Seguindo esse caminho e mantendo a sua personalidade, Solasta II não será apenas um “tão bom quanto Baldur’s Gate 3”, mas sim digno de sair dessa sombra e conquistar o seu próprio espaço no cenário.
Por: Lucas “Vilger” Serrano (Toca du Corvo)
Ser comparado e remeter a Baldur’s Gate 3 é algo complicado e pode se tornar uma tarefa bem difícil devido à alta expectativa. Logo após alguns materiais, a conexão veio de cara, mas fico feliz em dizer que foi muito além do que eu esperava.
Há algumas semanas tive o prazer de receber da Tactical Adventures e Kepler Interactive uma cópia antecipada de Solasta II, que acabou de lançar nessa quinta-feira (12 de março) o seu acesso antecipado ao público.
Na minha visão, trazer uma review logo de cara de um acesso antecipado, que terá muitas melhorias até a versão final, não faz muito sentido. O foco de hoje, então, é trazer uma preview sobre como está o game em aspecto geral, para fãs do gênero e curiosos.
E para você que ainda não conhece o termo: CRPGs, ou Computer Role-Playing Games, são jogos de RPG que trazem a essência mais próxima de um RPG de mesa, com foco em narrativa, boa escrita, construção de personagem e escolhas que impactam o mundo. Esse gênero evoluiu muito durante as décadas, mas mesmo assim possui traços característicos tão fortes que, se você aprender o que é um CRPG, facilmente irá identificar esse estilo em suas explorações por uma nova play.
Mas chega de explicações. Se chegou aqui, obviamente quer saber se Solasta II é um projeto promissor e se merece a atenção da comunidade de RPGs no geral. Antes de ir ao preview, gostaria de fazer um convite para conferir um vídeo meu sobre o acesso antecipado de Solasta II lá em meu canal do YouTube.
O protagonismo em Solasta II
Um dos detalhes que logo me chamou atenção em Solasta II foi a distribuição do “protagonismo” inicial. Geralmente, em RPGs, criamos um personagem e as suas ações como jogador impactam na história do game. Personagens secundários entram em nossa party e, em boas histórias, são bem desenvolvidos em conversas pessoais com o protagonista, desencadeando conflitos, romances e sacrifícios. Inclusive pode ocorrer de esses personagens dividirem o protagonismo em certos momentos, em quests específicas, ou até mesmo assumir a liderança com o seu PJ.
Aqui, no entanto, algo é diferente desde o começo: nossa party já vem “montada”. Isso chega com um mix de estranheza e curiosidade, já que podemos criar quatro “protagonistas”, personalizar, escolher classes e background. Para quem ama a tela de criação de personagem como eu, esse segmento inicial já entrega uma diversão extra.
Imagine nosso protagonista dividido em quatro personagens, onde as respostas escolhidas podem ser guiadas por cada um deles em momentos específicos, gerando consequências reais. Cada resposta tem um peso e um alinhamento que afetam sua moral com as facções do jogo.
Isso pode gerar a dúvida: mecanicamente, funciona de verdade? Ou estamos apenas controlando quatro personagens com uma mente coletiva, genéricos e sem graça? Felizmente, a resposta é não.
Funciona bem conforme você joga.
Quando é o momento de cada um brilhar? Isso se torna orgânico a partir das características de cada personagem na criação. O inteligente casa com respostas técnicas sobre a lore de um local específico. O rebelde entrega as falas mais ácidas e encrenqueiras. O líder toma frente nas situações que pedem proteção e responsabilidade. E o favorito, o “filhinho da mamãe”, funciona como um elo entre todos e com o mundo ao redor.
A escolha de background também impacta aqui: o tipo de voz, as entonações, a forma de agir. Em uma jogatina, o personagem com “vibes diplomáticas” tomou a frente para iniciar uma conversa; em outra, foi o líder quem assumiu essa iniciativa, simplesmente porque eu não tinha um PJ com esse perfil naquela party.
O que realmente surpreende, porém, são as interações entre eles. Por serem família, as trocas constroem personalidade para a party antes mesmo de qualquer companheiro externo aparecer. O rebelde sempre acha um jeito de implicar com o favorito. O líder intervém exigindo foco. São pequenos momentos, mas que dão vida e calor a esse grupo de uma forma que poucos RPGs conseguem logo de cara. Me lembrei bastante das interações entre os membros em Dragon Age: Origins.
Claro que preciso voltar mais vezes para ver se acaba sendo algo mais randômico por acaso ou se realmente existe uma complexidade “secreta” aplicada aqui. Com isso, inclusive, incentivo você a jogar e tirar suas próprias conclusões.
Resumidamente: na hora de criar, evite colocar apenas um estilo de personagem já mentalizado na cabeça para construir os quatro da mesma maneira. Entre no clima do RP e se imagine jogando com cada um deles, sendo diferente em cada um. Vai dar uma riqueza legal e uma diversão única a esse momento que você se dedicou.
Fico imaginando o potencial disso em um modo multiplayer. Seria literalmente um RPG de mesa em formato digital. E um parabéns à Tactical pelo game com legendassem PT-BR em um CRPG em acesso antecipado; mesmo com alguns probleminhas, é de tirar o chapéu.
Como está a personalização?
É um sistema bem robusto. Temos os padrões da geração aleatória, mas ao reservar mais tempo para a criação, há muitas possibilidades: redimensionar, mudar a localização e a intensidade de certas características, como cicatrizes, marcas e manchas. Um detalhe que poderia ter refinamento melhor com o tempo é a personalização do corpo do personagem, como tamanho e tipo físico. A personalização do rosto, como está agora, não me agradou tanto; poderia ter mais opções com maior refinamento. Claro que, com um pouco de esforço, você supera esse detalhe. É possível sair do genérico e gerar personagens únicos nesse game.
Dublagem e trilha sonora
Um dos destaques que podem chamar a atenção da galera é o ótimo cast de vozes aqui em Solasta II. Devora Wilde, Ben Starr e Amelia Tyler obviamente fazem muita diferença em um cast, mas não exclusivamente por eles. A equipe demonstra entender o poder da voz em uma narrativa, e o game fica mais rico, o sentimento mais presente, com uma carga dramática que combina com o tipo de história que estão propondo nos apresentar. Juntando esse ótimo trabalho com uma trilha sonora diferente e promissora, definitivamente a escolha de ir para uma campanha mais cinemática foi um acerto da Tactical Adventures.
E a gameplay de Solasta II?
Em comparativos, é notável a evolução em relação ao primeiro Solasta, principalmente na parte estética. Ele está bem bonito e surpreendentemente fluido, mesmo com alguns bugs casuais.
Mecanicamente, temos aqui a quinta edição (D&D 5.5e), e não tem muito o que opinar, já que a quinta edição sempre será um tema misto na comunidade. Mas o que posso dizer é que a gameplay foi agradável. Parece muito mais um RPG de mesa de fato, comparado a outros títulos. Os menus estão super fáceis de navegar para selecionar ações, bônus e vantagens.
Um adendo é que segundo a própria equipe: “Podemos usar uma boa parte das regras, magias e outros conteúdos oficiais, mas não tudo.”
Que significa que eles não têm todo acesso ao cânone oficial de D&D, que vai garantir uma leva de conteúdos originais e alterações no decorrer do game.
Um ponto que pode atrapalhar estratégias, já pontuado na demo e que aconteceu comigo: o sistema de detecção faz com que, ao ser localizado, todos os personagens entrem em modo combate de uma vez, o que pode estragar planos mais mirabolantes de quem quer jogar de forma sorrateira. Em relação à dificuldade, é boa. Não temos tantos modos disponíveis, mas os mais acessíveis estão lá desde o início. Se você tiver curiosidade de jogar, mas receio das mecânicas e do aprendizado, não veja problema em começar no modo mais tranquilo e jogar no seu ritmo.
Por estar em acesso antecipado, certas coisas estão limitadas e são legais de abordar em uma review futura, mas, desde já, sigo testando e analisando. Uma coisa que alguns RPGs conseguem fazer bem é a liberdade, ou pelo menos a sensação dela. Testei fazer a bagunça em certos momentos, tentei mudar rumos e rotas, e por hora não encontrei grandes possibilidades; mas é um ponto que ficarei de olho no futuro.
Não compare esse game 100% ao pé da letra com produções já lançadas.Esse projeto tem muito potencial, mas precisa de tempo para se refinar, e com isso entenderemos qual o rumo os desenvolvedores querem seguir.
Boa parte dos pequenos bugs e problemas comuns de um acesso antecipado não prejudicaram em nada minha experiência. Os próprios devs inclusive já estavam lidando com boa parte dos problemas evidentes antes mesmo do acesso antecipado acontecer.
A exploração segue os padrões bons e rotineiros desse estilo de game: não temos um mundo aberto, mas sim várias localidades para se aventurar, com eventos de mapa misturados a eventos rotineiros e aleatórios. Explorar sempre trará benefícios e recomendo. Ao sair de uma área, você entra no “mapa do mundo”, que representa longas viagens em Solasta II. Andar aqui é no estilo tabuleiro. Ações podem ocorrer pelo caminho, pontos de interesse vão aparecendo no mapa e alguns deles são cronometrados a um número específico de descansos. Quanto mais longa a viagem, mais cansados seus personagens ficam.
Você pode forçar a continuar a rota ou aplicar um descanso, e com isso
perder ou não certos pontos de interesse.
Na minha visão, foi um bom upgrade nessa continuação: mapa 3D, variação de terrenos e consequências que geram testes com impacto real.
Você ainda pode adicionar outros membros à sua party. Conforme avança na história, você encontra personagens, faz uma sequência de quests e alguns possuem a opção de se juntar ao grupo.
Os convidados, no tempo que joguei, raramente interagiam de fato ou mudavam algo nas cinemáticas. Ficam estáticos no fundo, sem participar ou dar opiniões. Não sei se será o foco dos desenvolvedores, mas seria muito bem-vindo ver mais interações deles nas cinemáticas, como estamos acostumados em certos jogos do gênero. Eles ainda interagem brevemente em momentos de exploração, o que é interessante, mas ainda não é como vê-los ativos de fato na campanha.
Conclusão
Como amante de RPG, jogar Solasta II foi uma grata surpresa. Esse acesso antecipado mostrou que o game superou muito do que eu esperava para esse título: um projeto divertido, com personalidade própria e muito potencial. O que mais me animou foi perceber que os desenvolvedores parecem saber exatamente o que querem entregar, e estão comprometidos em refinar isso até a versão final. Fico especialmente de olho em como o sistema dos quatro protagonistas vai evoluir e em quanto a liberdade de exploração pretende se expandir.
Ser comparado a grandes jogos logo de cara não é uma tarefa fácil. Comunidades podem ser bem destrutivas a qualquer vacilo e a interpretações erradas sobre um projeto, mas tenho plena confiança que a equipe irá se sair muito bem. O futuro é promissor para esse projeto.
Seguindo esse caminho e mantendo a sua personalidade, Solasta II não será apenas um “tão bom quanto Baldur’sGate3“, mas sim digno de sair dessa sombra e conquistar o seu próprio espaço no cenário.
Tenho um vídeo comentando um pouco mais sobre o preview e com cenas do acesso antecipado, para assistir [CLIQUE AQUI] seu apoio lá é mega importante.
Obrigado à Tactical Adventures e Kepler Interactive por ceder um acesso mega antecipado desse projeto e ao Patobah pelo espaço para postar essa preview.

Criador do canal Toca Du Corvo
