Godzilla Minus One foi um dos acontecimentos mais extraordinários da indústria dos filmes em 2023. O acontecimento de um filme de até 15 milhões de dólares que conseguiu desbancar orçamentos “hollywoodianos” de 200 milhões de dólares e se impôs como vencedor do Oscar de melhores efeitos especiais em 2024. Minus One é um resgate da ideia original do Godzilla de 1954: o diretor Takashi Yamazaki (liderando a Toho Studios) reapresentou um Godzilla feral, territorialista e extremamente poderoso como uma força da natureza ou um “Deus da Destruição”.
O primeiro filme possui o nome Minus One (menos 1), pois a ideia do filme é representar que o Godzilla traz a diminuição da sociedade japonesa para menos 1, considerando a devastação completa do país após a 2a Guerra Mundial, que levou o país ao zero e foi ainda mais castigado pelo kaiju “Gojira” (Godzilla para os japoneses). E apesar dos efeitos especiais extremamente bem-feitos serem o grande chamativo do filme, não podemos esquecer que o drama humano foi representado em sua máxima potência dentro da franquia. Godzilla de 2014 tem um foco interessante nos personagens humanos, mas nenhum outro filme da franquia tratou o drama de uma sociedade colapsada e à beira da extinção, como Minus One fez com Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), Noriko Oishi (Minami Hamabe), Akiko (Sae Nagatani) e Kenji Noda (Hidetaka Yoshioka).
É BOM IGUAL O PRIMEIRO, MAS É MELHOR
Antes de dissecar melhor os motivos que tornam Godzilla Minus Zero um dos filmes obrigatórios desse final de ano, já queria tirar da frente que o filme faz tudo que Minus One faz. Mas, melhor. Maior. Mais intensidade. Mais drama. Mais tudo. Godzilla Minus Zero é o clássico exemplo que se espera de uma continuação de uma franquia de sucesso. Se trata de uma equipe que pegou uma linda produção cultural 100% japonesa e a transformou em sua melhor versão, talvez aprendendo com alguns erros ou concretizando novas ideias que não eram possíveis antes. Se Minus One é o seu filme favorito da franquia, se prepare para mudar de ideia.
Mas o que torna Minus Zero melhor que seu antecessor?
UM SHOW VISUAL DE ARREPIAR
Para além dos efeitos visuais VFX em CGI, Godzilla Minus Zero possui uma direção de arte única. A junção de gravar um Japão em recuperação do pós-guerra em câmeras IMAX, passa a sensação de um Japão vivo e completo do começo ao fim. Várias cidades são mostradas no filme, desde centros urbanos até vilarejos perto das montanhas e a caracterização de todos é perfeita. A arquitetura é completamente verossímil com a época e esses cenários, quando destruídos por seres mitológicos, representam de forma precisa alguns registros históricos da devastação causada no país pela 2a Guerra Mundial.
Acompanhando os visuais, os figurinos e certos elementos variam em relação a Minus One, mostrando que mesmo um Japão destruído pela guerra 3 anos antes, evoluiu e se transformou em uma economia e sociedade, em rápida recuperação e transformação. Isso demonstra um carinho e quase uma obsessão do diretor Takashi Yamazaki em retratar precisamente os elementos pós-guerra de seus filmes, de forma que o cenário, o ambiente e os figurantes também possam contar uma história por si mesmos.
Como eu já mencionei (mas vale repetir), Godzilla Minus Zero é gravado em câmeras IMAX, se tornando o primeiro filme totalmente japonês feito com a tecnologia que chamou a atenção de muita gente com “A Odisseia” de Cristopher Nolan. Esse componente se torna essencial para dar ao filme uma “vibe” muito interessante, quase dando a sensação de que o Godzilla realmente foi um fato histórico que assolou o Japão. Sem dúvidas, a linha entre realidade e fantasia é questionada no visual e direção de arte de Minus Zero, de uma forma extremamente positiva.
Mas é claro, se vc leu até aqui, vc está se perguntando: tá bom Fauno, mas e as explosões, efeitos especiais e tudo que causa impacto?
É difícil falar sobre Minus Zero sem considerar um grande spoiler, que eu não vou contar para vocês. Mas basta dizer que o Godzilla está mais incrível do que nunca, os efeitos especiais são estonteantes e dignos das produções de mais alto orçamento em Hollywood, os efeitos de destruição são detalhadíssimos e críveis e tem uma cena específica que é um desbunde visual, digna da cena de Devoradores de Estrelas que rodou o mundo com a trilha sonora “Sign of the Times” de Harry Styles. É realmente algo de encher os olhos e as cenas em que o “pau tora” são de arrepiar, o que me gerou uma certa surpresa, sendo que vi novamente Minus One poucos dias antes de assistir Minus Zero e escrever essa análise. A evolução visual da produção da Toho Studios é nítida e o que já era bom, ficou ainda melhor.
PREPARE SEUS OUVIDOS

O trabalho de áudio em Godzilla Minus Zero não fica atrás de todo o espetáculo visual, pois é o que faz o espectador SENTIR tudo que está vendo na tela. O silêncio de algumas cenas reflexivas é ensurdecedor, os sons de fundo nas cidades são mixados perfeitamente para não sobrepor nada em primeiro plano, os sons de impacto são realmente de impacto e atingem nossos ouvidos de forma a transmitir a “porrada” acontecendo em tela.
O ápice do áudio, no entanto, é de uma cena logo no final do filme, que vai cortar o seu coração e te arrancar lágrimas (a menos que você seja um monstro, como o Godzilla, é claro).
Quanto à trilha sonora, ela segue a mesma linha de Minus One, mas claramente teve uma melhoria em Minus Zero. A Godzilla Suite, emblemático tema do primeiro filme faz um retorno nas cenas de mais impacto e está melhor, maior, mais complexa e mais alta, já podendo ser considerada um épico clássico, que ainda será entoado por essa geração anos à fio (Tan-tan-taan-taaaan).
O DRAMA HISTÓRICO E HUMANO
Talvez pareça contrassenso dizer que um filme do Godzilla não é exatamente focado no Godzilla, mas todos que viram Minus One vão entender o que eu estou dizendo. Inclusive, é um dos pontos altos do primeiro filme, que acompanha a intensa jornada de Koichi Shikishima, Noriko, Akiko e Kenji Noda. Muito elogiado pelo seu “drama humano”, Minus One também apresentou diversos conceitos nacionais e históricos sobre o povo japonês: primeiro, por se apresentar do ponto de vista de um piloto kamikaze covarde; segundo, por fazer questão de mostrar que os governos dos Estados Unidos e Japão, abandonaram o povo japonês à própria sorte para lidar com o Godzilla; terceiro, pelos testes estadunidenses que detonaram a bomba atômica que causou a mutação e evolução do Godzilla; quarto, por resgatar o orgulho japonês perdido na 2ª Guerra Mundial, de um ponto de vista positivo, esperançoso e pacífico; e por fim, por mostrar o sofrimento de mulheres órfãs e viúvas, que perderam tudo na guerra.
Minus Zero retoma todos os esses temas em sua história, mas parece que algumas lições foram aprendidas em relação a Minus One. Por ser muito dramático, às vezes, o primeiro filme da franquia Minus, acaba caindo um pouco no drama exagerado ou melodramático com mais entonação do que deveria. Em Minus Zero não é diferente, mas parece que souberam trabalhar melhor o drama dos personagens. As cenas de impacto emocional são mais curtas, mas mais fortes e a história apresenta diversos “plots”, que recompensam muito quem gostou e prestou atenção nas nuances de Minus One. Novamente, fica muito difícil falar a história em si sem spoilers, mas talvez a maior reviravolta do filme seja descobrir o impacto negativo que o exército dos Estados Unidos teve sobre a crise do Godzilla em Minus One, o que gera um arco próprio muito interessante em si, responsável por nortear grande parte da narrativa em Minus Zero.
Falando sobre os atores, todos são soberbos, mas cabe um destaque mais do que especial para as atrizes principais do filme e seus respectivos papéis. Noriko Oishi, agora Noriko Shikishima (Minami Hamabe), Makoto Aoyama (Masami Nagasawa) e Akiko (Sae Nagatani) são as grandes estrelas humanas em Minus Zero, com principal destaque para Akiko, a pequena que arrancou risadas e lágrimas de uma sala de cinema lotada. Outro personagem e ator masculino se destaca por ser o grande responsável pelo ápice do filme, mas se eu falar quem é, vai estragar a sua surpresa. Em resumo, o trabalho de performance e interpretação de Minus Zero é soberbo e a caracterização dos personagens vai te fazer pensar muito além do monstrengo gigante destruindo tudo pela frente.
O MELHOR FILME DO GODZILLA

Godzilla Minus Zero é uma obra completa do início ao fim, preenchida por ação, adrenalina, impacto audiovisual, um drama de altíssima qualidade e uma narrativa histórico-política maestral. Nessa análise posso ter falado sobre o filme de forma mais técnica, mas não se engane que é uma obra de 2 horas e 15 minutos, que vai te prender no assento, fazer o seu coração acelerar, te dar medo, fazer arrepiar, sorrir e chorar. Saí do cinema pensando no filme e escutando a música tema sem parar e pouco mais de 24 horas depois, escrevendo essa análise, ainda não parei de pensar no filme e todo o impacto que ele causou em mim, um homem brasileiro que sentiu a dor do povo japonês por 2 horas.
Godzilla Minus Zero lança para IMAX no dia 3 de novembro e para todos as telas de cinema em 5 de novembro. Gostaria de agradecer a Sato Company em meu nome e em nome de todo o PatoNerd por nos convidar para a cabine de imprensa desse lindo filme. Serei eternamente grato por me proporem essa experiência em antecipado! E como disse Takashi Yamazaki, logo antes da sessão, em um vídeo gravado especialmente para os jornalistas brasileiros: “vocês têm sorte de conferir essa obra de forma antecipada, então, por favor, respeitem os milhares de fãs que estão ansiosos e sem dormir para ver o Godzilla e evitem spoilers”. Jamais deixaria de atender um pedido como esse, senhor Yamazaki, seu desejo é uma ordem!
Até a publicação desta análise, números oficiais do custo de produção não foram divulgados, mas se Minus Zero seguir a tendência de Minus One, será uma superação do que o primeiro filme conseguiu fazer em termos de custo e qualidade. Godzilla é uma franquia que já teve seus altos e baixos e como um fã que considera Godzilla 1954, Godzilla 2014, Shin Godzilla e Godzilla Minus One como seus filmes favoritos do maior kaiju de todos os tempos, não poderia deixar de colocar Godzilla Minus Zero como o melhor filme de todos os tempos do “Gojira”.
Este filme, merece a máxima estima de qualquer fã da franquia e entender o que ele representa para o kaiju eiga (filmes de monstro gigante) e o tokusatsu, é essencial para talvez concluir, que esse filme irá inspirar uma nova geração de cineastas japoneses, que saibam tratar de temas históricos e políticos com a delicadeza e impacto que Takashi Yamazaki tratou em Godzilla Minus Zero.
O Japão MERECE ter o orgulho de ter produzido uma obra incrível, como Godzilla Minus Zero. Parabéns, Japão!


