Nos tempos antigos, o mundo era escuridão. E a humanidade que o habitava, buscava se esconder em cavernas para fugir do frio. Lá em cima, o Deus Sol observava tudo. Um dia, ele decidiu descer à Terra para auxiliar os humanos, concedendo a eles o conhecimento para criar o fogo.
Por anos, esse fogo foi o pilar para o desenvolvimento da espécie, levando cultura e ciência. E o Deus Sol estava feliz por ser cultuado e venerado por todos. Mas, em um certo dia, para entender melhor os humanos, ele se juntou a humanidade e desceu na Terra em forma humana.
Na Terra, ele conheceu uma linda mulher, por quem se apaixonou ardorosamente, fazendo nascer desse amor, um filho. Anos se passaram e, mesmo sendo apenas uma criança, já realizava milagres e era cultuado pela população. Até que, por infelicidade de um desastre, tudo vai por água abaixo…
HISTÓRIA/PREMISSA
Crisol: Theater of Idols nos coloca na pele de Gabriel, um soldado nascido para servir ao Sol, que recebeu a missão de ir na remota ilha de Tormentosa, onde a luz não existe e o povo cultua o Deus Mar, considerado maligno para a religião do Sol. O objetivo do protagonista é destruir o Deus Mar e instituir a religião Solar na ilha. Para isso, ele precisa encontrar os quatro descendentes nos arredores da ilha e forjar a adaga capaz de matar uma divindade.
De início, devo dizer que, infelizmente, Crisol me decepcionou muito. O jogo busca inspirações em excelentes obras, como Bioshock e Resident Evil VII, mas peca em quase tudo que tenta fazer. A Vermila Studios, embora tenha acertado em cheio na direção de arte, não conseguiu manter o mesmo padrão para todos os outros aspectos do jogo. É nítido como a falta de experiência do estúdio, que traz o seu primeiro jogo, pesou para esses erros.
GAMEPLAY
O sangue, principal mecânica do jogo, tinha um potencial enorme que foi desperdiçado por um péssimo Game Design. No jogo, não existem munições, pois, graças às estátuas macabras da ilha, uma arma convencional não seria suficiente. Sendo assim, o Deus Sol banha as armas de Gabriel com seu próprio sangue, fazendo com que seja necessário drenar da propria barra de vida para obter balas.
Inicialmente, achei essa mecânica genial e muito promissora, mas depois de poucas horas de jogatina, todo potencial foi jogado fora. Existem muitas seringas espalhadas pelo mapa, muitos animais para absorver a vitalidade e poucos inimigos, que possuem padrões extremamente fáceis de aprender. A soma de tudo isso, resultou em uma experiência que em nenhum momento de jogatina eu precisei gerenciar entre a vida e as munições. No momento que eu notei que bastava dar alguns tiros na perna para que o inimigo não apresentasse mais nenhum perigo, parecia que o jogo estava no modo fácil, mesmo estando na maior dificuldade.
Durante a campanha, me deparei com inúmeros puzzles que foram bem feitos e exigiram bastante raciocínio, com destaque nas partes em que é necessário acertar o quarto de cada freira e o enigma do dominó. Nenhum puzzle chegou a me deixar travado, achei bem satisfatórios de resolver.
O jogo conta com uma árvore de habilidades simples e um sistema de progressão para cada tipo de arma, podendo melhorar o dano, cadência, tamanho do pente e outros. Porém, assim como quase tudo no jogo, esses sistemas também são fracos e é possível zerar a história inteira sem ao menos precisar comprar qualquer aprimoramento.
Durante a jogatina é possível encontrar diversos tipos de coletáveis diferentes, como os corvos presos em gaiolas, os ídolos de Ulisses e os rastros de sangue. Tirando este último que tem propósito para a história, os outros são inúteis e não contribuem com quase nada, dando apenas descontos e essências para as habilidades.
DIREÇÃO DE ARTE
A direção de arte é o maior acerto de Crisol. Os monstros, cenários, estética, capa e desenhos são primorosos e tudo se encaixa perfeitamente. Devo destacar a Dolores, que aparece na capa do jogo. Ela possui um visual espetacular em todos aspectos e consegue causar bastante desconforto apenas com seu tamanho e forma cadavérica.
As estátuas (inimigo mais comum do jogo) também possuem um excelente visual e animações caprichadas que parecem ter sido feitas em stop-motion. No geral, as animações do jogo são muito bem feitas e o único defeito fica por conta dos modelos 3D dos humanos, que destoam de toda estética do jogo, causando uma certa estranheza.







Os Cenários da Ilha de Tormentosa são um espetáculo à parte. É nítido o carinho que a Vermila Studio colocou para criar uma atmosfera densa e opressora, que combina perfeitamente com Tormentosa, pois passa a exata sensação de abandono provocado pelos deuses e pelos humanos. As casas, ruas e catedral estão vazias, tudo está abandonado e durante quase toda a jogatina, não vemos praticamente nenhum rastro de humanos.
SOM
Para mim, a trilha sonora e todo o som de Crisol são medianos. Embora eu tenha adorado a música-tema que toca no menu, todo resto é bem básico, mas cumpre bem seu papel de transmitir tensão e perigo iminente ao jogador. Os sons ambiente, os tiros das armas e os gritos dos inimigos também entregam o necessário para uma boa experiência.
No entanto, mesmo sendo razoavelmente agradáveis, tive um problema técnico durante a gameplay: quando os personagens estavam dialogando ou algum objeto emitia som, caso eu virasse a câmera minimamente para qualquer um dos lados, o som simplesmente parava. Isso acabou afetando um pouco a imersão e compreensão da história, principalmente nos diálogos que ocorrem em confrontos.
DIÁLOGOS E PERSONAGENS
Durante a gameplay, me deparei com inúmeros diálogos que simplesmente não levavam a lugar algum, enquanto outros eram excessivamente expositivos, atrapalhando a imersão e o senso de exploração, entregando tudo direto para o jogador. Em alguns momentos, as falas pareciam até um pouco infantis, estragando toda a tensão e peso que o momento trazia para a história, com piadas fora de hora que não agregam em nada na cena.
Mediodía, a personagem que sempre conversa pelo rádio com o jogador, parece ter saído de um desenho infantil, é um personagem raso, que tenta servir como um alívio cômico, mas que não funciona. Além dela, o protagonista Gabriel não possui carisma algum. Durante todos os diálogos, tudo que ele fazia era responder da forma mais genérica possível as situações que o aconteciam. Os descendentes, “vilões” da história, também não pareciam ter algum ideal realmente sólido, eram apenas o clichê sendo executado da forma mais simples e fraca possível.
BUGS E OTIMIZAÇÃO
Durante as quase nove horas de jogo, presenciei pouquíssimos bugs, e nenhum deles chegou a prejudicar de fato a minha experiência. Um deles aconteceu em uma luta contra um chefe de pedra quando, depois de alguns minutos, o chefe começou a andar em direção a parede e ficou assim até morrer, o que acabou tirando um pouco da satisfação de derrotar o inimigo e da dificuldade da batalha. Um outro bug foi quando abri o jogo e diversos modelos do cenário não estavam carregando, inclusive as armas do protagonista e os inimigos que estavam invisíveis, mas bastou reiniciar o jogo que voltou ao normal.
Sobre a otimização, Crisol, na maior parte do tempo, rodou acima dos 60 FPS no meu computador com os gráficos no máximo, porém, eu sofri com inúmeras quedas bruscas e repentinas de frames em certos momentos do jogo.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E INIMIGOS
Na minha experiência, esse foi o ponto que mais me incomodou e fez Crisol perder o conceito. Para um jogo com duração média de 10 horas, é inaceitável existir apenas quatro tipos de inimigos comuns. Durante quase toda a jogatina, você vai se deparar com as mesmas estátuas e com os mesmo movimentos previsíveis.
Além disso, os inimigos não apresentam dificuldade alguma para o jogador, eles não possuem sequer uma variação de combate para dificultar na hora de atirar. É sempre o mesmo ciclo: o inimigo aparece em uma posição óbvia, anda de forma lenta até chegar no jogador, desvia para o lado e tenta atacar. Somado isso ao fato de que, no late game, com um tiro na perna o inimigo vai cair e parar de representar ameaça, o jogo fica monótono e sem dificuldade alguma.
A luta contra o chefe final parece que é um tutorial do jogo, todo o combate é explicado de forma expositiva e não dura nem cinco minutos para conseguir derrotar o chefe. Isso se repete para qualquer luta de “chefes” que o jogo possui.

Gosto de registrar minhas jogatinas escrevendo reviews e tirando fotos dos jogos. Meus jogos favoritos são Grim Fandango e Dark Souls II.
