A Odisseia
Christopher Nolan traz aos cinemas a sua adaptação de A Odisseia. O diretor entrega um projeto visualmente ambicioso e com uma trilha sonora impecável, mas que esbarra nos mesmos defeitos narrativos que marcam boa parte de sua carreira, resultando em uma obra que fascina e frustra em proporções bem parecidas.
O Poema Original
Para situar quem não tem familiaridade com o material de origem, a trama literária de Homero acompanha o guerreiro grego Odisseu em sua longa e turbulenta viagem de volta para sua terra natal, a ilha de Ítaca, logo após o fim da Guerra de Troia. O caminho de regresso leva anos e é repleto de provações míticas, intervenções divinas e criaturas perigosas que testam a resistência do herói e de sua tripulação. Dado isso, A Odisseia é um dos poemas mais importantes da história, escrito aproximadamente entre 800 a.C. e 700 a.C, pilar para a literatura e para as mídias em geral. Introduzindo conceitos amplamente utilizados nos dias de hoje, como a jornada do heroi.
Fotografia, Terror e Atuações
Visualmente, o longa acerta em cheio. A fotografia e a construção dos cenários funcionam muito bem em conjunto, e o cuidado com a iluminação e o enquadramento fica evidente a cada nova etapa da jornada. É fácil notar um trabalho minucioso de cor e composição das cenas, o que valoriza bastante a imersão de quem está assistindo. Os maiores destaques dessa direção de arte ficam para a recriação sombria e pesada do mundo dos mortos, além da representação visual da própria ilha de Ítaca.
Um caminho interessante e um tanto inusitado que a direção decidiu seguir foi com o terror. Em várias sequências, a atmosfera é pesada e consegue causar uma aflição genuína. O clima de perigo constante constrói uma tensão que prende a atenção. Isso ganha muita força, por exemplo, na cena com o gigante Polifemo, que transmite uma sensação real de vulnerabilidade e desespero, e no trecho que envolve o encontro com a feiticeira Circe.
A escolha do elenco funciona perfeitamente, os atores conseguem capturar a essência dos personagens descritos na obra literária de forma muito autêntica. Matt Damon, responsável por interpretar Odisseu, entrega um trabalho de muita dedicação. A performance dele é excelente, demonstrando o cansaço e a persistência do herói, uma atuação digna de Oscar. Em alguns momentos do filme, senti que a escrita do Odisseu e a interpretação do Matt lembraram bastante o Maximus de Gladiador (2000), tanto pelo peso que o personagem carrega, quanto pelas coisas ruins que lhe acontecem.
Além dele, a Anne Hathaway, interpretando a Penélope e o Tom Holland, interpretando o Telêmaco, dão vida aos personagens de forma impressionante.
Outro ponto positivo na condução dos personagens é a presença de Athena. Em vez de ser apenas uma figura divina distante, a deusa atua de forma muito mais próxima, servindo como uma mentora, apesar de ter pouquíssimas falas, que norteia as escolhas do protagonista. Essa dinâmica me agradou bastante ao longo da história.





A Trilha Sonora
Como já é comum nos projetos de Nolan, a trilha sonora se destaca e se consolida como um dos pontos mais fortes do filme. A composição de Ludwig Göransson (conhecido por Oppenheimer, Tenet e pelo recente vencedor do Oscar, Sinners) funciona muito bem para acompanhar uma odisseia de fato, a música é épica e condiz com a escala e a grandiosidade da jornada dos gregos. Göransson constrói uma sonoridade que reflete muito bem os perigos da viagem e a escala dos ambientes que eles exploram. A trilha complementa o visual, preenchendo as cenas com uma composição grandiosa.
Além das músicas e temas, um detalhe técnico que me chamou muita atenção é em um momento da ação, quando Odisseu puxa a corda do seu arco, o som emitido pela arma funciona como uma nota tocada no exato ritmo da trilha. Essa sincronia entre o efeito sonoro ambiente e a composição musical cria uma integração muito interessante.
Os Problemas no Roteiro
Apesar de toda a excelência técnica, A Odisseia sofre com os problemas de enredo recorrentes nos textos de Nolan. Existe uma pretensão enorme no roteiro, que promete entregar um épico profundo, mas acaba resultando em algo excessivamente raso. O filme não tenta aprofundar as motivações dos personagens ou explorar as nuances da mitologia grega. Tudo soa muito superficial, destoando drasticamente da obra literária que o inspirou.
A montagem da viagem também peca na repetição. A sequência de Odisseu e seus soldados tentando voltar para casa após saírem de Tróia adota uma estrutura muito repetitiva: o grupo chega em uma ilha, presencia algo no local e todos precisam correr apressadamente de volta para os barcos.
Além disso, figuras cruciais do conto original foram mal exploradas. Circe protagoniza sequências fantásticas em sua ilha, mas a personagem em si tem pouquíssimo desenvolvimento. Helena, que possui um papel importantíssimo para todo o contexto da história, é pouco aproveitada. O pior tratamento, no entanto, é o de Penélope, que surge em tela apenas para se lamentar e demonstrar tristeza, perdendo qualquer traço de força.
Para o público que já é familiarizado com o texto de Homero, a narrativa pode ser um incômodo, a ausência dela para ser mais específico. Muitos acontecimentos e passagens marcantes do poema simplesmente não aparecem na tela. É evidente que adaptar uma obra dessa magnitude para o formato de um longa-metragem exige concessões, e fazer cortes na história é uma necessidade perfeitamente compreensível.
O problema, no entanto, é que algumas partes que fariam bastante diferença para o desenrolar da trama acabaram sendo descartadas. Além disso, os eventos que foram mantidos na versão final sofrem com a falta de aprofundamento que citei anteriormente. Tudo isso somado acaba gerando a sensação de que o filme não consegue entregar uma experiência que chegue perto de tudo o que a obra original tem a oferecer.
Gostou desse artigo? Veja mais AQUI


Gosto de registrar minhas jogatinas escrevendo reviews e tirando fotos dos jogos. Meus jogos favoritos são Grim Fandango e Dark Souls II.

