Boa Leitura!

Review de Metro 2033

Um desastre nuclear devastou o mundo, e a população de Moscou decidiu se assentar nas estações de metrô para sobreviver, fugindo dos mutantes, das anomalias, da radiação que assolou a superfície e do maior perigo: os humanos. Baseado na obra literária de Dmitri Glukhovski, em Metro 2033 acompanhamos o protagonista Artyom, um jovem de 20 anos que é incumbido de realizar uma jornada extremamente perigosa para salvar sua estação e, talvez, o que restou da humanidade.

HISTÓRIA/PREMISSA

O ano é 2033 e a humanidade está à beira da extinção. Após a visita do soldado Hunter, membro da força de elite conhecida como Ordem de Esparta, à estação VDNKh, Artyom recebe uma tarefa vital: ir até a Pólis, uma estação próspera e lar dos artistas e cientistas, para pedir ajuda contra os Sombrios, uma nova e aterrorizante ameaça mutante que pode acabar de vez com os sobreviventes. O jovem, embora relutante, aceita o fardo e parte pelos túneis sombrios do metrô até chegar ao seu destino.

Metro 2033 não tenta mostrar que Artyom é um herói ou alguém habilidoso, capaz de matar todos os inimigos encontrados pelo caminho. É estabelecido durante toda a jogatina que o protagonista é apenas um jovem sem quase nenhuma experiência de combate que, num ato de desespero, foi enviado a uma missão que provavelmente o mataria. Toda essa falta de experiência é mostrada de forma brilhante no gameplay, tornando o jogo muito mais imersivo. A mira treme, as animações de recarregar e as ações gerais do jogador são demoradas e desajeitadas. Tudo isso serve para mostrar que, naquele mundo, ninguém é especial, nem mesmo o protagonista da história.

É de se esperar que, numa situação ideal, em um mundo tão fragilizado, a humanidade se reunisse em prol do bem maior para uma melhor vivência, para que todos conseguissem viver com dignidade mesmo em meio ao caos. Porém, Metro 2033 nos mostra justamente o contrário. A Linha Vermelha (Comunismo) e o Quarto Reich (Nazismo) lutam uma guerra sangrenta e patética por túneis escuros usando as mesmas ideologias que já causaram miséria no passado. Nem os líderes comunistas nem os líderes fascistas se importam de fato com o povo das estações. Eles usam o extremismo, o medo e a propaganda pesada para manter o controle sobre uma população miserável e assustada. Para o Quarto Reich, a antiga ideologia da raça pura foi distorcida para a nova realidade. A raça superior não se baseia apenas em estar livre das mutações da radiação, é necessário ter uma pureza ideológica. A raça perfeita, para eles, é formada por aqueles que acreditam e seguem cegamente tudo o que lhes é ditado.

Assim como disse na introdução, mesmo com tantos monstros e anomalias espalhados num mundo radioativo, nada se compara à desgraça humana. Os mutantes agem por instinto, a radiação é uma força da natureza, porém, a guerra ideológica é uma escolha puramente humana. Mesmo à beira da extinção, o ser humano escolhe o extermínio mútuo por causa de diferenças políticas e territoriais. Uma sacada genial do jogo é que o Artyom ainda era um bebê quando o desastre aconteceu, então ele nunca vivenciou o mundo como conhecemos. Em um momento entre ataques comunistas e nazistas, ele não consegue compreender a motivação daquele confronto e se pergunta por que aqueles humanos continuam brigando pelo passado enquanto o mundo se torna ainda mais miserável de viver.

Os NPCs de Metro 2033 são um dos pontos mais altos do jogo. Eles são profundos e bem desenvolvidos, com personalidades únicas e histórias de fundo que justificam quem se tornaram. Esses detalhes os diferenciam uns dos outros, mostrando que eles são humanos com sentimentos reais e personalidades próprias. Um grande destaque vai para o Bourbon, um contrabandista cheio de lábia e com muito humor, que serve de alívio cômico fazendo piadas durante os percursos. Por outro lado temos o Khan, que se mostra como um oposto do Bourbon, um homem místico, centrado e calmo, focado em guiar e ajudar aqueles que tentam sobreviver na escuridão dos túneis.

“Você colhe o que planta, Artyom. Força responde à força, guerra gera guerra e a morte só traz morte. Para quebrar esse ciclo vicioso, é preciso fazer mais do que apenas agir sem pensar ou duvidar.” – Khan

Na narrativa, o que mais me incomodou foi o fato de o protagonista não falar durante os diálogos. Para conseguir entender os seus pensamentos, é necessário encontrar diversas notas do diário dele espalhadas por todo o jogo. Durante as telas de carregamento ele fala um breve resumo do que aconteceu no capítulo, mas não consigo encontrar nenhum motivo para que ele não tivesse falas durante o jogo. Ainda mais que todos os outros personagens possuem falas e voz, acaba atrapalhando um pouco e sendo até engraçado ver todos os aliados dele mantendo monólogos durante a jogatina.

Outra crítica necessária vai para a ausência de legendas nos diálogos de personagens secundários e NPCs de fundo. Como escolhi jogar no idioma original, o russo, acabei perdendo diversas conversas que enriqueceriam o entendimento sobre o funcionamento das estações de metrô e a construção do universo como um todo. O que agrava esse problema é que essas falas não servem apenas para ambientação. Pesquisando no Reddit para esta review, descobri que uma das mecânicas do jogo, a recarga da lanterna, é ensinada de forma orgânica justamente por esses NPCs da área segura. Como não havia nenhuma legenda, aprendi isso apenas por intuição e já na metade do jogo.

Ao todo temos dois finais, um bom e outro “ruim”. O que define qual final você vai alcançar são as suas escolhas morais durante toda a jogatina que podem ser coisas simples como: negar um pente de bala após salvar uma criança, falar com guardas na patrulha, tocar violão no quarto, doar balas para pessoas mais necessitadas e muitas outras, no total o jogo possui 99 pontos de morais possíveis de se obter. Esses finais mostram que Artyom nunca havia saído para a superfície e tudo que aprendeu foi na estação de VDNKh, os pontos morais mostram que ele aprende como esse novo mundo funciona e consegue tomar uma decisão com base nesse conhecimento, em oposição ao outro final, em que ele segue cegamente as ordens que lhe são dadas.

GAMEPLAY

Metro 2033 pode ser difícil e até mesmo injusto, fazendo questão de mostrar ao jogador o quão cruel e precário é aquele mundo. Recursos fundamentais como munição, itens de cura, granadas e filtros para a máscara de gás são escassos. Essa limitação constante força o jogador a calcular cada disparo e saber em quem e quando atirar, enquanto precisa gerenciar o inventário para que não falte nada nos momentos mais críticos. Em diversos momentos, hordas de mutantes ou esquadrões inimigos conseguem encurralar Artyom e o grupo, exigindo que o jogador mire com precisão para garantir tiros na cabeça, economizando balas o máximo possível. Pois, caso o jogador ache que está jogando Call Of Duty e tente sair atirando para todo lado sem parar, as balas acabariam em poucos minutos.

Essa tensão em nunca saber se vai ter balas suficientes para a próxima horda de inimigos dita o ritmo do jogo e afeta até mesmo nas áreas seguras onde o jogador pode comprar itens e melhorar as armas nas estações que visitar. A principal moeda de troca dessa nova sociedade subterrânea é a própria munição, especificamente a de grau militar. Então, além de guardar munições para conseguir matar os inimigos, o jogador precisa economizar para comprar itens de cura, outros tipos de munições (como munição de fogo e pesada) e melhorar as armas, podendo colocar miras, pentes alongados, silenciadores e outros. A melhor estratégia que encontrei durante minha jogatina foi escolher 2 armas para focar e melhorar o máximo que conseguir, para mim funcionou e tornou o jogo um pouco mais fácil.

Ainda falando sobre as armas, existe uma boa variedade no jogo. É possível escolher entre: Fuzis de Assalto, Escopetas, Pistolas e Submetralhadoras. Cada arma possui variações diferentes que consistem em ter coronhas, canos, miras ou pentes variados. Para um jogo linear de duração média de 10 horas, é mais que suficiente e consegue manter o jogador sempre descobrindo armas novas. Além das armas de fogo, também encontramos os itens arremessáveis, essenciais para furtividade ou ataque em área, como facas e granadas.

Para aumentar a imersão, Metro 2033 aposta em uma HUD minimalista e mostra apenas o necessário para o jogador conseguir se guiar. Ao segurar a tecla “M”, Artyom levanta uma prancheta com uma bússola e os objetivos atuais anotados e na mão esquerda um isqueiro para conseguir enxergar a prancheta em momentos de escuridão. Fora isso, as únicas informações visíveis na tela são a quantidade de munição e a retícula de mira. Para mostrar a vida atual do jogador, manchas de sangue irão aparecendo na tela a cada dano tomado e Artyom começará a ficar mais ofegante. Acredito que essa escolha minimalista combinou muito bem com a proposta do jogo e conseguiu me manter ainda mais imerso.

Acredito que o que faltou para que a experiência fosse ainda mais satisfatória era do jogo ser um pouco menos abstrato quanto as mecânicas e como elas afetam o jogador ativamente. Eu finalizei a campanha e até agora não entendi o porque Artyom troca de máscara de gás ao encontrar uma nova, se o que importa para que ele consiga respirar em áreas radioativas é a troca do filtro de ar. A recarga da lanterna que citei anteriormente também poderia ser melhor explicada como forma de tutorial no início de jogo e evitaria frustrações por parte do jogador. Porém, a mecânica que achei mais absurda e que só descobri após zerar é a luz azul no relógio do Artyom, que indica quando ele está sob algum efeito de iluminação e fica mais propenso a ser visto pelos inimigos, em nenhum momento da minha gameplay foi me informada sobre essa interação e acabou que me atrapalhou em diversos momentos que tentei fazer uma gameplay mais stealth.

METRO 2033 ORIGINAL X REDUX

Metro 2033 foi originalmente lançado em 2010 pela 4A Games e, devido ao estrondoso sucesso que o título teve, a empresa decidiu lançar em 2014 uma edição definitiva do jogo chamada de Metro 2033 Redux, desenvolvida em uma engine mais atual e moderna. Ela conta com melhorias gráficas absurdas, a IA dos inimigos foi aprimorada, tornando-os mais inteligentes, a iluminação foi completamente refeita, a jogabilidade ficou muito mais fluida e a dublagem do Artyom foi modificada nos idiomas Inglês e Russo com intuito de trazer uma voz mais jovem para o personagem. Também veio com uma série de correções de bugs que atrapalhavam o gameplay no geral.

Mas, apesar de todas as melhorias citadas, algumas pessoas ainda preferem o original por ter uma atmosfera mais sombria e se assemelhar mais a um survival horror que a Redux. Eu completei o jogo na versão definitiva e joguei uma boa parte da original para fazer a comparação e meu veredito é o seguinte: se busca uma experiência de horror com uma mecânica de furtividade mais complexa e desafiadora, jogue o original. Se busca um jogo de ação com terror, de forma mais polida e balanceada, jogue a versão Redux.

CURIOSIDADE DE BASTIDORES

Um detalhe interessante sobre a criação de Metro 2033 é que a 4A Games foi fundada por ex-desenvolvedores ucranianos da GSC Game World, o estúdio responsável pela aclamada franquia S.T.A.L.K.E.R.. Andrew Prokhorov, que era um dos diretores na GSC, deixou a empresa devido a desentendimentos internos e fundou a 4A Games. Logo depois, após quase toda a equipe de arte da GSC ser demitida, Prokhorov os contratou para trabalhar em Metro 2033.

É justamente por causa disso que os dois jogos compartilham uma atmosfera pós-apocalíptica tão única e opressiva. Além da parte técnica e visual, a 4A Games usou seus contatos da época de S.T.A.L.K.E.R. para trazer grande parte do elenco de voz, tornando possível reconhecer diversos dubladores russos e ucranianos presentes em ambas as franquias.

DIREÇÃO DE ARTE

A ambientação maravilhosa de Metro 2033 é o maior acerto do título. As estações são carregam um ar denso, com personagens cantando em rodas na fogueira, crianças brincando, mesas de bares com pessoas conversando e tudo é muito vivo, traz a sensação de ser uma sociedade realmente funcional em cada estação que o jogador passa. Os túneis abandonados com musgo, restos humanos, poças radioativas e muito sangue por toda a parte. A superfície causa um choque ao ver como a humanidade pode ser frágil e como tudo pode ser muito fútil. Diversos carros podem ser encontrados destruídos com apenas a sucata, servindo só de proteção para atacar os mutantes.

A neve constante tem uma sensação de frieza, não apenas física, mas parece que o mundo ficou mais vazio. Não é possível ouvir nada durante os segmentos na superfície, não existe mais a pressa humana para chegar logo em seus empregos, nem os sons das crianças indo pra escola, ou buzinas de trânsito de pessoas estressadas com a vida. Tudo que restou foi o vazio melancólico do que a humanidade um dia foi e, num instante, não era mais.

Diversas vezes durante a jogatina me peguei refletindo em como tudo que vivemos aqui é passageiro e estamos acostumado a viver em uma rotina robotizada que, ao ser confrontada por um futuro diferente do que imaginamos para nós, tudo desaba e o que sobra é viver a nostalgia do que um dia fomos.

Os gráficos são espetaculares e os design das criaturas e anomalias realmente trazem uma sensação de medo e perigo iminente. Os mutantes são grandes, orgânicos e fazem barulhos assustadores. Todas as texturas e modelos do jogo se encaixam perfeitamente com a atmosfera e, apesar de não ser muito realista, consegue atingir um resultado muito satisfatório no quesito de gráficos.

SOM

A música tema tocada no menu é magnífica em todos sentidos e sempre que eu iniciava o jogo fazia questão de ouvir um pedaço dela antes de começar a jogatina. Na verdade, todas as músicas de Metro 2033 são excelentes e cumprem seu papel na trama, trazem tensão quando necessário e, nos poucos momentos de alívio, trazem uma sensação de paz, mesmo que momentânea.

Os efeitos sonoros são extremamente satisfatórios e eu adoro os sons que as armas fazem nesse jogo. Os tiros têm impacto e dá para sentir o peso de cada disparo feito pelo jogador. Principalmente da AK-47, que possui um calibre mais alto. Os túneis também possuem sons ambientes que conseguem manter a tensão do jogador sempre no máximo, sussurros, canos mexendo, ratos e animais andando pelas paredes. A todo momento tem uma sensação de que o jogador vai ser atacado por alguma criatura.

OTIMIZAÇÃO/BUGS

Falando sobre a otimização, por ser um título mais antigo, o jogo rodou perfeitamente, cravado em 60 FPS durante toda a campanha e com todas as configurações gráficas no máximo. A experiência foi extremamente fluida. Não sofri com problemas de escala de resolução, quedas de desempenho ou bugs que quebrassem a imersão. Acredito que, nesse quesito, Metro 2033 acerta perfeitamente, provando ser uma obra que envelheceu muito bem tecnicamente e que permite ao jogador aproveitar a atmosfera sem distrações.

PATÔMETRO
Conclusão
Metro 2033 é muito mais do que apenas um FPS comum ou um jogo de terror. Ele faz o jogador pensar e se aprofundar em temas como o egoísmo, as guerras, a política e a verdadeira natureza da humanidade. É uma narrativa espetacular que prende do início ao fim, com uma gameplay que, apesar de difícil, recompensa o jogador. Acima de tudo, é uma obra que busca nos imergir em um cenário pós-apocalíptico e, principalmente diante da situação atual do mundo, nos faz questionar se o rumo que estamos tomando é o correto e quais serão as pesadas consequências disso. ​Se você, assim como eu, tinha Metro 2033 em sua lista de jogos e nunca jogou, recomendo fortemente que dê uma chance. Você vai vivenciar uma obra que, sem dúvidas, vai mudar sua forma de imaginar a vida.
Notas do Visitante2 Votes
9.8
História bem desenvolvida
História bem desenvolvida
Personagens icônicos
Variações de armas e melhorias
Gameplay fluida
Otimizado e livre de bugs
Mecânicas pouco intuitivas
Ausência de legendas nas falas dos NPCs secundários
Protagonista sem falas nos diálogos
9
NOTA FINAL

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