Boa Leitura!

Aether & Iron | PC Review

Aether & Iron é uma experiência que não estamos acostumados a ver nos videogames e não é por causa de uma estética totalmente diferenciada, nunca vista antes, mas sim pela junção de vários elementos interessantes, que criam um conjunto muito único e diferente de tudo que está disponível no mercado de jogos, atualmente.

Aether & Iron é um jogo desenvolvido pela Seismic Squirrel, em conjunto com a Chaos Theory Games e publicado pela própria Seismic Squirrel, o que já é um fato impressionante por si só, tendo em vista que a pequena empresa indie sediada no estado norte-americano de Washington foi capaz de publicar sua pequena obra de arte para o mundo inteiro.

Agradecemos à Seismic Squirrel pelo envio da chave de PC (Steam) para um grande fã de jogos com contextos históricos, que não imaginou encontrar uma experiência tão robusta de RPG, aliada a um cenário tão único e rico.

Aether & Iron
Agradecemos a Seismic Squirrel pela licença de imprensa de Aether & Iron

PREMISSA E HISTÓRIA

Aether & Iron é um jogo que adota um estilo visual e artístico Deco-punk, que se passa em uma Nova York retro-futurista da década entre guerras, em 1930. Para que nossos leitores tenham pleno conhecimento do que estamos falando, o Deco-punk é um estilo artístico similar ao Cyberpunk, onde as cidades futuristas cheias de neon, propagandas e melhorias cibernéticas dão lugar a cidades também futuristas, mas congeladas num tempo onde o capitalismo estadunidense alcançou seu charme máximo em arquitetura e obras de arte. É um estilo artístico, que ficou mundialmente conhecido no mundo dos videogames por meio de Bioshock, que também adota uma estética Deco-punk.

Conceitualmente, Aether & Iron é uma mistura bem interessante dos gêneros “point-and-click”, RPG narrativo e RPG tático. Na maior parte do tempo, o jogador irá passear pelos diversos e lindos cenários do jogo, buscando pistas para solucionar diversos casos como detetive. A protagonista é Giovanna Randazzo, uma contrabandista com altíssimas habilidades de detetive, que é descendente de italianos e tem uma história de vida muito similar aos italianos historicamente envolvidos com a máfia nova-iorquina, assim como já vimos em grandes obras como “O Poderoso Chefão” e a franquia “Mafia”.

Sobre a história, Aether & Iron possui uma narrativa extremamente bem escrita, com diversos “plots” e surpresas, que com certeza vão manter o jogador interessado e preso na narrativa até o fim.

O que começa como mais um simples trabalho para Gia, se desenrola em uma mega teoria da conspiração, que vai levar Gia a interagir com outros personagens incríveis, como Nellie (uma menina inocente, que ganha um gigante protagonismo ao longo da história), Luca (um líder sindical extremamente protetor das famílias sob sua responsabilidade), Sophie (uma garota chata, que apresenta uma história de vida profunda e por quem o jogador desenvolve cada vez mais simpatia) e Apollo (um ator de cinema falastrão, que vai ganhando nosso coração, conforme o jogo progride).

Na verdade, é um pouco difícil falar da qualidade da história do jogo, sem dar muitos spoilers, mas eu não posso deixar de frisar como a história é bem construída, tanto nas missões principais, quanto nas missões secundárias, que ajudam muito a construir um mundo rico e cheio de personalidade. Ao finalizar o jogo, o jogador com certeza vai ficar cheio de vontade pra aprender mais sobre essa Nova York, que foi suspensa no ar com uma tecnologia, que chegou rápida demais do futuro.

Contudo, analisar a história não é suficiente para entender as entrelinhas que são passadas ao jogador durante a narrativa. Aether & Iron é uma aula sobre como abordar temas espinhosos como os problemas do capitalismo, de líderes revolucionários e como as personalidades do jogo interagem, ora sendo mesquinhos, ora sendo altruístas. Apesar de ser um jogo “histórico”, os temas abordados são mais atuais do que nunca e nos fazem refletir profundamente sobre o nosso próprio mundo e sociedade em que vivemos.

No entanto, nem tudo são flores e a narrativa de Aether dá uma leve escorregada em alguns pontos. Ainda que o jogo seja uma aventura de RPG e “point-and-click”, forrada de textos como Disco Elysium e Esoteric Ebb, na minha opinião, os roteiristas perderam um pouco a mão com o ritmo de algumas missões secundárias. Parece paradoxal, mas a mesma tonelada de texto, que entrega um mundo extremamente rico e detalhado, se passa um pouco, principalmente durante as missões secundárias: o problema aqui são informações que não agregam realmente no grande esquema das coisas e podem acabar estragando o ritmo das missões principais.

Não é incomum ficar esperando que uma determinada informação vai se desenvolver em algo grande, mas que acaba nunca mais sendo mencionada. Ainda assim, não é suficiente para tirar o brilho da incrível história do jogo.

Aether & Iron | Trailer oficial de lançamento

GRÁFICOS/DIREÇÃO DE ARTE

Não existe como fazer uma análise completa de Aether & Iron sem falar dos incríveis gráficos e cenas desenhadas, que acompanham cada cenário do jogo. Cada cenário foi desenhado com meticulosidade e pensados para instigar a curiosidade do jogador sobre o mundo. Ainda que nem todos os elementos dos mapas e cenas sejam interativos, é muito comum perceber que você já está a minutos só apreciando os detalhes de uma Nova York suspensa nos céus.

De certa forma, lembra muito a sensação de jogar Bioshock ou Cyberpunk, onde o jogador se pega constantemente parando para apreciar detalhes do mundo, que não contribuem para a narrativa ou gameplay. Realmente, o time de designers e desenhistas de Aether & Iron devem ser parabenizados por uma das obras mais originais que já joguei nos últimos tempos.

GAMEPLAY/JOGABILIDADE

A gameplay de Aether & Iron é simples e acessível, totalmente desgarrada de eventos que exigem algum tipo de reflexo rápido do jogador. A gameplay pode ser dividida em 3 momentos: exploração de cenário, rolagem de dados em diálogos e o combate por turno de carros.

Ao explorar o cenário, a gameplay é bem didática e se apoia no estilo “point-and-click”, onde os cenários são estáticos e podem ser explorados com o controle ou o mouse para descobrir pistas e informações sobre o mundo, os personagens e possíveis pistas para progredir na missão. Até aí, nada de novo, com a exceção de um botão de “highlights” que cumpre um papel essencial na acessibilidade ao destacar os principais pontos de interação nas cenas. No entanto, essa acessibilidade não estraga o desafio do trabalho de detetive, pois é super rápida e o jogador que não estiver atento, pode deixar passar algumas informações essenciais se for “apressadinho”.

Já a gameplay que envolve as rolagens de dados, ocorre durante as conversas de Gia com outros personagens e funciona de forma muito similar aos excelente Disco Elysium e Esoteric Ebb. E aqui é onde a narrativa também é influenciada de forma radical. Via de regra, Gia pode desenvolver 3 núcleos de habilidades, que são desbloqueados, conforma os personagens ganham experiência completando as missões do jogo. As habilidades são divididas entre uma árvore dedicada a um arquétipo mais corajoso, agressivo e “sem papas na língua”, outra árvore dedicada a habilidades mais “stealth” e evasivas ou Gia pode se tornar um detetive muito inteligente, sagaz e perspicaz.

Tudo vai depender das escolhas do jogador, como ele vai desenvolver Gia e os seus companheiros, para lidar com qualquer situação (ou não!). Essas decisões, baseadas em rolagens de dados vão alterar a progressão das missões e o final do jogo, fazendo com que o jogador sinta que a história foi realmente sua.

Por fim, mas não menos importante (de forma alguma) há a gameplay envolvendo o combate de carros, que é incrível por si só. Acredito que essa seja a primeira vez que vi um combate de carros por turno, em um jogo e ele funciona muito bem. Ao entrar em um combate (que pode muitas vezes, mas nem sempre, ser evitado por meio das escolhas narrativas e uma atitude mais “low profile” de Gia), os carros são colocados em uma arena e possuem pontos de ação, assim como outros RPG.

É possível gastar pontos de ação para acelerar e ficar à frente dos inimigos, recuar de graça (frear não gasta pontos de ação) e gastar pontos para ativar diversas habilidades de ataque, defesa e suporte a outros aliados. De forma geral, a dificuldade do combate também é bem justa e bem calibrada para os 3 modos de dificuldade que o jogo apresenta.

Além disso, existe a incrível possibilidade de “tunar” os carros em sua garagem, inserindo partes de motor, armas, blindagens e outros itens adquiridos por meio do “loot” recompensado nos cenários e em outras batalhas. Também é possível comprar carros novos e montar diversas configurações de equipe, desde as mais leves até as mais brutas, seja com “coupés” rápidos e ligeiros ou com caminhões e vans lotadas de blindagens e armas.

De forma geral, o combate é muito melhor amarrado do que eu inicialmente previa, o que me deixou impressionado.

Aether & Iron | PC Review Aether & Iron

TRILHA SONORA

A trilha sonora de Aether & Iron também é executada com muito carinho e os amantes de Jazz vão se amarrar na trilha, enquanto exploram os cenários do jogo. Não foram raras as vezes que eu parava para apreciar uma trilha sonora bem-feita, cheia de pianos, saxofones, baterias e violinos característicos de uma boa trilha de Jazz, enquanto eu estava explorando ou imerso nos diálogos.

Contudo, não posso deixar de mencionar que senti falta de maior variedade na trilha sonora dos combates do jogo, que parecem ter somente uma única música para acompanhar, o que torna os combates um pouco maçantes perto do final do jogo. Seria muito bacana se os desenvolvedores tivessem pensado na trilha sonora dos combates com o mesmo carinho que pensaram nas demais trilhas.

O QUE FALTOU PARA A PERFEIÇÃO

Infelizmente, Aether & Iron possui alguns problemas que estragam um pouco a experiência e impedem o jogo de ter apenas os mínimos problemas, que já mencionei até aqui. O jogo não apresentou muitos bugs e apresentou um desempenho extremamente sólido, sem quedas de frames. Contudo, os bugs no menu, que apareceram e me impediram de progredir ao clicar nos botões, me obrigaram a reiniciar o jogo algumas vezes e até a voltar uns minutos em saves anteriores, para conseguir progredir. Apesar de não terem impedido minha experiência de jogo, atrapalharam com mais frequência do que deveriam.

Mas, de longe, o pior ponto negativo de Aether & Iron é sua tradução para o português, que parece ter sido feita com ajuda de Inteligência Artificial. Para ter certeza que eu não estava errado, joguei novamente algumas seções em inglês para verificar a qualidade da tradução e é um problema gritante para o público brasileiro. “Main Missions” e “Side Missions”, por exemplo, foram traduzidas como “Principal Missões” e “Lado Missões”, além de outros erros graves de tradução, o que mostra um certo descaso da equipe de tradução com uma obra tão pesada em textos.

Nesse tipo de jogo, um RPG narrativo, o texto compõe mais de 80% da experiência e é triste ver que muitos significados de uma incrível obra narrativa, foram deturpados por um trabalho fraco de tradução.

Mais reviews? AQUI

PATÔMETRO
Conclusão
Aether & Iron é uma das experiências mais únicas e diferenciadas de RPG narrativo dos últimos anos. O jogo pegou os melhores elementos do gênero e combinou-os com maestria para criar uma obra coesa, linda e tudo isso, feito com um orçamento modesto de um jogo indie. A narrativa beira a perfeição, a direção de arte é de encher os olhos e a trilha sonora possui personalidade, como raramente se vê por aí. Infelizmente, alguns probleminhas quase graves de “bugs” na interface dos menus e uma tradução mal feita para o português brasileiro, impedem o jogo de alcançar a quase perfeição e se sobrepor sobre seus similares do gênero. Ainda assim, é um jogo obrigatório para todos os fãs de “point-and-click”, RPGs narrativos, combates por turno e apreciadores de boas histórias e mundos originalmente bem construídos.
Notas do Visitante0 Votes
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PROS
Estética extremamente original e incomparável com outros jogos disponíveis
História absolutamente incrível e cheia de caminhos narrativos diversos
Direção de arte extremamente original e trabalho artístico minucioso
Excelentes mecânicas de exploração “point-and-click” e RPG narrativo
Combate interessante, complexo e satisfatório
Trilha sonora perfeita para os amantes de Jazz
CONTRAS
O excesso de diálogos em missões secundárias tira um pouco do ritmo da narrativa
Trilha sonora repetitiva nos momentos de combate
Alguns bugs chatos atrapalham a experiência
Tradução malfeita para o português brasileiro
8
NOTA FINAL

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