A teoria do amor líquido, de Zygmunt Bauman, tem mais a ver com The Last of Us do que você pensava
O sociólogo Zygmunt Bauman propõe, em sua teoria do amor líquido, que as relações humanas contemporâneas se tornaram fragilizadas e efêmeras, regidas por interesses momentâneos e voláteis. The Last of Us explora essa ideia e ao mesmo tempo propõe um contraponto ao apresentar um mundo onde a sobrevivência extrema redefine os laços interpessoais. Se, por um lado, a desconfiança e o medo tornam os relacionamentos descartáveis, por outro, em alguns casos, esses vínculos se tornam mais fortes e inquebrantáveis.

Joel, inicialmente, encarna a figura de um homem endurecido pelo luto e pelo tempo, incapaz de se conectar emocionalmente. No entanto, ao longo da jornada, Ellie se torna muito mais do que uma simples responsabilidade para ele: ela se torna uma filha. Esse desenvolvimento contrasta com os caçadores e canibais do jogo, que ilustram o outro extremo das relações humanas em tempos de crise, onde a sobrevivência justifica a perda completa da empatia e da moralidade. O jogo nos mostra a todo momento que a fragilidade dos laços humanos é ainda maior em momentos de sobrevivência. Durante todo momento, cenas de assassinatos a sangue frio, com o único propósito de roubar roupas e alimentos é colocado em nossa frente. É como se o jogo estivesse gritando que mesmo em meio a uma crise sanitária a nível global e catastrófico, nosso maior inimigo ainda está apenas refletindo em nosso espelho.





A Dualidade das Conexões Humanas no Apocalipse
O jogo mostra que, diante do colapso da sociedade, os laços interpessoais podem tanto se fortalecer quanto se desfazer. Os caçadores são um exemplo de como a dissolução de padrões sociais leva à objetificação do outro, reduzindo os indivíduos a recursos para sua própria sobrevivência. Por outro lado, a relação de Joel e Ellie cresce exatamente por resistir a essa lógica. Mesmo em um mundo brutalizado, o afeto genuíno ainda pode emergir e se tornar o único fio condutor da esperança humana.

Assim, The Last of Us não apenas narra uma história de sobrevivência, mas também se torna uma visão profunda sobre o que significa ser pai e filho em um mundo onde a empatia está constantemente ameaçada. A dualidade entre aproximação e distanciamento afetivo, potencializada pela crise extrema, ecoa a própria condição humana, tornando o jogo uma das experiências narrativas mais impactantes da década.
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Ótima reflexão, Bauman fala muito sobre redes sociais, mas a aplicação do conceito de relacionamentos líquidos foi mesmo muito pertinente! Quero sua roupa, portanto te mato, estou com fome, você perde sua vida. Essa ideia de utilitalismo e descartabilidade de pessoas e relações se intencifica ainda mais em situações extremas, lembremos do famigerado “só está morrendo velho, não precisamos ter medo” no inicio da COVID19.
Adorei o texto e principalmente o convite à reflexão!