás. O jogo não parece interessado em fazer você chorar com a história. Ele quer que você ria, atire e continue avançando para descobrir qual será a próxima maluquice. E, considerando o nome completo, acho que ninguém entrou aqui esperando um drama familiar.


Gameplay


É aqui que Aviãozinho do Tráfico Pré 4 começa a mostrar que não é só uma piada com um nome gigantesco. Por trás de toda essa bagunça existe um FPS de verdade, daqueles que não querem saber se você está preparado para o que vem pela frente. A proposta é bem conhecida para quem gosta de boomer shooters: andar rápido, atirar em tudo que se mexe, pular, desviar e continuar avançando como se tivesse alguém cobrando aluguel por segundo parado. O jogo utiliza a tecnologia id Tech 2, da família Quake, e aposta naquela ação mais direta, sem ficar inventando moda. É tiro, explosão e demônio querendo transformar sua vida em um inferno ainda maior.

Uma das novidades que mais chamam atenção é a presença do pulo duplo e do dash, duas habilidades que deixam a movimentação mais solta e dão outro ritmo para as fases. O pulo duplo não está aqui apenas para dizer que o personagem ficou moderno. Ele ajuda a alcançar plataformas, atravessar lugares mais altos e escapar de ataques que, em um jogo desses, normalmente chegam acompanhados de uma boa dose de desespero. Já o dash deixa tudo ainda mais rápido. Você corre, pula, dá aquele impulso e, quando percebe, está do outro lado da arena tentando entender como foi parar ali. É uma movimentação que combina com a proposta e deixa os combates mais dinâmicos, principalmente quando vários inimigos resolvem aparecer ao mesmo tempo.

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E olha, o jogo não quer que você fique escondido atrás de uma caixa esperando os demônios morrerem de tédio. A graça está em se movimentar o tempo todo. Você precisa correr, pular, desviar e encontrar uma maneira de continuar causando problemas antes que os problemas encontrem você. Quando começa a combinar o pulo duplo com o dash, a sensação é de estar jogando um FPS antigo que tomou energético, café e mais alguma coisa que não deveria ser misturada. Tudo acontece rápido, mas é justamente essa correria que faz a experiência funcionar. Parar no meio da arena pode ser a diferença entre continuar a campanha ou virar decoração de cenário.

O arsenal é uma das partes mais divertidas de Aviãozinho do Tráfico Pré 4, principalmente porque o jogo não tenta fingir que está criando armas militares realistas. Aqui, a criatividade parece ter recebido autorização para dirigir sem carteira. O título retorna com armas como a trinta e doze, as doze douradas, o Berimbau de cocos explosivos e o Orelhão da Tchau, mas também traz novas opções que parecem ter sido inventadas durante uma conversa de bar em que ninguém estava prestando atenção no que o outro dizia.

E quando você acha que já viu de tudo, aparecem chuveiros paulistas que dão choque, um chimarrão que funciona como lança-chamas, feijoada explosiva e garrafas de Gollys Guaraná usadas como armas. Sim, você leu certo. Enquanto outros jogos entregam rifles, pistolas e lança-foguetes, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 olha para a cozinha, para a sala de casa e para o boteco da esquina e pensa: “Dá para matar um demônio com isso aqui”. Se você sempre quis saber como seria enfrentar o inferno armado com comida brasileira e objetos que normalmente não deveriam estar envolvidos em uma guerra, o jogo decidiu responder essa pergunta da maneira mais irresponsável possível.

O mais interessante é que as armas não estão ali somente para fazer graça na descrição da Steam. Elas ajudam a construir a identidade do jogo. Você não está jogando mais um FPS retrô genérico em que todas as armas parecem ter saído do mesmo catálogo militar. Aqui, o arsenal tem personalidade, e isso faz diferença. É claro que em alguns momentos você olha para a tela e pensa: “Não é possível que alguém colocou isso no jogo”. Aí pega uma feijoada explosiva, acerta um demônio e percebe que, infelizmente, a ideia funciona. É ridículo? Com certeza. Mas é justamente esse tipo de ridículo que faz o jogo ter sua própria cara.

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E os inimigos também não ficaram de fora dessa festa. Além dos demônios, o jogo apresenta criaturas inspiradas em futebol, televisão, memes e outras referências brasileiras. Temos Fantasma da Série B, Xaropinhos e outros inimigos que parecem ter sido criados com o único objetivo de fazer o jogador parar por alguns segundos e perguntar: “Quem foi que teve essa ideia?”. A resposta provavelmente é Joeveno, mas eu prefiro acreditar que houve uma reunião com pelo menos três pessoas e alguém tentou impedir. Não conseguiu.

A campanha leva o jogador por diferentes regiões do Brasil e até lugares sobrenaturais. Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, inferno e céu fazem parte dessa viagem completamente fora do controle. A variedade de cenários ajuda a manter a aventura interessante, porque você não fica preso o tempo inteiro no mesmo tipo de ambiente. Uma hora está enfrentando inimigos em uma região brasileira, depois está no inferno e, quando percebe, já está no céu. É praticamente uma excursão turística, só que com armas, demônios e nenhuma possibilidade de pedir reembolso ao guia.

A construção das fases também parece ter recebido atenção, principalmente na questão da movimentação e da verticalidade. Os cenários trabalham melhor com plataformas e áreas em diferentes alturas, o que combina com o pulo duplo e o dash. Isso é importante em um boomer shooter, porque ninguém merece passar quinze minutos andando em círculos procurando uma porta enquanto um demônio está provavelmente rindo da sua cara. A movimentação precisa acompanhar o ritmo da ação, e aqui ela tem mais espaço para isso.

Mas existe um detalhe que vale mencionar: o caos visual pode atrapalhar a leitura da ação. Quando tem inimigo, arma, meme, som, explosão e mais um cidadão de moto aparecendo na tela, nem sempre fica fácil entender o que está acontecendo. A bagunça faz parte do charme, mas também pode atrapalhar a experiência em alguns momentos. É aquela situação em que você não sabe se está desviando de um ataque ou apenas tentando descobrir onde termina um objeto e começa o outro. Faz parte da viagem, mas não deixa de ser um problema.

O humor é outra parte importante do jogo, e aqui vale deixar claro que Aviãozinho do Tráfico Pré 4 não está tentando agradar todo mundo. A proposta é completamente baseada em shitpost, referências de internet, memes e aquela comédia de quinta série que parece ter sido preservada em um CD escrito “Jogos PC 2005”. Se você gosta desse tipo de humor, provavelmente vai rir de coisas que não deveriam ser engraçadas. Se não gosta, talvez olhe para a tela e pense que alguém precisa desligar o computador. E talvez precise mesmo.

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O problema é que algumas piadas podem cansar, principalmente quando o jogo coloca muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mas, por outro lado, essa falta de vergonha na cara é justamente o que dá personalidade ao projeto. Não é um jogo que tenta ser sério e acaba sendo engraçado sem querer. Ele sabe que é absurdo e vai até o fim nessa ideia. O resultado é uma experiência que pode ser divertida justamente porque não fica tentando explicar demais o que está fazendo. É um portal para o inferno, tem demônios, tem armas absurdas e tem o Ronaldo no meio. O que mais você precisa saber?

Por utilizar uma tecnologia antiga da família Quake, o jogo tem uma proposta técnica bastante leve. Isso não significa que qualquer computador vai entregar exatamente o mesmo resultado, mas mostra que o game não parece ter sido criado para fazer sua placa de vídeo trabalhar como se estivesse renderizando um filme da Pixar. É um FPS retrô, com uma tecnologia conhecida por ser leve, e isso combina com a proposta de entregar uma ação rápida sem exigir um computador absurdo para rodar.

A configuração de controles e resolução também parece estar mais amigável em comparação ao jogo anterior, com ajustes mais fáceis e uma experiência menos complicada para começar a jogar. Isso é importante porque ninguém quer passar mais tempo configurando o jogo do que realmente jogando. Você abre, ajusta o que precisa e parte para o caos. Ou pelo menos essa é a ideia, porque, como qualquer jogo desse tipo, sempre existe a possibilidade de encontrar algum bug pelo caminho. E, sinceramente, com esse título, eu não duvido que até os bugs tenham nome de personagem.


Direção de arte geral


Visualmente, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 não está aqui para ganhar concurso de beleza. A proposta é outra: ser brasileiro, estranho e engraçado sem pedir desculpas por isso. E o jogo abraça essa ideia de um jeito que combina bastante com sua proposta. Os cenários passam por diferentes regiões do país, trazendo referências às favelas cariocas, futebol, televisão, memes e outros elementos da nossa cultura. É aquela mistura que faz você olhar para a tela e pensar: “Isso aqui só pode ter saído da cabeça de alguém que passou tempo demais na internet brasileira”. A estética também lembra os jogos e mods antigos de PC, com aquele visual que traz uma certa nostalgia de quando você baixava um mapa de Counter-Strike e não sabia se ele iria funcionar ou transformar seu computador em uma churrasqueira.

A direção de arte abraça o amadorismo como parte da experiência, e isso precisa ser entendido antes de começar a jogar. O jogo não quer parecer um grande lançamento AAA, e tentar cobrar isso dele seria perder justamente a graça da proposta. Algumas escolhas são bem toscas, mas parecem fazer parte da intenção. Os mapas podem ser simples, certas referências deixam a tela carregada e nem tudo possui aquele acabamento que estamos acostumados a ver em produções maiores. Só que existe personalidade. O game tem uma cara própria, e isso vale bastante. Afinal, de que adianta um jogo ser tecnicamente bonito se você olha para ele e não consegue lembrar de nada depois de cinco minutos? Aqui, pelo menos, você vai lembrar do sujeito que tentou te matar com alguma coisa que parecia ter saído de um programa de televisão.

E a trilha sonora segue exatamente essa mesma linha. É funk, rap, house, remixes e uma mistura musical que parece ter sido montada por alguém que abriu uma pasta chamada “Músicas brasileiras aleatórias” e decidiu colocar tudo no jogo. A escolha combina com o caos visual e com a proposta de fazer o jogador rir enquanto enfrenta demônios, memes e outras maluquices. Não é aquela trilha sonora que você vai colocar para relaxar depois de um dia difícil. Dependendo do seu gosto, pode até cansar um pouco, principalmente quando você está jogando há bastante tempo. Mas também tem aquele efeito curioso: você termina a partida e percebe que está cantarolando um remix de Atirei o Pau no Gato sem entender muito bem como chegou naquele ponto. E, sinceramente, isso combina perfeitamente com Aviãozinho do Tráfico Pré 4. O jogo pode não ser bonito do jeito tradicional, mas tem identidade, e isso é algo que muitos títulos mais caros acabam esquecendo de ter.

Aviãozinho do Tráfico Pré 4 | PC Review Aviãozinho
PATÔMETRO
Conclusão
Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é uma daquelas maluquices que só poderiam sair de um boomer shooter brasileiro. Com movimentação rápida, armas absurdas e referências por todos os lados, o jogo consegue ser mais do que uma simples piada. Nem tudo funciona, o visual pode confundir e o humor não é para qualquer um, mas a personalidade está lá. É uma sequência que mantém a bagunça do anterior e melhora a jogabilidade. Se você curte FPS retrô, shitpost e jogos que parecem ter saído de um CD de revista gamer de 2005, pode entrar sem medo. Só não reclame quando o inferno abrir de novo.
Notas do Visitante0 Votes
0
PROS
Gameplay rápida e divertida
armas criativas
referências brasileiras
CONTRAS
Caos visual
9.5
NOTA FINAL

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