A franquia Watch Dogs é um daqueles casos clássicos da indústria dos games em que a ideia era forte, o início foi promissor, mas as decisões ao longo do caminho acabaram diluindo o impacto. Para quem acompanhou desde o primeiro anúncio, fica aquela sensação incômoda de potencial desperdiçado, muito desperdiçado.
Tudo começou lá em 2014, quando o primeiro Watch Dogs chegou prometendo algo diferente dos mundos abertos tradicionais. Em vez de armas exageradas ou habilidades sobrenaturais, o grande diferencial estava no hacking. Controlar semáforos, câmeras de segurança, sistemas bancários e a infraestrutura da cidade inteira usando um smartphone era algo novo e extremamente atraente. A proposta de um mundo hiperconectado reagindo às suas ações funcionava muito bem no papel e, em boa parte, também na prática.
O jogo teve ótima estreia comercial, vendendo milhões de cópias logo no lançamento e se tornando uma das novas IPs mais bem sucedidas da Ubisoft naquela geração. A recepção, porém, foi mista. Enquanto muitos elogiaram as mecânicas de hacking e o conceito de vigilância digital, a narrativa foi vista como irregular e o protagonista Aiden Pearce dividiu opiniões. Para alguns, ele era sério demais. Para outros, simplesmente sem carisma. Claro, tem a questão da física dos carros, o foco não estava lá, não tratava-se de um GTA, mas as pessoas o viam como um.
Em Watch Dogs 2, lançado em 2016, a Ubisoft claramente tentou corrigir o rumo. O tom ficou mais leve, colorido e irreverente. A mudança de Chicago para São Francisco ajudou bastante na identidade visual, e o novo protagonista, Marcus Holloway, trouxe mais personalidade e empatia. As mecânicas de hacking evoluíram, ficaram mais criativas e integradas ao mundo aberto. Para muitos jogadores, este é até hoje o melhor jogo da franquia.
A crítica também foi mais positiva com o segundo jogo, reconhecendo a evolução do gameplay e do mundo aberto. Ainda assim, as vendas iniciais não repetiram o impacto do primeiro título, algo que já acendeu um alerta interno. Mesmo sendo um jogo melhor em vários aspectos, Watch Dogs 2 sofreu com expectativas infladas e uma base de jogadores menor do que o esperado.
O ponto mais controverso da franquia veio com Watch Dogs: Legion, em 2020. A ideia de poder jogar com qualquer NPC de Londres parecia revolucionária. Na teoria, era ambiciosa e ousada. Na prática, o sistema acabou sacrificando algo essencial: personagens marcantes. Sem um protagonista forte, a narrativa perdeu impacto emocional, e muitos jogadores sentiram que estavam controlando avatares genéricos, mesmo com habilidades diferentes.
A recepção de Legion foi morna, com críticas apontando missões repetitivas, mundo aberto menos inspirador e uma execução técnica que não acompanhava a ambição do conceito. Comercialmente, o jogo ficou abaixo das expectativas, marcando uma queda significativa em relação aos títulos anteriores. Esse desempenho acabou sendo decisivo para o futuro da série.
Analisando a franquia como um todo, Watch Dogs teve acertos claros. O conceito de hacking como mecânica central, a crítica social sobre vigilância, dados pessoais e controle tecnológico sempre foram pontos fortes. Poucos jogos exploraram esse tema de forma tão direta em mundos abertos modernos.
Por outro lado, os erros também foram evidentes. Falta de consistência narrativa, mudanças bruscas de identidade entre os jogos e experimentos ambiciosos demais sem polimento suficiente acabaram afastando parte do público. A franquia nunca conseguiu encontrar um equilíbrio definitivo entre inovação e identidade própria.
O que faltou para o sucesso duradouro? Provavelmente foco. Um protagonista forte, uma narrativa mais coesa ao longo dos jogos e a evolução natural das mecânicas, sem reinventar tudo a cada novo título. Watch Dogs sempre pareceu estar tentando se redescobrir, quando talvez precisasse apenas se aprofundar no que já fazia bem.
E é aí que entra a frustração de ver a franquia congelada. Em um mundo cada vez mais dependente de tecnologia, vigilância em massa e inteligência artificial, Watch Dogs nunca foi tão relevante quanto agora. O potencial para histórias maduras, mecânicas profundas e crítica social inteligente está todo ali, esperando para ser usado.
Deixar essa franquia de lado não é só engavetar mais uma série. É desperdiçar uma das ideias mais interessantes que a Ubisoft criou nos últimos anos. Watch Dogs ainda poderia evoluir, aprender com seus erros e voltar mais forte. O silêncio em torno da série não apaga o que ela fez de certo, mas reforça a sensação de que algo grande ficou pelo caminho.

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