Não vamos ter spoilers nessa análise.
O Patobah agradece a AdHoc Studio pela oportunidade

A Telltale conquistou o seu espaço na industria e nos corações dos gamers criando jogos narrativos onde supostamente as escolhas teriam grandes impactos em sua narrativa, seguindo uma leva de temporadas episódicas, ela trouxe a “vibe” das séries semanais para os games, lançando episódios com ótimos ganchos e espaços de tempo entre cada lançamento. Infelizmente a mesma passou por grandes problemas nos últimos anos, deixando assim milhares de fãs órfãos de um novo título, sem falar os que estão aguardando a segunda temporada de The Wolf Among Us, que tem um futuro incerto.
Porém fomos agraciados com Dispatch, um game narrativo de heróis feito por ex-funcionários da Telltale, a AdHoc Studio (que inclusive estavam trabalhando na segunda temporada de The Wolf Among Us) junto com a galera da Critical Role (The Legend of Vox Machina). O projeto entrega uma proposta interessante, com um time de peso e um ótimo elenco temos um projeto de potencial em mãos.
Qual a boa dos despachados?
Um game episódico de escolhas que espelha por hora a época de ouro das narrativas da Telltale, poderia resumir facilmente dessa forma pois ele acerta e possivelmente segue os mesmos erros da mesma então se você quer algo nessa estrutura não vai se decepcionar nesses episódios iniciais.
Você assume um personagem que é contratado por uma empresa que presta serviços de heróis na cidade. Dividindo os distritos por equipes de heróis os despachantes são meio que o telemarketing/liderança dessa equipe direcionando a melhor combinação para situações do dia a dia, resgate, impedir assaltos, segurança, retirar um gatinho de uma arvore, atos heróicos transformados em produtos.
Dispatch é um game de heróis que trás um universo que mistura muitas propostas e ao mesmo tempo foca em locais pouco explorados, usando assim um tema popular de maneira diferenciada. Aqui existem pessoas com e sem poderes, heróis e vilões, humor acido e rápido mas direto e por hora não se apegando apenas ao choque mas sim ao desenvolvimento de personagens, backgrond do mundo se aproveitando que o protagonista não está na linha de frente e sim nos bastidores.
O trazer esse lado corporativo vemos o lado The Boys (Amazon) onde os heróis são produtos, literalmente para a sociedade, heróis terceirizados com uma grande empresa por traz vendendo os “serviços”. Inclusive as descrições dos episódios são paginas do manual de funcionários da empresa, deixando claro quais os rumos que os autores estão levando com esse universo.
As semelhanças não param apenas em The Boys ja que eu consigo ver muito da estética de Invencível, Boku no Hero e até mesmo o que James Gunn está fazendo com a gangue da justiça em seu universo compartilhado da DC.
Claro que felizmente a obra não para por aqui e ela traz surpresas que vão te impactar do inicio ao fim de sua jornada.
Uma das melhores histórias deste ano
Agora vamos falar da narrativa de Dispatch que já cheguei a comentar aqui no Patobah, ela continua evoluindo até o final, trazendo uma historia rápida com uma ótima contextualização de universo e mantém seu ritmo ao apresentar os personagens principais e secundários dessa temporada, se fosse resumir, um ótimo ritmo. Uma junção perfeita de cast e escrita feita nos entregou uma gama gigante de personagens interessantes que colaboram de alguma forma para a trama, do inicio ao fim, isso não é algo fácil de fazer principalmente em produções novas, um feito de se tirar o chapéu para Adhoc e Critical Role.
O game nos entrega um drama com comédia super equilibrado com personagens nada funcionais. Nos jogam em um universo já estabelecido e entregando camadas de desenvolvimento, de forma direta e indireta a historia te encanta, você se apaixona pelos personagens e fica animado para os episódios seguintes.
Sutileza do roteiro? Claro meu querido, esse game está além de uma narrativa “massa”. Claro que não é algo complexo nivel sci-fi, porém é inteligente com muitas camadas que são desenvolvidas em sua totalidade apenas ao jogar por rotas diferentes. Então se voce ficar apenas debatendo porque um casal é melhor que o outro, não aproveitará a narrativa em totalidade, aprecie a obra que está consumindo, valorize o trabalho da equipe em sua totalidade. A galera que ama fazer comparações e tretas sem sentido em uma rede que é amontoada de tretas para engajar, posso dizer que boa parte definitivamente não entendeu em nada as camadas do roteiro de Dispatch.
Escolhas de impacto?
Agora sobre as escolhas, aquilo que se tornava um dos grandes diferenciais na época de ouro da Telltale, que poderia mudar rumos, distintos e narrativa, algo que nunca foi evoluído de fato apenas se tornando cada vez mais comedido no decorrer das gerações. Aqui em Dispatch, suas escolhas fazem a diferença? Existe finalmente uma evolução no padrão de escolhas?
Poderia te dizer que as escolhas e impactos aqui estão mais próximos a era de ouro desses games do que do declínio, sim evolui e melhora o que ja vimos mas não traz um grande salto como poderia. Usando de comparativo sem spoilers de um dos melhores games da Telltale para ilustrar, The Walking Dead, a rota como o protagonista anda entre os episódios é de escolha sua, inclusive o destino de certos personagens , porém, existem momentos no game que não importa o que voce faca o destino será o mesmo, te dando uma falsa liberdade e seguindo o rumo que os desenvolvedores e roteristas querem. Apenas se lembre do final, não importa o que voce faca o destino sera o mesmo com “planeta de cores diferente”.
Quanto mais potencial de games futuros mais comedido isso ficou e aqui em Dispatch ele de fato faz isso melhor do que esse e outros títulos de comparação. Aqui o fator de REPLAY de fato fará sentido, tanto por cenas diferentes, diálogos extras que complementam o background de personagens, finais diferentes e variações dentro desses finais sendo um bom acerto pois você terá a oportunidade de jogar a era ouro com uma boa evolução, se tornando um ótimo exemplo de sucessor espiritual. Fazer esse tipo de trabalho complica sequencias e por isso outras empresas evitam rotas muito destoantes uma da outra, com isso perdem o brilho que rumos diferentes poderiam proporcionar, aqui não temos esse tipo de preocupação atrelada em sua narrativa.
Claro que não é perfeito, existem momentos que não importa o que faca vai gerar consequências iguais, mas a equipe mandou bem ao disfarçar esses adendos, elas estão em boa parte dos momentos em situações secundarias que não impactam em grandes momentos de forma expressiva e esse problema está conjunto com o próximo tópico, a gameplay.
Gameplay
A gameplay de Dispatch é completamente diferente do habitual nesses estilos de jogos, aqui abandonamos a exploração deixando espaço apenas para lutar em Quicktime, assistir a narrativa, fazer suas escolhas e jogar o minigame de “despachar” os super heróis.
Ao observar que realmente falta uma exploração eu sinto sim uma falta dela, afinal toda exploração quando bem feita agrega em muito ao universo , porém, joguei tantos títulos que utilizam uma falsa exploração para “enrolar” e aumentar o tempo de jogo que eu considero isso como um respiro ja que os episódios ganham ritmo e um joguinho de heróis super divertido. A mecânica dele é bem jogo de tabuleiro com toques de RPG, inclusive talvez um dedo ou outro da Critical Role, para no futuro talvez se tornar um sistema de heróis para RPG de mesa ou semente? Bom o tempo vai dizer, mas e a gameplay do mesmo?
Aqui você deve ler com muita atenção a solicitação. Frases especificas nesse pedido determinam por lógica se um herói vai usar certas habilidades (Forca, agilidade, carisma, inteligência etc…) como por exemplo: “preciso de herói rápido e forte”, “alguém com forca mental para resistir” ou “anime a plateia” e por ae vai. O legal disso é que não ficamos apenas em escolhas de diálogos e apertar botões na hora certa, somos colocados para ação em um mini game super divertido onde devemos fazer o trabalho do personagem, rendendo ótimos diálogos.
Já o combate, que é pouco, mas toda fez que ocorre rende uma ótima sequência de ação, bem dirigida com ótimos ritmos, porém os Quicktime por mais que sejam legais não impactam de fato dando “game over” caso vacile em algum momento. A mecânica de Hackeamento é ótima, ganhando novas mecânicas e complexidades a cada episódio, elas ocorrem no próprio minigame mas tambem em momentos específicos onde a narrativa deseja criar um senso de urgência maior no espectador, que por sinal funciona muito bem. Então por mais que o game falhe em entregar mais elementos de gameplay o mesmo acaba ganhando ritmo narrativo por essa escolha e te passa a sensação que todas elas foram bem integradas ao avaliar o no geral.
Gráficos e desempenho
Graficamente é bonito e super leve, dificilmente alguém terá dificuldades para fazer o game rodar caso tenha uma maquina básica a intermediaria. Não tive nenhum problema ou bugs no PC rodando liso e fluido 100% do tempo, parece que você está rodando uma serie em animação com uma qualidade que deixa bons títulos do streaming no chinelo.
Artisticamente é um destaque a parte, é belo com muita personalidade e referências interessantes a cultura pop, existem diversos artistas trabalhando fora da jogo inclusive com materiais extras, como exemplo os quadrinhos e suas capas. Essas historias complementam a narrativa, trazem nostalgia dos quadrinhos americanos clássicos, porém cada artista coloca seu toque próprio a cada edição deixando uma pegada autoral super legal. Valorizem esse trabalho se possível adquirindo o as artes e trilhas sonoras do game que vão valer super apena.

Criador do canal Toca Du Corvo
