Conheça a obra inacabada de Hergé: Tintin e a Alfa Arte
Eternidade é comumente o alvo mais almejado por aqueles que abandonam suas próprias vontades para fazer o impossível: viver da arte.
E os artistas de sucesso quase sempre são pessoas não convencionais, mas também nada extraordinárias. Elas apenas conseguem captar a essência de algo e desenvolver isso em forma de arte com um olhar único e preciso.
E essa era uma das maiores qualidades de Hergé ao criar as histórias do repórter Tintim, seu cãozinho Milu e o seu amigo fiel capitão Haddock.
Histórias como “O Tesouro de Rackham, o terrível”, “As Jóias de Castafiore”, “O Lótus Azul” e “Rumo a Lua + Explorando a Lua” mostram a capacidade de Hergé de captar a essência da aventura e transpor ela para algo único, divertido e inesquecível.
Foram lançados ao todo 23 Álbuns pela editora Casterman contendo os sucessos de Tintim e com isso veio também o sucesso da série televisiva de Tintim, um desenho que atravessa gerações e que no Brasil, era indispensável nas tardes da TV Cultura.
O QUE É A ALFA-ARTE?
Em 1978 Hergé começou a desenvolver o 24º álbum de Tintim intitulado “Tintim e a Alfa arte”, uma história que jogaria Tintim no mundo das falsificações de obras de arte contemporânea envolvendo seitas religiosas.
A Hq mostraria Tintin investigando o assassinato de um galerista em Bruxelas e descobrindo uma rede de falsificação de obras de arte ligada a um guru chamado Endaddine Akass.
Hergé trabalhou nessa história com seus desenhos sem acabamento, rascunhos, layouts rústicos e rabiscos, anotações de roteiro, esboços a lápis e já contava com cerca de 150 páginas de material preparatório, o que mostrava a dedicação e empenho de Hergé em realizar suas pesquisas antes de partir para a finalização do projeto.
Mas tudo isso foi interrompido em 1983 quando Hergé veio a falecer deixando um vasto arquivo de uma obra incompleta, sem nem mesmo um final definido.
Como as obras de Hergé normalmente possuíam 62 páginas, o material encontrado deixava aproximadamente de 15 a 20 páginas sem arte final e sem resolução.
A última cena escrita por Hergé para essa história antes de sua morte, mostraria a captura de Tintim pelo vilão, e a partir daí tudo que dissermos sobre o fim dessa história é pura imaginação.
Com a morte de Hergé e o luto pela perda de um dos maiores artistas da história dos quadrinhos e da cultura pop, a editora Casterman começou a trabalhar no levantamento desses arquivos para que sua equipe pudesse dizer com precisão o que foi deixado, o que havia sido escrito, até onde a história iria se fosse passada para o roteiro final e para os quadrinistas e o que exatamente eles tinham em mão do material deixado por Hergé.
Foram encontrados cadernos com storyboard, páginas de layout, folhas soltas com quadros esboçados e diversas notas de roteiro.
Com o material em mãos a Casterman lançou o 24º de Hergé: Tintim e a Alfa-Arte.
Uma HQ que continha apenas o material deixado por Hergé, sem alterações.
Páginas de rascunhos, rabiscos, anotações, esboços, pedaços do roteiro. Enfim, uma verdadeira obra documental de como Hergé trabalhava, 100% em preto e branco, exatamente como Hergé havia deixado, e, sem final.
Uma obra que celebrava o ponto em que o artista deixou sua marca em vida para se tornar eternidade.
Tintim e a Alfa-Arte é essencial aos fãs de Hergé, pois mostra toda a sua forma de conceber uma história e como ele chegava nos resultados de suas histórias.
O Album foi lançado em 1986. A viúva de Hergé, Fanny Vlamynck, recusou a proposta de Bob de Moor, um famoso quadrinista que se dispôs a usar o material deixado por Hergé para finalizar a história.
Tanto a viúva quanto a editora escolheram eternizar a obra de Hergé publicando exatamente o que ele havia deixado e como ele havia deixado.
Mesmo inacabado, Tintim e a Alfa-Arte foi oficializado como o Álbum final das Aventuras de Tintim.