Boa Leitura!

PATONERD | TINTIM E OS PÍCAROS

Tintim e os pícaros apresenta a última obra completa de Hergé com uma visão mais cética sobre revolucionários e ditadores.

O quadrinista que criou seu personagem sob influência do abade católico conservador Nobad Wallez durante o período entre guerras(1920 e 1930), para servir como um personagem infantil de propaganda anticomunista,  agora se distancia de nomenclaturas e expõe seu ceticismo com a política em uma história recheada de arquétipos culturais e políticos.

E é irônico como a primeira e última aventura completa de Tintim estejam entrelaçadas pela política, a primeira como propaganda anticomunista assumidamente servindo a um lado e a última como desapego político e visão cética dos contextos ditatoriais e revolucionários.

E não tem como passar despercebido pela mudança de visão e de tom de Hergé que procura deixar claro:

Sejam revoluções ou ditaduras, o sistema político tende a fracassar na sua missão de ser algo realmente diferente para o povo.

Nesta história não há soluções e o gosto agridoce de nenhuma mudança existente é o que permeia a conclusão da trama. 

Premissa

Publicada em 1976 sendo essa a última história completa de Tintim antes da morte de Hergé em 1983, Tintim e os Pícaros foge do tom aventuresco e aborda uma visão mais cética e centrada sobre os embates políticos do país fictício da América do Sul, San Theodoros.

O país fictício suamericano é alvo de disputas políticas recorrentes entre dois velhos conhecidos da série: o general Alcazar e o general Tapioca.

Neste contexto, Dupont e Dupond sofrem uma emboscada e acabam sendo aprisionados pelo regime do general Tapioca e envolvidos em acusações de conspiração contra o governo. O repórter então decide viajar com seu cãozinho inseparável Milu e seu fiel escudeiro Capitão Haddock para o país com a finalidade de encontrar os paradeiros dos detetives Dupond e Dupont.

O que começa como uma missão de resgate rapidamente se transforma em um envolvimento direto na instável política local. O general Alcazar lidera um grupo de guerrilheiros conhecidos como “pícaros”, que planejam derrubar o regime de Tapioca durante o carnaval (mas hora vejam só). Tintim acaba auxiliando o grupo, mas impõe uma condição curiosa: os rebeldes precisam abandonar o alcoolismo e agir com disciplina para que o plano funcione.

Nota-se aqui a forma caricata como Hergé pinta os revolucionários: Desorganizados e alcoólatras.

A revolução acontece e Alcazar retoma o poder, mas o desfecho deixa uma sensação ambígua. Apesar da troca de liderança, o sistema político permanece essencialmente o mesmo. Essa conclusão reforça o tom irônico e cético que Hergé colocou nesta história: 

a revolução pode mudar os rostos no poder, mas não necessariamente transforma o país.

O ESTILO ÚNICO DE HERGÉ: LIGNE CLAIRE

Hergé era um artista criativo não somente em seus roteiros, mas também em suas experimentações e desenhos. 

Não à toa o estilo de desenho de Tintim, o “Ligne Claire” era sua criação e se tornou um estilo muito presente posteriormente em obras belgas e francesas. 

O Estilo de Hergé consiste em manter os visuais com linhas pretas uniformes e sem variação de espessura, cores chapadas, cenários detalhados e altamente legíveis, ausência de sombreamentos complexos e composição clean e fácil de acompanhar.

Esse estilo foi refinado por Bob de Moor, que passou a ser conhecido como a “segunda mão de Hergé”, tamanha sua contribuição.

E mesmo assim, Tintim e os pícaros estava predestinado a ser um álbum nada convencional ao estilo de Hergé. Apesar de manter o “ligne claire” vivo dentro da história, Hergé se permitiu aplicar mudanças visuais:

Cores mais vivas e tropicais, refletindo o clima carnavalesco latino

aglomeração de pessoas nas ruas, cenários abertos abarrotados de pessoas 

Cenários caóticos, fugindo da linha “clean” e extremamente carregados de cores para realçar o tom Carnavalesco da história

Embora a arte visual de Hergé permaneça, é nítida a extrapolação dos cenários e a mudança caótica para representar o clima de festa folclórica com a hostilidade de um golpe de estado.

Também é fácil notar que Hergé optou por mais cenas de diálogos sarcásticos do que cenas de ação frenética.

A CRÍTICA POLÍTICA DE HERGÉ

Uma das coisas mais marcantes da história é sua abordagem crítica e quase cínica da política. Ao retornar a San Theodoros, o país fictício em questão, que já havia aparecido em histórias anteriores, Hergé cria uma metáfora clara para os ciclos de instabilidade política na América Latina.

A disputa entre Alcazar e Tapioca representa regimes que se alternam no poder por meio de golpes, mas que pouco diferem em suas práticas. O retrato dos guerrilheiros também foge do romantismo revolucionário: os “pícaros” são retratados como desorganizados e dependentes de álcool, algo que já citei anteriormente e quis frisar novamente, pois é uma visão irônica das revoluções idealizadas.

Essa abordagem revela um Hergé mais cético. Ao contrário de histórias anteriores, onde Tintim frequentemente ajudava a restaurar a justiça de forma clara, aqui o resultado final sugere que mudanças políticas podem ser superficiais. HORA VEJAM SÓ!

Além disso, Hergé aprendeu com o início de sua carreira a não posicionar seu protagonista e suas histórias a uma ideologia específica. Em vez disso, critica tanto ditaduras quanto revoluções mal estruturadas, reforçando a ideia de que o problema não está apenas nos líderes, mas no sistema político como um todo.

A LIÇÃO QUE FICA

Tintim e os Pícaros é o fechamento mais improvável para a série. O personagem icônico que nasce de um anseio político e um lado definido, deixa sua última aventura completa de forma cética em relação ao que a política realmente pode fazer pelos seres humanos. 

Hergé já havia passado pela reestruturação de seu personagem, já havia sido chamado de “fraude” por parte da mídia e do público europeu por desaliar-se da visão conservadora predominante na europa pós guerra, e agora entregava um irônico fechamento com uma visão política ácida, satirizando conservadores e revolucionários.

Ao satirizar golpes de Estado, revoluções e disputas pelo poder, o álbum apresenta uma visão desencantada da política. Em vez de celebrar heróis ou ideologias, Hergé parece sugerir que a verdadeira mudança exige algo mais profundo do que simplesmente substituir quem está no comando.

Como resultado, essa última aventura completa de Tintim permanece uma obra singular dentro da série até hoje.

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